“Crime e Castigo” é uma das obras preferidas de detentos de presídios federais

Os detentos do Sistema Penitenciário Federal são recompensados com quatro dias a menos da pena para cada livro que leem. E uma das obras mais lidas por eles é Crime e Castigo. A obra, escrita pelo russo Fiódor Dostoiévski e publicada originalmente no século 19, conta a história de um jovem que comete um assassinato, mas acaba consumido pela culpa.

Psicologicamente densa, a obra explora a visão de mundo do jovem e como sua consciência fala mais alto que suas teorias sobre o desenvolvimento da sociedade e o seu lugar nelas. Para obter remição na pena, os detentos das quatro prisões de segurança máxima, no Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Norte e de Rondônia, precisam redigir uma resenha sobre a obra que leram.

Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJ), a obra de Dostoiévski é uma das mais escolhidas entre os detentos, seguida por Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago e Através do Espelho de Jostein Gaarder, e obras nacionais, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Sagarana e Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa.

Desde 2010, 6.004 resenhas foram escritas sobre diversos livros. Para garantir a redução na pena, a resenha é avaliada sob critérios como letra legível e limitação ao tema exposto pela obra. Das resenhas entregues, 5.383 foram aprovadas pela equipe pedagógica, composta por pedagogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais.

O programa de leitura é batizado de Projeto Remição pela Leitura. As obras incluídas no projeto foram selecionadas por profissionais da área de educação. A maioria das obras são clássicos da literatura brasileira, filosóficos e científicos, mas, segundo o ministério, os gêneros estão se diversificando. Os presos têm até 30 dias para ler cada obra e podem participar 12 vezes do projeto a cada ano, significando até 48 dias a menos na pena.

Marcelo Brandão – Repórter da Agência Brasil
Edição: Fábio Massalli

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Relato do webinar da IFLA LAC “Las bibliotecas y la implementación de la Agenda 2030 para el dessarollo sostenible”

A Seção de América Latina e Caribe da IFLA realizou no dia 2/2/17 o webinar Las bibliotecas y la implementación de la Agenda 2030 para el dessarollo sostenible, que contou com a participação das facilitadoras Sueli Ferreira (IFLA LAC Chair), Loida García-Febo (IFLA ALP Chair), Ana María Talavera (Colégio de Bibliotecólogos del Perú) e María Violeta Bertolini (IFLA Advocacy Communications Officer).

Inicialmente Loida apresentou, de maneira bem  sucinta, a campanha de advocacy da IFLA e como a Federação tem conseguido participar das reuniões na ONU sobre a Agenda 2030 e conseguido incluir o acesso à informação como um dos objetivos da Agenda, pois é a primeira vez que isso ocorre. Em relação às metas do programa, Loida citou exemplos de bibliotecas que já estão realizando ações para alcançá-las, como a Uganda, que está trabalhando a questão de igualdade de gênero, a Moldávia, onde as bibliotecas participam com a sociedade civil na elaboração de um plano nacional que as agregue como apoiadores do acesso à informação, o no Reino Unido, que vem trabalhando com o tema de comunidades e cidades sustentáveis.

As bibliotecas que desejam mais informações sobre a Agenda podem consultar o Toolkit Las bibliotecas y la implementación de la Agenda 2030 de la ONU e Acceso y oportunidades para todos: Cómo contribuyen las bibliotecas a la Agenda 2030 de las Naciones Unidas.

Em seguida, María Violeta fez sua apresentação sobre o Programa Internacional de Promoción y Defensa (Advocacy), destacando que as bibliotecas devem ser elementos chaves para os programas de governo. Esse programa possui quatro fases: oficinas regionais, ações de seguimento, chamada para apresentação de propostas e revisão global. Ressaltou, também que o programa já ocorreu na África, Ásia e Oceania, América Latina e Caribe e Europa.

Por fim, Ana María discorreu de modo geral sobre a Agenda 2030 e como seus objetivos ajudam as bibliotecas a promover ações para problemas locais, como violência, desemprego e narcotráfico. Outras iniciativas apresentadas foram a capacitação oferecida pelas bibliotecas para mulheres conseguirem emprego, um centro de documentação ambiental que promove ações de preservação e conservação e a publicação de uma política nacional do livro, leitura e escrita envolvendo todos os atores dessa área.

Essa foi mais uma oportunidade oferecida pela IFLA para levar ao conhecimento de todos como as bibliotecas podem colaborar para o alcance dos objetivos da Agenda 2030 da ONU. Em breve, será realizado um seminário internacional no Chile (“Libraries, advocacy and promotion activities and implementation of Agenda 2030”) e a LAC 2017 Midterm Meeting.

Para quem não pode assistir, o webinar estará disponível no canal do YouTube da IFLA LAC.

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Bibliotecário Rico (2)

O livro deste mês é O Seu Primeiro Milhão, de Pedro Queiroga Carrilho,

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De forma bastante didática, o autor aborda tópicos de finanças comportamentais, estratégias para poupar e produtos financeiros que ajudarão o leitor a conseguir o primeiro milhão!

Por isso, é uma leitura recomendada para aqueles que estão iniciando no mundo dos investimentos.

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Livros nas Praças registra cerca de 20 mil leitores em 2016

Ônibus-biblioteca rodou São Paulo e Rio de Janeiro incentivando a leitura

Ônibus-biblioteca rodou São Paulo e Rio de Janeiro incentivando a leitura | © Divulgação / Facebook

Ônibus-biblioteca rodou São Paulo e Rio de Janeiro incentivando a leitura | © Divulgação / Facebook

O projeto Livros nas Praças encerrou as atividades da temporada 2016 com um saldo positivo. Com um acervo de dois mil títulos infantis, juvenis e adultos, o projeto teve 19.653 visitantes e um total de 1.633 empréstimos de livros, sendo 1.598 devoluções, o que significa que somente 2,14% dos livros não foram devolvidos. Nas 29 semanas, de abril a dezembro, a biblioteca sobre rodas esteve presente em 14 comunidades e vilas olímpicas do Rio de Janeiro e ainda em dois municípios de São Paulo, circulando pela Bienal Internacional do Livro. Nas visitas, além dos empréstimos e disponibilidade para leitura no ônibus, os visitantes puderam acompanhar apresentações de dança, teatro e bate-papos com escritores e autores. O ônibus vermelho conta também com 60 livros de ilustrações em braile para crianças, livros em fonte ampliada para pessoas com baixa visão, audiobooks para deficientes visuais e 30 livros em braile para adultos. Entre os títulos mais procurados pelas crianças e adolescentes estão: Percy Jackson (Intrínseca), O diário de um Banana (V&R), Harry Potter (Rocco) e Maria Passarinho (Mirabolante). Já os adultos preferem A vida além da vida (Mauad) e Águas para Elefantes (Nossa Cultura).

Disponível em: <http://www.publishnews.com.br/materias/2017/01/24/livros-nas-pracas-registra-cerca-de-20-mil-leitores-em-2016>. Acesso em: 24 jan. 2017.

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Estado garante R$ 50 milhões para investir e construir biblioteca em presídios

Desembargador Otávio Praxedes anuncia medidas

FOTO: ARQUIVO/TJ-AL

Anúncio é feito pelo governo federal; presidente do TJ participou de encontro

A reunião entre presidentes dos Tribunais de Justiça de todo o País com a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ocorrida nessa quinta-feira (12), em Brasília, foi marcada pelo anúncio da liberação de R$ 50 milhões para que cada estado invista no sistema prisional. Alagoas, portanto, garante este recurso, a ser disponibilizado pelo governo federal, além da construção de uma biblioteca nos presídios, com a finalidade de originar a remissão de penas dos detentos.

O anúncio destas medidas foi feito pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ) de Alagoas, desembargador Otávio Leão Praxedes, logo após o encontro na sede do STF que discutiu a situação carcerária do Brasil.

Em entrevista à imprensa, Praxedes disse que expôs à presidente da Suprema Corte que o cenário do complexo prisional de Alagoas é semelhante ao quadro percebido nas demais unidades da Federação. E destacou a superlotação nas penitenciárias como um grande problema identificado no Estado, além da ausência de políticas de ressocialização.

“Destaquei, na reunião com a ministra, que Alagoas precisa de ações que ocupem os reeducandos dentro dos presídios”, ressaltou o presidente do TJ/AL.

Investimentos

Segundo ele, Cármen Lúcia e representantes do governo federal anunciaram que há intenção de liberar R$ 50 milhões a cada estado com o objetivo de se construir novos presídios. A ideia é desafogar o sistema. A construção de 40 bibliotecas também está prevista em todo o Brasio dentro das medidas a serem tomadas para incentivar a ressocialização.

Outra reunião está programada entre a ministra do STF e os presidentes do TJ para o mês de fevereiro. Na próxima terça-feira, será a vez do ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes, ter um encontro com secretários de segurança e ressocialização de todo o País para discutir novas ações a serem implementadas pelo governo federal em benefício do sistema prisional brasileiro.

De Alagoas, estarão presentes, nesta reunião da próxima terça-feira, os secretários Paulo Domingos Lima Júnior, de Segurança Pública, e Marcos Sérgio Freitas, de Ressocialização e Inclusão Social.

Mortes

Nessa quinta-feira, dois reeducandos foram encontrados mortos na Casa de Custódia da Capital, o Cadeião. A polícia e a Secretaria de Ressocialização apuram se as mortes têm alguma ligação com brigas entre grupos rivais.

Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/portal/noticia.php?c=25567>. Acesso em: 24 jan. 2017.

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Livros de Paulo Coelho e Dan Brown são confiscados na Líbia

Entre os livros confiscados também estão Friedrich Nietzsche e Naguib Mahfuz. (foto: Twitter/Reprodução)Entre os livros confiscados também estão Friedrich Nietzsche e Naguib Mahfuz. (foto: Twitter/Reprodução)

Obras são consideradas ‘eróticas’ e contra o Islã; escritores publicaram um manifesto em protesto

Publicado no UAI

Escritores e intelectuais líbios denunciaram nesta segunda-feira, 23, que os serviços de segurança do leste do país confiscaram dezenas de livros considerados ”eróticos” ou contra o Islã, entre eles obras de Paulo Coelho.

Entre os livros apreendidos, em árabe e importados do Egito, também há textos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, do romancista americano Dan Brown e do egípcio Naguib Mahfuz, prêmio Nobel de Literatura.

Os escritores publicaram um comunicado de protesto depois da difusão, no fim de semana, de um vídeo da direção de segurança da cidade de Al Marj mostrando os livros sendo colocados em um caminhão.

No vídeo, um chefe de segurança e religiosos da cidade denunciam uma ”invasão cultural” através de livros sobre o xiismo, o cristianismo ou bruxaria, assim como romances com trechos eróticos e contrários aos preceitos do Islã sunita, praticado no país.

Os escritores, entre eles Azza Maghur, Idriss Al Tayeb e Radhuan Bushwisha, denunciaram a apreensão de livros sob qualquer pretexto, ”uma tentativa de amordaçar as vozes e confiscar a liberdade de opinião e de pensamento”.

”Líbia hoje”, escreveu Paulo Coelho no Twitter, com link para fotos dos livros confiscados.

Al Marj, como grande parte do leste líbio, é controlado pelo Exército Nacional Líbio (ANL), leal ao controvertido marechal Jalifa Haftar.

Disponível em: <http://www.livrosepessoas.com/2017/01/23/livros-de-paulo-coelho-e-dan-brown-sao-confiscados-na-libia/>. Acesso em: 24 jan. 2017.

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“Corremos o risco de perder as nossas bibliotecas públicas”, diz professora da UniRio

Haroldo Ceravolo | São Paulo – 23/01/2017 – 15h34

‘A biblioteca pública é fundamental nos tempos de crise’, avalia Elisa Machado, que já atuou no sistema de bibliotecas de São Paulo; para ela, proposta da gestão Dória não é de parceria, mas de terceirização

Nos primeiros dias da gestão de João Dória (PSDB) na Prefeitura de São Paulo, o novo secretário de Cultura paulistano, André Sturm, anunciou a intenção de ampliar a participação de entidades privadas na administração de serviços públicos do setor. Sturm declarou que pretende deixar o Centro Cultural São Paulo e as 54 bibliotecas públicas municipais sob a gerência de OSs (Organizações Sociais).

“OS é uma ideia incrível que já está implementada no estado. Queremos ter o melhor do Estado, que são as políticas, com o melhor do privado, que é a gestão”, afirmou Sturm, ainda no dia 5 de janeiro*.

Organizações sociais são qualificações concedidas pela Administração Pública para entidades privadas, sem fins lucrativos, para que estas possam receber recursos e benefícios, como isenções fiscais, para a prestação de serviços de responsabilidade de Poder Público.

Para Elisa Machado, professora do Departamento de Estudos Biblioteconômicos da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), a proposta que a gestão de Dória quer vender como uma parceria é, na realidade, a tentativa de terceirização do sistema de bibliotecas municipais de São Paulo, o maior da América Latina.

Foto: Reprodução/ Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo

Elisa Machado durante o 7º Seminário Biblioteca Viva, em São Paulo, em novembro de 2014

“A proposta da nova gestão da cidade de São Paulo não é de estabelecimento de uma parceria, mas sim de um contrato de repasse da gestão das bibliotecas pública para as mãos de uma empresa privada. É a terceirização sendo imposta à população. Considero que essa proposta é um equivoco, e é parte do plano que vem sendo implementado pelos governos de direita de desmonte do serviço público, e impactará de maneira negativa no direito da população ao acesso à informação, à leitura e ao conhecimento”, afirma a especialista, líder do Grupo de Pesquisa “Bibliotecas Públicas no Brasil: reflexão e prática” e ex-coordenadora nacional do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Doutora em Ciência da Informação pela USP (Universidade de São Paulo), Elisa Machado, que também foi diretora do Departamento de Bibliotecas Públicas da Cidade de São Paulo, concedeu entrevista exclusiva para o Painel Acadêmico sobre os planos de Dória para o setor. Coordenadora geral do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas da Fundação Biblioteca Nacional entre os de 2011 e 2014, ela falou sobre experiências internacionais na organização de bibliotecas públicas e comentou os problemas enfrentados pelas bibliotecas-parque no Rio de Janeiro.

No final do ano passado, as bibliotecas-parque do Rio, que pertencem ao estado e eram administradas por uma OS, foram obrigadas a fechar as portas depois que o contrato entre o Poder Público e a entidade foi encerrado.

Confira abaixo a entrevista completa com Elisa Machado:

Painel Acadêmico – Uma das primeiras ações da nova gestão na área de cultura foi anunciar “parcerias” para gerir as bibliotecas públicas de São Paulo.  Você trabalhou no sistema. Como vê essa possibilidade?

Elisa Machado: estabelecer parcerias entre o poder público e o privado é legítimo e em certos casos bem-vindo. Há de se fazer parcerias que estabeleçam relações de qualidade entre instituições e pessoas que atuam em diferentes espaços e que têm princípios e objetivos em comum. Nesse sentido, é importante ter claro que o conceito de parceria remete para a ideia de complementaridade e não de dependência. No entanto, o Brasil é um país muito permissível em relação a esse tipo de relação, favorecendo a retirada do Estado dos processos de regulação. Quem falava isso era Milton Santos, há mais de 20 anos, alertando para o perigo do mercado comandar a vida social do país, por meio do terceiro setor. A proposta da nova gestão da cidade de São Paulo não é de estabelecimento de uma parceria, mas sim de um contrato de repasse da gestão das bibliotecas pública para as mãos de uma empresa privada. É a terceirização sendo imposta à população. Considero que essa proposta é um equivoco, e é parte do plano que vem sendo implementado pelos governos de direita de desmonte do serviço público, e impactará de maneira negativa no direito da população ao acesso à informação, à leitura e ao conhecimento.

Painel Acadêmico – O modelo sugerido é semelhante, pelo menos pelo que se compreende do que fala o novo secretário, ao das Fábricas de Cultura, em São Paulo, e das bibliotecas-parque do Rio de Janeiro, que agora estão fechadas. Não corremos risco semelhante?

Elisa Machado: sim, corremos esse risco, pois nesses casos o funcionamento das bibliotecas serão regulados única e exclusivamente por um contrato. Na medida em que ele não é cumprido pelo Estado, a empresa encerrará seus serviços. Foi o que aconteceu no Estado do Rio de Janeiro. Por muitos anos as bibliotecas públicas na cidade de São Paulo sofreram com o déficit orçamentário, mas isso não levou ao fechamento de nenhuma unidade. Sabe por quê? Porque as pessoas que estão no comando ou atuando nesses equipamentos são agentes públicos, comprometidos com a sociedade e com a “coisa pública”. Nesse novo cenário não teremos mais o servidor público e sim pessoas contratadas pela empresa gestora. Uma pessoa contratada em regime terceirizado quando do encerramento de seu contrato, por mais consciência que tenha da sua função social numa biblioteca, não tem como agir a favor daquele espaço ou serviço, diferentemente do servidor público.

Foto: Wikicommons

Centro Cultural São Paulo poderá ser gerido por uma entidade privada na gestão de João Dória

Painel Acadêmico – Como outros países gerem equipamentos como as bibliotecas?

Elisa Machado: penso que a maioria das bibliotecas públicas são mantidas e geridas pelos governos locais, mas não conheço pesquisas que possam confirmar isso.  Nos EUA, por exemplo, além dos recursos governamentais as bibliotecas públicas contam com a possibilidade as fundações e instituições privadas que repassam recursos por meio de apoio a projetos e programas, tal como temos no Brasil a Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo (FAPESP), ou a Petrobrás, que por anos apoiou a formação, desenvolvimento e preservação de acervos de bibliotecas, entre outras ações e atividades culturais. Ainda nos EUA é interessante registrar que a tradição de participação da sociedade nas atividades, serviços e espaços oferecidos pelo poder público tem mantido e fortalecido as ações desenvolvidas pelas Associações de Amigo da Biblioteca. Já no Brasil a sociedade não tem a prática da participação instaurada em seu cotidiano, o que dificulta os trabalhos das poucas associações com esse fim. Na América Latina, o país que se destaca com um diferencial na gestão de bibliotecas pública é a Colômbia, que utiliza as Cajas de Compensación Familiar para a gestão de vários espaços e serviços públicos. É o caso de Medellín, Cartagena, entre outras cidades Colombianas. Mas cabe registrar que essa prática não é a única forma adotada no país: por exemplo, a rede de bibliotecas públicas de Bogotá (BibloRed) é gerida pelo governo local por meio da Secretaría de Cultura, Recreación y Deporte de Bogotá.

Painel Acadêmico – A rede de São Paulo é a maior do país. Você poderia contar um pouco a história dela?

Elisa Machado: o Sistema de Bibliotecas Públicas de São Paulo não é só o maior do Brasil, é também o maior da América Latina. É referência em acervos, serviços e espaços. É resultado da fusão do Departamento de Bibliotecas Públicas e do Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis, ambos criados na década de 1970. Mas, se formos levar em consideração a história das bibliotecas públicas na cidade de São Paulo, é preciso retomar o ano de 1936 quando Mário de Andrade criou a Divisão de Bibliotecas dentro do então Departamento de Cultura. Da década de 1930 até os dias de hoje esse complexo de espaços, serviços e pessoas cresceu e se consolidou na cidade, formando essa grande rede composta por 107 bibliotecas públicas. Passou por momentos áureos e por momentos bem difíceis, como por exemplo durante as gestões de Paulo Maluf e Celso Pita, entre os anos de 1992 a 2000. Mas, a partir de 2001, as gestões subsequentes intensificaram suas ações e retomaram os processos de desenvolvimento e manutenção dos acervos, investiram na reforma e modernização de seus espaços, criaram novos serviços, abriram concurso público para a contratação de bibliotecários, estimularam as alianças com as bibliotecas comunitárias, entre outras ações. Atualmente atende em sua maioria a população que não tem acesso à livrarias, à educação de qualidade e que luta pela sua própria auto formação. Disponibiliza um catálogo online com informações que facilitam a consulta e empréstimo de a toda a população. Oferece uma programação cultural de qualidade e diversificada, sem falar na Biblioteca Mário de Andrade, que nos últimos meses abriu suas portas no horário noturno, atendendo a uma demanda antiga da população. Há de se registrar como histórico também a participação das bibliotecas públicas na construção do Plano Municipal do Livro Leitura e Bibliotecas (PMLLB)  instituído pela Lei no. 16.333 de 18 de dezembro de 2015.

Foto: Gabriela Lissa Sakajiri/ BMA

Corredor de vidro da fachada da coleção circulante da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, que no ano passado começou a atender o público também durante a madrugada

Painel Acadêmico – Elas são pouco frequentadas, caras ou mal geridas, quando comparadas com bibliotecas de outros países?

Elisa Machado: não temos estudos comparativos para responder a essa pergunta. Além disso teríamos que comparar países com condições semelhantes, o que não é muito fácil. Não dá para comparar a gestão de bibliotecas no Brasil com a dos EUA, ou da França e Inglaterra. O México é o país que tem as condições econômicas, sociais, populacionais e territoriais mais próximas do Brasil, para fazermos um comparativo no nível nacional. O México tem em torno de 7 mil bibliotecas públicas, enquanto que o Brasil tem em torno de 6 mil. Assim como o Brasil possui um Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas que apoia e desenvolve atividades de formação de pessoal para atuar nesses espaços, portanto, no âmbito nacional vejo muita semelhança entra ambos. No âmbito municipal o Sistema de Bibliotecas de São Paulo é o maior em abrangência, e referência em termos de gestão e de serviços na América Latina. Vale afirmar que uma biblioteca pública não busca lucro e, portanto, sua gestão não pode ser avaliada somente a partir de dados quantitativos. Sem dúvida, como trata-se de recursos públicos, há de se acompanhar o desenvolvimento dos serviços oferecidos, para melhorar e ampliar a frequência e uso desses espaços e acervos, adequando-os as demandas da atualidade. Todos os recursos destinados às bibliotecas públicas devem ser entendidos como investimento na democratização do acesso à leitura, à informação e ao conhecimento. Numa cidade como a de São Paulo, onde temos por volta de 16 mil pessoas morando na rua e um crescente número de pessoas que encontram-se em situação vulnerável, lhes impedindo de ter acesso a boas escolas e a creches, entre outros direitos garantidos pela Constituição, a gestão das bibliotecas deve estar voltadas prioritariamente para atender as demandas de informação, leitura e conhecimento desse público.

Painel Acadêmico – Tem-se a ideia de que a população não frequenta as bibliotecas de São Paulo. Mas em geral quem fala isso vai pouco às bibliotecas. Não se trata de um lugar comum repetido sem uma avaliação objetiva?

Elisa Machado: se isso fosse verdade não estaríamos vendo a abertura de bibliotecas comunitárias pela cidade afora, aquelas criadas e mantidas por coletivos, em sua maioria de jovens e adultos, que buscam uma forma de melhorar sua condição de vida e o acesso a bens culturais, a exemplo das bibliotecas vinculadas ao Polo LiteraSampa.  Esse discurso recorrente, criado e difundido por uma elite que não frequenta bibliotecas, justamente para preservar as distâncias entre aqueles que têm daqueles que não têm acesso à informação e à leitura, colabora para difundir uma imagem negativa das bibliotecas públicas, favorecendo o projeto de privatização desse novo governo. A biblioteca pública é um dos espaços mais democráticos que uma cidade pode ter e fundamental em tempos de crise.

Foto: Divulgação

Instalada em 2013 na Cidade de Tiradentes, uma das regiões mais pobres de São Paulo, a Biblioteca Maria Firmina dos Reis é temática e conta com mais de 500 livros de temas ligados aos Direitos Humanos, como direito da mulher, do idoso e da criança

Painel Acadêmico – Há uma manifestação marcada para o dia 25/1 contra a privatização das bibliotecas de São Paulo, com um abraço ao Centro Cultural São Paulo. Como você vê essa reação das pessoas à ideia de privatizar esse patrimônio público?

Elisa Machado: Eu vejo com uma atitude muito positiva o povo se unir para defender um espaço público que é reconhecidamente de qualidade. Nós temos que nos unir e defender o que é nosso. Já perdemos muito nos últimos meses com o governo Temer. Perdemos direitos, perdemos riquezas minerais e, agora, na cidade de São Paulo na gestão Dória, estamos correndo o risco de perder as nossas bibliotecas públicas.

(*) Informação da Rede Brasil Atual.

Disponível em: <http://painelacademico.uol.com.br/espaco-alameda/8362-corremos-o-risco-de-perder-as-nossas-bibliotecas-publicas-diz-professora-da-unirio>. Acesso em: 24 jan. 2017.

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