Suécia abre primeira biblioteca de livros censurados do mundo, inclusive os de Paulo Coelho

A nova Biblioteca Dawitt Isaak, especializada em livros censurados no mundo, foi inaugurada no complexo do Arquivo Geral da cidade de Malmö, no sul da Suécia. O nome é uma homenagem ao jornalista e autor Dawit Isaak, que desde 2001 é mantido preso sem julgamento na Eritréia por ter publicado críticas ao regime. Nascido no país africano, Isaak tem cidadania sueca e em 2003 foi homenageado com o Prêmio Liberdade de Expressão, concedido pela organização Repórteres Sem Fronteiras na Suécia.

Nas prateleiras da biblioteca, estão exemplares de obras que são ou já foram censuradas ou queimadas em diferentes países, escritas por autores que enfrentaram a prisão, a censura ou o exílio. O acervo reúne ainda músicas e peças teatrais proibidas, e ampla literatura sobre liberdade de expressão, censura e democracia.

“A censura não é algo que pertence à história. Autores ainda são ameaçados, ainda que as razões para tal variem de país para país em diferentes períodos. E ainda é difícil ter acesso a literatura contemporânea proibida ou censurada em diversos países. Nesse sentido, a biblioteca cumpre um importante papel”, disse à RFI Emelie Wieslander, diretora da biblioteca e chefe do departamento de Documentação e Liberdade de Expressão do Arquivo Geral de Malmö.

A nova biblioteca abriga tanto obras antigas como contemporâneas. Algumas são famosas pelo fato de seus autores terem sido ameaçados ou perseguidos – um exemplo é o livro Versos Satânicos, do anglo-indiano Salman Rushdie. A obra foi considerada ofensiva ao profeta Maomé por lideranças islâmicas, e em 1989 Rushdie foi condenado à morte pelo então líder religioso do Irã, o aiatolá Khomeini.

Outros exemplos são menos conhecidos: O Touro Ferdinando, do americano Munro Leaf, foi proibido pelo regime de Franco na Espanha por ter sido considerado “propaganda pacifista”, e na Alemanha de Adolf Hitler todos os exemplares foram queimados. “A cidade de Malmö tem forte tradição de trabalhar pela liberdade artística, e oferece por exemplo refúgio para autores e artistas em situação de risco”, destaca a diretora da biblioteca.

“Decidimos criar a Dawitt Isaak após percebermos que não existia nenhuma biblioteca pública que pudesse oferecer ao público literatura que é ou já foi proibida ou censurada. É importante que bibliotecas sejam espaços onde as pessoas possam formar suas próprias opiniões. E para isso, as pessoas precisam de fatos. Censurar livros e ideias não fortalece a democracia – muito pelo contrário”, acrescenta Emelie Wieslander.

Cada livro da biblioteca contém informações sobre por qual razão o livro foi censurado, quando e onde. A fim de expandir o acervo inicial de 1.600 itens, a Biblioteca Dawit Isaak busca indicações de obras, autores, músicos e artistas em geral que tenham sido banidos ou provocado controvérsias na América Latina e em diferentes regiões do mundo. Sugestões podem ser enviadas para o endereço de email dawitisaakbiblioteket@malmo.se

Banido no Irã, Paulo Coelho integra acervo

 

Entre as obras latino-americanas, O Alquimista e outros livros do brasileiro Paulo Coelho foram retirados das prateleiras do Irã em 2011, quando o regime baniu a editora Caravan Books, responsável pelas publicações. O Ministério da Cultura iraniano justificou a medida na época com a afirmação de que o diretor da editora, Arash Hejazi, era um “contrarrevolucionário fugitivo” – em 2009, o diretor havia sido filmado em um protesto contra os resultados das eleições presidenciais de junho daquele ano. O ministério afirmou, por outro lado, que os livros de Paulo Coelho poderiam ser publicados por outras editoras iranianas.

Historiador francês vem à USP para debate sobre o medo dos livros

Em evento no Instituto de Estudos Avançados, Jean-Yves Mollier vai abordar o poder político da literatura

Por  – Editorias: Cultura
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Há quem considere o advento da escrita como o maior divisor de águas da história da humanidade. Tomando essa premissa como verdadeira, não é surpresa que certos livros, em razão de seu poder de moldar a sociedade, tenham inspirado medo a ponto de serem censurados, banidos ou destruídos. A partir da pergunta “Quem tem medo dos livros?”, o historiador francês Jean-Yves Mollier vem à USP para uma conferência no Instituto de Estudos Avançados (IEA), coordenada pela professora Marisa Midori Deaecto, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O evento é nesta quinta-feira, dia 17, às 10h30, na Sala de Eventos do IEA.

O medo foi o tema escolhido pela rede internacional Ubias (University-based Institutes for Advanced Study) para ser debatido neste ano em diversas áreas do conhecimento. A escolha veio a calhar para a professora Midori e o professor Mollier, da Universidade de Versalhes Saint-Quentin-en-Yvelines, na França, que já conversavam sobre a ideia de discutir o medo dentro e ao redor dos livros.

“Em 2016 a obra Mein Kampf, de Hitler, caiu em domínio público, o que gerou discussões em torno de sua republicação na França, na Alemanha e em outros países, o que nos deu a ideia para o debate. De fato, Mein Kampf é um livro que se enquadra bem no que queríamos discutir, pois há medo em torno do que essa obra simboliza e também do que é pregado dentro dela”, explica a professora.

A partir de uma introdução em que a professora Midori apresentará algumas questões para o público e para o conferencista, o professor Mollier deverá traçar um panorama histórico da relação de poder e medo em torno dos livros. Para isso, abordará momentos da história em que o livro foi tido como uma ferramenta maligna por instituições como a Igreja Católica – como a época da publicação do Index Librorum Proibitorum, que entre 1559 e 1966 listava obras de leitura proibida aos fiéis – e outros em que o livro foi importante para mudanças políticas.

O historiador francês Jean-Yves Mollier: censura a livros ao longo da história será destaque em sua palestra – Foto: Marcos Santos

“Jean-Paul Marat costumava ler em praça pública a obra O Contrato Social, de Rousseau, no período da Revolução Francesa. Na França, o livro sempre teve um papel revolucionário muito forte. O professor Mollier certamente falará bastante sobre esse tema, além de censuras que aconteceram mais adiante, nos séculos 19 e 20, em reações da Igreja à laicização do ensino, de uma perspectiva francesa e europeia”, diz a professora Marisa.

“Vamos abordar também o papel do livro em movimentos políticos recentes, como na Primavera Árabe e nas Jornadas de Junho, aqui no Brasil, em que havia jovens empunhando livros nas manifestações. O livro tem um fator simbólico muito importante nesses episódios, e sempre teve muita influência nas lutas da juventude.”

Por esse motivo, a professora afirma que, embora hoje em dia não haja uma censura explícita, o medo do poder político e revolucionário que os livros possuem ainda persiste. É o caso com Mein Kampf, em que Hitler estabeleceu seu ideário de genocídio e dominação. “Há muito medo de que a reedição de Mein Kampf possa servir de impulso para a xenofobia e o ódio que o livro prega, especialmente no momento histórico que vivemos hoje”, diz a professora.

Para ela, porém, a censura nunca é solução. “Sou contra a censura a qualquer livro, a qualquer coisa na verdade. Se decidirem por reeditar o livro, apoio que isso seja feito com o devido debate, com a contextualização de quem foi o autor, em qual momento ele escreveu suas ideias e os horrores que foram causados pela aplicação delas. É o debate que pode enfraquecer o poder de um livro, não a censura.”

Marisa lembra ainda que hoje, com a internet, é muito mais difícil impedir o acesso a qualquer tipo de material, o que permite que uma obra como a do ditador nazista seja divulgada sem as considerações necessárias. Isso, no entanto, não quer dizer que a censura esteja com os dias contados.

A professora Marisa Midori: “É o debate que pode enfraquecer o poder de um livro, não a censura” – Foto: Francisco Emolo/USP Imagens“Não temos hoje exemplos de censura explícita por parte de governos ou instituições religiosas, como aconteceu diversas vezes na história, mas há uma espécie de censura velada por parte do mercado editorial, que hoje opera pela lógica do lucro, chefiado por profissionais que são mais gestores do que editores”, afirma. Segundo a professora, os grandes conglomerados editoriais e os vínculos que estabelecem com livrarias e meios de comunicação e difusão de conhecimento acabam limitando o acesso a determinados livros.

“O leitor passivo só lerá aquilo que lhe for disponibilizado, como acontece com quem assiste a telejornais ou lê jornais e revistas impressas. Para encontrar outras visões que não a hegemônica, é preciso ir atrás delas. Assim, somente um público restrito tem contato com títulos importantes que questionam problemas do mundo atual e que teriam o poder de provocar mudanças, mas que, por não serem publicadas pelas grandes editoras, circulam apenas à margem.”

“A internet tem a capacidade de publicizar e divulgar esse tipo de obra, mas somente para quem procurar por ele. Hoje, o mercado editorial acaba ditando o que é a boa leitura, de maneira semelhante ao que a Igreja fazia tempos atrás”, completa a professora.

A conferência Quem tem medo dos livros?, com o historiador francês Jean-Yves Mollier e coordenação da professora da ECA Marisa Midori, ocorre na quinta-feira, dia 17 de agosto, às 10h30, na Sala de Eventos do IEA. O endereço é rua da Praça do Relógio, 109, no 5º andar do Bloco K, na Cidade Universitária. O evento é público e gratuito, mediante inscrição prévia neste formulário, e terá tradução simultânea do francês para o português e transmissão ao vivo pelo site www.iea.usp.br/aovivo.

Disponível em: <http://jornal.usp.br/cultura/historiador-frances-vem-a-usp-para-debate-sobre-o-medo-dos-livros/>. Acesso em: 16 ago. 2017.

Tailândia proíbe livro ‘difamatório’

O governo da Tailândia proibiu a venda e distribuição de um livro escrito por um jornalista britânico sobre a política do país, que as autoridades consideram “difamatório” para a monarquia.

“O livro coloca em perigo a segurança nacional, a paz e a ordem pública”, afirma um comunicado assinado por Somyot Poompanmung, chefe da polícia nacional.

“De acordo com a lei de 2007 sobre as publicações, fica proibido importar o livro para distribuição no país”, completa a nota.

A violação da proibição pode resultar em uma pena de três anos de prisão e multa de 60.000 bahts (1.500 euros).

“A Kingdom in Crisis” (Um reino em crise), escrito por Andrew MacGregor Marshall, que foi correspondente na Tailândia, lançado em outubro por uma editora britânica, comenta a crise atual, o tabu da sucessão real e a luta pela democracia.

O jornalista, que não mora mais na Tailândia, reagiu com ironia no Twitter:

“Muito obrigado à polícia tailandesa por proibir meu livro”, escreveu, antes de ressaltar que esta é uma “excelente publicidade”.

Vários livros sobre a família real, incluindo uma biografia do rei com o título “The king never smiles” (O rei nunca sorri), do jornalista Paul Handley, já foram proibidos no país.

Disponível em: <http://www.blogdogaleno.com.br/2014/11/13/tailandia-proibe-livro-difamatorio>. Acesso em: 14 nov. 2014.

“A Culpa É das Estrelas” é banido de biblioteca escolar

cidade.verde.com – 26/09/2014

O livro A Culpa É das Estrelas, do escritor americano John Green, foi banido das bibliotecas de uma escola pública da cidade de Riverside, na Califórnia. Segundo o site da revista The Hollywood Reporter, a proibição do romance que retrata o relacionamento de dois adolescentes com câncer e que foi adaptado para o cinema aconteceu após a reclamação da mãe de um aluno da Frank Augustus Miller Middle School. Karen Krueger afirmou que estava “chocada” com o fato de um livro que trata de morte e sexo estar disponível para crianças de 11 a 13 anos da unidade.

A escola reuniu um comitê e, por seis votos a um, decidiu remover as três cópias do romance de Green da biblioteca. Desde 1988, a unidade já recebeu 37 reclamações de pais que pediam que outros volumes fossem proibidos, mas só havia banido um livro até agora, The Chocolate War, de Robert Cormier, em 1996. De acordo com o site The Press Enterprise, que entrou em contato com a Frank Augustus Miller, A Culpa É das Estrelas ainda estará disponível nas bibliotecas de escolas de ensino médio da mesma rede.

Em sua página no Tumblr, John Green comentou a proibição. “Estou feliz porque, aparentemente, essas crianças de Riverside nunca vão ser testemunhas da morte já que elas não vão ler meu livro”, escreveu, em tom irônico. “Mas também estou triste porque eu esperava poder introduzir a ideia de que pessoas podem morrer a essas crianças e acabar com suas esperanças de imortalidade.”

(fonte: Veja)

Disponível em: <http://www.blogdogaleno.com.br/2014/09/29/a-culpa-e-das-estrelas-e-banido-de-biblioteca-escolar>. Acesso em: 3 out. 2014.

Seminário “Travessias: o modernismo luso-brasileiro entre liberdades e interdições”

Travessias: o modernismo luso-brasileiro entre liberdades e interdições

O Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura (NPCC) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) promove, entre os dias 14 e 16 de setembro, o seminário “Travessias: o modernismo luso-brasileiro entre liberdades e interdições”.

A proposta do seminário é evidenciar e colocar em debate uma nova forma de pensar as relações entre Brasil e Portugal. Para isso, o evento propõe a problematização das identidades nacionais dos países em questão e das produções culturais híbridas, em tempos de regimes autoritários, bem como dos processos de interdição à arte, matizando o ideário de uma tradicional relação entre colonizador e colonizado.

Serão realizadas quatro mesas de discussão, com os títulos: “Humor e linguagens atravessadas”, “Diálogos e memórias atravessados”, “Travessias artísticas híbridas” e “Travessias restritivas político-sociais”. Além disso, a programação do evento inclui leituras dramáticas de trechos de peças teatrais censuradas e uma apresentação dos Doutores da Alegria, discutindo a temática do humor.

Entre os palestrantes convidados, estão a Profa. Dra. Heloísa Paulo, da Universidade de Coimbra, e o cartunista e historiador português Osvaldo Macedo de Sousa. Ao longo do evento, os participantes poderão conferir uma exposição com trabalhos de autoria do artista, que abordam a censura em Portugal e no Brasil. Haverá também uma videoconferência com a Profª. Drª. Ana Maria Cabrera, pesquisadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ) de Lisboa.

Coordenado pela Prof.ª Dr.ª Maria Cristina Castilho Costa, o evento é apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que também concede benefício ao Projeto Temático “Comunicação e Censura: análise teórica e documental de processos censórios a partir do Arquivo Miroel Silveira da Biblioteca da ECA/USP”.

O Arquivo Miroel Silveira, estudado pelo Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura, contém 6.137 processos de censura prévia teatral emitidos no Estado de São Paulo, entre 1930 e 1970. Em meio a esse acervo, há diversos processos de censura que vinculam autores, artistas e obras teatrais no Brasil e em Portugal. Começava, assim, um intercâmbio através do trânsito de pessoas e das adaptações de textos.

—–

Data:

14, 15 e 16/09

Local:

Teatro da USP (abertura): Rua Maria Antonia, 294 – Consolação

Escola de Comunicações e Artes da USP (demais atividades): Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443 – Cidade Universitária

Horário

: das 16h às 18h (dia 14/09) e das 10h às 18h (dias 15 e 16/09)

A entrada é franca e as vagas são limitadas. As inscrições devem ser realizadas previamente pela internet, no endereço: www.usp.br/npcc/travessias2011/inscricao.

Para mais informações: (11) 3091-1607; travessias2011@gmail.com; www.usp.br/npcc/travessias2011.

A programação completa está disponível no site do NPCC (http://npcc.vitis.uspnet.usp.br/?q=travessias2011/programacao).

Links de interesse

Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura:

www.eca.usp.br/npcc

Inscrições para o Seminário Travessias 2011:

Humorgrafe:

http://humorgrafe.blogspot.com/

Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator – CEPECA/USP:

http://www.eca.usp.br/cepeca/

Doutores da Alegria:

http://www.doutoresdaalegria.org.br/

Vídeo Box – Núcleo de Pesquisa da USP coleta depoimentos em vídeo sobre censura em evento Internacional de Comunicação

Trata-se de uma experiência inovadora de captação de depoimentos e opiniões sobre o tema Censura e Liberdade de Expressão.

Em um ambiente controlado, isolado acústica e visualmente, o indivíduo é confrontado com um tema que tem que desenvolver diante da câmera por um período pré-determinado de tempo.

A experiência foi elaborada pelo NPCC – Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura, que tem sua sede na Escola de Comunicações e Artes da USP e se dedica a pesquisas sobre censura e liberdade de expressão nas artes e nos meios de comunicação, como jornais, rádios, e TVs, no Brasil e em outros países.

O Projeto de Videoentrevistas iniciou-se em 2009 dentro do núcleo sob coordenação do Prof. Cesar Bargo Perez e orientação geral da Profa. Dra. Cristina Castilho Costa. Até 2011 já foram feitas 42 entrevistas em diferentes abordagens: uma linguagem de tomada de opinião, em ambiente público; entrevistas temáticas feitas junto a artistas circenses; e de cunho testemunhal, realizadas junto a juristas, jornalistas, professores universitários, entre outros profissionais, a partir de suas vivências nos Anos de Chumbo. O intuito primeiro das entrevistas é o de captar a opinião dos entrevistados sobre a censura através das lentes da câmera de vídeo As entrevistas estão disponíveis no endereço http://npcc.vitis.uspnet.usp.br/?q=videoentrevista.

Aproveite para participar dessa experiência. Venha dar a sua opinião sobre o tema! A video box estará instalada na entrada do bloco central da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), nos dias 1 e 2 de agosto, durante o Confibercom 2011 – 1º Congresso Mundial de Comunicação Ibero-Americana. Participe!

Local: Prédio Central da Escola de Comunicações e Artes – USP

Dias: 1 e 2 de agosto de 2011

Atividade Gratuita

Apontamentos sobre “De Gutenberg à infra-estrutura global da informação: o acesso à informação no mundo em rede”

Em outro livro que li nas férias, especificamente em Janeiro, (“From Gutenberg to the global information infrastructure: access to information in the networked world”, de Christine L. Borgman), achei interessante a citação do trabalho de Bowker e Star (1999) sobre a ideologia nos catálogos, isto é, os termos contidos nos seus registros bibliográficos refletem a presença de uma ideologia de uma determinada época, indicando aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais de um momento histórico.

Posteriormente, Borgman apresenta ao leitor uma reflexão interessante sobre a invisibilidade do trabalho com a informação, identificada em um trabalho de Paisley (1980). No ambiente digital, contudo, esse trabalho tende a se tornar cada vez mais visível na medida em que ferramentas online permitem uma comunicação mais próxima com os usuários, para quem todos os produtos e serviços bibliotecários devem estar voltados. Vale ressaltar que as atividades clássicas de coleta, aquisição, tratamento e disseminação da informação continuam, porém com a adoção de padrões digitais, como o Dublin Core. Além disso, os direitos autorais dos materiais digitais também se colocam como desafios para os bibliotecários, não apenas por se encontrarem em um suporte eletrônico, mas também por permitirem formas de acesso diferenciadas, que devem ser definidas no momento de aquisição dos mesmos.

A questão da invisibilidade do conteúdo e custos de acesso é apresentado em Borgman (1997) e Miller (1997). Primeiramente ela aponta a dicotomia de recursos online e offline, discutindo que muitas fontes de informação encontram-se offline, ou seja, fora da Internet. Isso se deve a recente criação de bases de dados online, iniciada na década de 1970, bem como pelo fato de poucos índices impressos terem sido criados no começo dos anos 1960.

No contexto da informação paga versus livre, a autora discute que muitos materiais de pesquisa, por exemplo, possuem um custo proibitivo para os usuários, como bases de dados e periódicos acadêmicos, que geralmente são assinados por bibliotecas universitárias. Da mesma forma, governos, grupos religiosos ou políticos e ONGs podem prover informação por meio de recursos financeiros próprios. Portanto, a informação nem sempre é gratuita, mas isso ocorre pelo fato do custo da mesma geralmente não ser repassada aos usuários.

Quanto ao valor agregado conteúdo, Borgman (2003) aponta que os usuários devem considerar fatores intangíveis ao conteúdo, tais como integridade da fonte de informação e validade do conteúdo. Para tanto, deve-se contar com a assistência do provedor de conteúdo, por exemplo, de uma base de dados, de modo que dúvidas acerca da busca, formato ou versões do documento possam ser sanadas sem prejudicar a disponibilização e o acesso à informação. Nesse contexto, a autora exemplifica com a importância da qualidade e integridade informação jurídica fornecida para advogados, que pode levá-los a ganhar ou perder uma causa.

Por fim, chamou-me a atenção os trabalhos de Rupnik (1991), Shane (1994), Skvorecky (1991) e Z (1991) sobre a prática do Samizdat na ex-URSS. Nas palavras de Borgman (2003, p. 250, tradução nossa), apoiada pelos autores anteriormente citados, o Samizdat era uma “[…] forma de auto-publicação clandestina, incluindo materiais domésticos banidos pelo governo, traduções de materiais estrangeiros, e outros documentos que eram críticos para as práticas e políticas oficiais.”, o que revela que a prática da censura não é novidade nos tempos atuais, em que Twitter e Facebook derrubam regimes autoritários e, com eles, essa prática.

REFERÊNCIAS

Bowker, G., Star, S. L. 1999. Sorting things out: Classification and practice. MIT Press.

Paisley, W. J. 1980. Information and work. In B. Dervin and M. J. Voigt, eds. Progress in the Commucation Sciences (Vol. 2, pp. 114-165). Nordwood, NJ: Ablex.

Borgman, C. L. 1997c. Now that we have digital collections, why do we need libraries? In C. Schwartz and M. Rorvig, eds. Digital Collections: Implications for Users, Funders, Developers, and Maintainers; Proceedings of the American Society for Information Science Annual Meeting 34, November 1997, Washington, D.C. Medford, NJ: Information Today. pp. 27-33.

Miller, W. 1997. Troubling myths about on-line information. Chronicle of Higher Education 63 (47), A44.

Borgman, C. L. From Gutenberg to the Global Information Infrastructure: Access to Information in the Networked World. London: MIT Press, 2003.

Rupnik, J. 1991. Central Europe of Mitteleuropa? In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 233-266.

Shane, S. 1994. Dismantling Utopia: How Information Ended the Soviet Union. Chicago: Ivan R. Dee.

Skvorecky, J. 1991. Bohemia of the soul. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 115-143.

Z. 1991. To the Stalin Mausoleum. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 283-338.

Apontamentos sobre "De Gutenberg à infra-estrutura global da informação: o acesso à informação no mundo em rede"

Em outro livro que li nas férias, especificamente em Janeiro, (“From Gutenberg to the global information infrastructure: access to information in the networked world”, de Christine L. Borgman), achei interessante a citação do trabalho de Bowker e Star (1999) sobre a ideologia nos catálogos, isto é, os termos contidos nos seus registros bibliográficos refletem a presença de uma ideologia de uma determinada época, indicando aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais de um momento histórico.
Posteriormente, Borgman apresenta ao leitor uma reflexão interessante sobre a invisibilidade do trabalho com a informação, identificada em um trabalho de Paisley (1980). No ambiente digital, contudo, esse trabalho tende a se tornar cada vez mais visível na medida em que ferramentas online permitem uma comunicação mais próxima com os usuários, para quem todos os produtos e serviços bibliotecários devem estar voltados. Vale ressaltar que as atividades clássicas de coleta, aquisição, tratamento e disseminação da informação continuam, porém com a adoção de padrões digitais, como o Dublin Core. Além disso, os direitos autorais dos materiais digitais também se colocam como desafios para os bibliotecários, não apenas por se encontrarem em um suporte eletrônico, mas também por permitirem formas de acesso diferenciadas, que devem ser definidas no momento de aquisição dos mesmos.
A questão da invisibilidade do conteúdo e custos de acesso é apresentado em Borgman (1997) e Miller (1997). Primeiramente ela aponta a dicotomia de recursos online e offline, discutindo que muitas fontes de informação encontram-se offline, ou seja, fora da Internet. Isso se deve a recente criação de bases de dados online, iniciada na década de 1970, bem como pelo fato de poucos índices impressos terem sido criados no começo dos anos 1960.
No contexto da informação paga versus livre, a autora discute que muitos materiais de pesquisa, por exemplo, possuem um custo proibitivo para os usuários, como bases de dados e periódicos acadêmicos, que geralmente são assinados por bibliotecas universitárias. Da mesma forma, governos, grupos religiosos ou políticos e ONGs podem prover informação por meio de recursos financeiros próprios. Portanto, a informação nem sempre é gratuita, mas isso ocorre pelo fato do custo da mesma geralmente não ser repassada aos usuários.
Quanto ao valor agregado conteúdo, Borgman (2003) aponta que os usuários devem considerar fatores intangíveis ao conteúdo, tais como integridade da fonte de informação e validade do conteúdo. Para tanto, deve-se contar com a assistência do provedor de conteúdo, por exemplo, de uma base de dados, de modo que dúvidas acerca da busca, formato ou versões do documento possam ser sanadas sem prejudicar a disponibilização e o acesso à informação. Nesse contexto, a autora exemplifica com a importância da qualidade e integridade informação jurídica fornecida para advogados, que pode levá-los a ganhar ou perder uma causa.
Por fim, chamou-me a atenção os trabalhos de Rupnik (1991), Shane (1994), Skvorecky (1991) e Z (1991) sobre a prática do Samizdat na ex-URSS. Nas palavras de Borgman (2003, p. 250, tradução nossa), apoiada pelos autores anteriormente citados, o Samizdat era uma “[…] forma de auto-publicação clandestina, incluindo materiais domésticos banidos pelo governo, traduções de materiais estrangeiros, e outros documentos que eram críticos para as práticas e políticas oficiais.”, o que revela que a prática da censura não é novidade nos tempos atuais, em que Twitter e Facebook derrubam regimes autoritários e, com eles, essa prática.
REFERÊNCIAS
Bowker, G., Star, S. L. 1999. Sorting things out: Classification and practice. MIT Press.
Paisley, W. J. 1980. Information and work. In B. Dervin and M. J. Voigt, eds. Progress in the Commucation Sciences (Vol. 2, pp. 114-165). Nordwood, NJ: Ablex.
Borgman, C. L. 1997c. Now that we have digital collections, why do we need libraries? In C. Schwartz and M. Rorvig, eds. Digital Collections: Implications for Users, Funders, Developers, and Maintainers; Proceedings of the American Society for Information Science Annual Meeting 34, November 1997, Washington, D.C. Medford, NJ: Information Today. pp. 27-33.
Miller, W. 1997. Troubling myths about on-line information. Chronicle of Higher Education 63 (47), A44.
Borgman, C. L. From Gutenberg to the Global Information Infrastructure: Access to Information in the Networked World. London: MIT Press, 2003.
Rupnik, J. 1991. Central Europe of Mitteleuropa? In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 233-266.
Shane, S. 1994. Dismantling Utopia: How Information Ended the Soviet Union. Chicago: Ivan R. Dee.
Skvorecky, J. 1991. Bohemia of the soul. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 115-143.
Z. 1991. To the Stalin Mausoleum. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 283-338.

Apontamentos sobre "De Gutenberg à infra-estrutura global da informação: o acesso à informação no mundo em rede"

Em outro livro que li nas férias, especificamente em Janeiro, (“From Gutenberg to the global information infrastructure: access to information in the networked world”, de Christine L. Borgman), achei interessante a citação do trabalho de Bowker e Star (1999) sobre a ideologia nos catálogos, isto é, os termos contidos nos seus registros bibliográficos refletem a presença de uma ideologia de uma determinada época, indicando aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais de um momento histórico.
Posteriormente, Borgman apresenta ao leitor uma reflexão interessante sobre a invisibilidade do trabalho com a informação, identificada em um trabalho de Paisley (1980). No ambiente digital, contudo, esse trabalho tende a se tornar cada vez mais visível na medida em que ferramentas online permitem uma comunicação mais próxima com os usuários, para quem todos os produtos e serviços bibliotecários devem estar voltados. Vale ressaltar que as atividades clássicas de coleta, aquisição, tratamento e disseminação da informação continuam, porém com a adoção de padrões digitais, como o Dublin Core. Além disso, os direitos autorais dos materiais digitais também se colocam como desafios para os bibliotecários, não apenas por se encontrarem em um suporte eletrônico, mas também por permitirem formas de acesso diferenciadas, que devem ser definidas no momento de aquisição dos mesmos.
A questão da invisibilidade do conteúdo e custos de acesso é apresentado em Borgman (1997) e Miller (1997). Primeiramente ela aponta a dicotomia de recursos online e offline, discutindo que muitas fontes de informação encontram-se offline, ou seja, fora da Internet. Isso se deve a recente criação de bases de dados online, iniciada na década de 1970, bem como pelo fato de poucos índices impressos terem sido criados no começo dos anos 1960.
No contexto da informação paga versus livre, a autora discute que muitos materiais de pesquisa, por exemplo, possuem um custo proibitivo para os usuários, como bases de dados e periódicos acadêmicos, que geralmente são assinados por bibliotecas universitárias. Da mesma forma, governos, grupos religiosos ou políticos e ONGs podem prover informação por meio de recursos financeiros próprios. Portanto, a informação nem sempre é gratuita, mas isso ocorre pelo fato do custo da mesma geralmente não ser repassada aos usuários.
Quanto ao valor agregado conteúdo, Borgman (2003) aponta que os usuários devem considerar fatores intangíveis ao conteúdo, tais como integridade da fonte de informação e validade do conteúdo. Para tanto, deve-se contar com a assistência do provedor de conteúdo, por exemplo, de uma base de dados, de modo que dúvidas acerca da busca, formato ou versões do documento possam ser sanadas sem prejudicar a disponibilização e o acesso à informação. Nesse contexto, a autora exemplifica com a importância da qualidade e integridade informação jurídica fornecida para advogados, que pode levá-los a ganhar ou perder uma causa.
Por fim, chamou-me a atenção os trabalhos de Rupnik (1991), Shane (1994), Skvorecky (1991) e Z (1991) sobre a prática do Samizdat na ex-URSS. Nas palavras de Borgman (2003, p. 250, tradução nossa), apoiada pelos autores anteriormente citados, o Samizdat era uma “[…] forma de auto-publicação clandestina, incluindo materiais domésticos banidos pelo governo, traduções de materiais estrangeiros, e outros documentos que eram críticos para as práticas e políticas oficiais.”, o que revela que a prática da censura não é novidade nos tempos atuais, em que Twitter e Facebook derrubam regimes autoritários e, com eles, essa prática.
REFERÊNCIAS
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