Como orientar uma revisão de literatura em 5 passos

É possível que você já tenha atendido algum usuário que te apresentou a seguinte questão:

Estou pesquisando XYZ e preciso fazer a revisão de literatura para o meu (troque aqui pela palavra que quiser: TCC, dissertação, tese etc.).

Por onde eu começo?

Com a variedade existente de ferramentas e técnicas de busca existentes hoje, não é muito difícil o bibliotecário ter dificuldade para iniciar uma pesquisa como o usuário.

Por isso, o bibliotecário precisa conhecer alguns passos para orientar o usuário na revisão de literatura do seu trabalho acadêmico. Mas antes de mais nada…

Você sabe o que é revisão de literatura?

Segundo o Online Dictionary for Library and Information Science (ODLIS), a revisão de literatura é definida como:

Uma pesquisa abrangente dos trabalhos publicados em um campo específico de estudo ou linha de pesquisa, geralmente durante um período de tempo específico, na forma de um ensaio bibliográfico crítico aprofundado ou de uma lista anotada em que é dada atenção aos trabalhos mais significativos.

Além disso, também existe outro significado para revisão de literatura, que é o seguinte:

Em periódicos acadêmicos, particularmente aqueles que publicam pesquisas originais nas ciências físicas e sociais, a primeira seção de cada artigo é dedicada a uma revisão da literatura publicada anteriormente sobre o assunto, com referências no texto a notas de rodapé ou uma lista de trabalhos citados no final.

Neste artigo, vamos trabalhar com a segunda definição, pois como apresentamos no início, o objetivo aqui é orientar o usuário na elaboração da revisão de literatura para o trabalho dele.

Vamos começar?


PASSO 1: Palavras-chave

Muito bem: o usuário já te falou o tema de pesquisa. Mas… quais são as palavras-chave relacionadas a esse tema? Antes de indicar alguma ferramenta ou técnica de pesquisa para o usuário, é preciso saber duas coisas:

  1. Quais são as palavras-chave principais relacionadas ao assunto?
  2. Qual é a questão de pesquisa?

Com essas informações, o bibliotecário já poderá ter em mente alguma ferramenta ou técnica de pesquisa que possa ajudar o usuário.

Por que?

Pelo simples fato das palavras-chave e da questão de pesquisa revelarem o conteúdo que o usuário quer pesquisar.

Ao pensar no conteúdo, naturalmente o bibliotecário já pensa em possíveis ferramentas úteis para o usuário.

Uma dica é indicar primeiro bases de dados multidisciplinares como a Web of Science ou Scopus. Porque? Por que nesse tipo de base de dados o usuário consegue ter uma visão geral do assunto e, assim, observar outros possíveis aspectos relacionados ao seu tema.

Sua instituição não possui acesso a essas bases? Não se desespere! Existem ótimas fontes de informação em acesso aberto que você pode indicar, como o SciELO, o Directory of Open Access Journals (DOAJ) e o Directory of Open Access Books (DOAB). E são somente algumas! Existem muitas!


PASSO 2: Seleção das palavras-chave

Agora que você já sabe com precisão do conteúdo da sua pesquisa, basta selecionar as palavras-chave.

Como fazer isso?

Veja só: é mais simples do que você pode imaginar!

Aí vão algumas dicas:

  • Selecione um artigo de interesse para a sua pesquisa e veja quais palavras-chave o autor utilizou. Dessa forma, você pode se certificar de que aquelas palavras são as mais relevantes para o seu assunto.
  • Escolha uma lista de termos controlados, como um vocabulário controlado ou um tesauro, e faça uma pesquisa pela sua palavra-chave. Pode ser que você não encontre a sua palavra. Se isso acontecer, não se desespere! Na lista de termos, você encontrará sinônimos ou até mesmo outras palavras que poderão ajudar na sua pesquisa.

O passo fundamental para a seleção das palavras-chave é identificar os termos principais da sua questão de pesquisa.

Sendo assim, você pode “quebrar” sua questão de pesquisa em partes menores. Com isso, identificar mais facilmente os termos para selecionar suas palavras-chave.

Quando falamos de termos principais, em geral nos referimos aos substantivos. Eles têm uma carga de significado inexistente em artigos e conjunções, por exemplo.

Agora que você selecionou as palavras-chave, você está pronto para ir para o passo 3.


PASSO 3: Recursos de pesquisa

Agora começa uma nova etapa: com as palavras-chave na mão, é hora de conhecer os recursos de pesquisa!

Vamos transformar a questão de pesquisa do usuário em uma estratégia de busca.

Como fazer isso?

Você vai precisar de:

  • Operadores booleanos: são elementos de ligação utilizados entre as palavras-chave. Eles podem apresentar alguma variação entre as bases de dados, mas os mais comuns são:
    • AND: recupera o termo A e B no mesmo documento, por isso, restringe os resultados.
    • OR: recupera o termo A, ou o termo B ou ambos no mesmo documento, por isso, amplia os resultados. Recomendamos usar para recuperar sinônimos (que você deve ter encontrado quanto procurou a lista de termos controlados).
    • NOT: descarta os termos que forem digitados após NOT, por isso, também restringe os resultados.
  • Operadores de proximidade: são elementos que trazem as palavras-chave próximas umas das outras.
  • Truncamento: são elementos que recuperam variações das palavras-chave. Em geral, são representados pelos seguintes símbolos:
    • * : pode ser utilizado tanto para recuperar variações tanto no início como no final da palavra (ex.: bibliotec*)
    • ? : geralmente (pois sua função pode variar conforme a base de dados utilizada) recupera uma variação da palavra. Também pode ser usado tanto no início como no final.

PASSO 4: Conecte as ideias

Você já conhece as questão de pesquisa e as palavras-chave do usuário. Agora, chegou a hora de conectar todas as palavras com os recursos de pesquisa.

Veja um exemplo na prática.

Vamos supor que o usuário queira pesquisar sobre se a dor de cabeça pode ter alguma relação com o fígado. Como proceder?

Você identificou que a questão de pesquisa é:

A dor de cabeça pode ter alguma relação com o fígado?

As palavras-chave, nesse caso, são:

  • dor de cabeça
  • fígado

Mas… atenção: como bom bibliotecário, procure pelos sinônimos em um vocabulário controlado!

Vamos procurá-los no Medical Subject Headings (MeSH). Antes disso, precisamos traduzir os nossos termos para o inglês: headache (dor de cabeça) e liver (fígado).

Feito isso, localizamos no MeSH os seguintes sinônimos para headache:

  • Headaches
  • Head Pain
  • Head Pains
  • Pain, Head
  • Pains, Head
  • Cephalodynia
  • Cephalodynias
  • Cranial Pain
  • Cranial Pains
  • Pain, Cranial
  • Pains, Cranial
  • Cephalalgia
  • Cephalalgias
  • Cephalgia
  • Cephalgias
  • Generalized Headache
  • Generalized Headaches
  • Headache, Generalized
  • Headaches, Generalized
  • Ocular Headache
  • Headache, Ocular
  • Headaches, Ocular
  • Ocular Headaches
  • Orthostatic Headache
  • Headache, Orthostatic
  • Headaches, Orthostatic
  • Orthostatic Headaches
  • Vertex Headache
  • Headache, Vertex
  • Headaches, Vertex
  • Vertex Headaches
  • Retro-Ocular Headache
  • Headache, Retro-Ocular
  • Headaches, Retro-Ocular
  • Retro Ocular Headache
  • Retro-Ocular Headaches
  • Sharp Headache
  • Headache, Sharp
  • Headaches, Sharp
  • Sharp Headaches
  • Throbbing Headache
  • Headache, Throbbing
  • Headaches, Throbbing
  • Throbbing Headaches
  • Unilateral Headache
  • Headache, Unilateral
  • Headaches, Unilateral
  • Unilateral Headaches
  • Hemicrania
  • Bilateral Headache
  • Bilateral Headaches
  • Headache, Bilateral
  • Headaches, Bilateral
  • Periorbital Headache
  • Headache, Periorbital
  • Headaches, Periorbital
  • Periorbital Headaches

E este sinônimo para liver:

  • Livers

Juntando os termos e suas variações em uma estratégia de busca, temos:

(Headaches OR “Head Pain” OR “Head Pains” OR “Pain, Head” OR “Pains, Head” OR Cephalodynia OR Cephalodynias “Cranial Pain” OR “Cranial Pains” OR “Pain, Cranial” OR “Pains, Cranial” OR Cephalalgia OR Cephalalgias OR Cephalgia OR Cephalgias OR “Generalized Headache” OR “Generalized Headaches” OR “Headache, Generalized” OR
“Headaches, Generalized” OR “Ocular Headache” OR “Headache, Ocular” OR “Headaches, Ocular” OR “Ocular Headaches” OR “Orthostatic Headache” OR “Headache, Orthostatic” OR “Headaches, Orthostatic” OR Orthostatic Headaches” OR “Vertex Headache” OR “Headache, Vertex” OR “Headaches, Vertex” OR “Vertex Headaches” OR “Retro-Ocular Headache” OR
“Headache, Retro-Ocular” OR “Headaches, Retro-Ocular” OR “Retro Ocular Headache” OR “Retro-Ocular Headaches” OR “Sharp Headache” OR “Headache, Sharp” OR “Headaches, Sharp” OR “Sharp Headaches” OR “Throbbing Headache” OR “Headache, Throbbing” OR “Headaches, Throbbing” OR “Throbbing Headaches” OR “Unilateral Headache” OR
“Headache, Unilateral” OR “Headaches, Unilateral” OR “Unilateral Headaches” OR Hemicrania OR “Bilateral Headache” OR “Bilateral Headaches” OR “Headache, Bilateral” OR “Headaches, Bilateral” OR “Periorbital Headache” OR “Headache, Periorbital” OR “Headaches, Periorbital” OR “Periorbital Headaches”) AND (Liver OR Livers)

Não se assuste com o tamanho da estratégia! E acredite: essa é uma estratégia simples. Não usamos nem operadores de proximidade e nem de truncamento!

A estratégia de busca do usuário está pronta para ser usada! Mas lembre-se que ajustes podem ser necessários conforme a base de dados utilizada.


PASSO 5: Identifique limites

Depois de todos esses passos, é importante definir os limites da busca.

É muito comum as bases de dados de hoje possuírem recursos para filtrar os resultados. Esses filtros podem ser relativos a vários tipos de informação: autor, instituição, ano, título da publicação, nome do evento… e muito mais!

Assim, ao orientar uma revisão de literatura, você pode guiar o usuário com as seguintes questões:

  • Qual tipo de documento você está procurando: artigos? livros? patentes? normas? legislação? notícias?
  • Você procura algum período específico?
  • Você procura por algum periódico específico?
  • Alguma editora específica?
  • Alguma instituição específica?

Essas questões são importantes são importantes, pois a princípio nem sempre os usuários levam esses limites em consideração.

É claro que no início é interessante que a busca seja abrangente, pois isso permite ter uma visão geral do assunto. Mas à medida que a busca for sendo delimitada, esses filtros são muito importantes para se chegar aos resultados desejados.


O QUE VEM EM SEGUIDA?

Eu espero sinceramente ter te ajudado a entender como funciona a revisão de literatura e como orientar o usuário com dúvida sobre esse assunto. Talvez você seja como eu, bibliotecário universitário, que quer ajudar o usuário a entender melhor o mundo da pesquisa acadêmica.

Mas você sabe que a rotina de um bibliotecário é bastante agitada e não aprendemos tudo na faculdade:

  • Como utilizar as bases de dados em profundidade
  • Explorar e usar todos os recursos de pesquisa
  • Criar estratégias de busca específicas, nem em bases de dados, nem em buscadores da internet

Por isso, ao longo do tempo eu aprendi que é preciso continuar se capacitando mesmo depois de formado. Isso que vou te apresentar pode, inclusive, contribuir também com a sua capacitação profissional.

O que é?

O Curso Revisão de Literatura: Da busca em bases de dados à escrita do referencial teórico. Ele foi criado pela Amália e pelo Felipe da Acadêmica, um site cujo objetivo é  ajudar os pós-graduandos do Brasil em suas pesquisas.

O curso é 100% online e se você quiser participar, aproveite um dos 3 planos de assinatura para esse e outros cursos:

Tenho certeza que você vai se aprofundar muito mais em revisão de literatura com esse curso.

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