Mayana Zatz: informação será o grande desafio ético para o “novo homem”

O avanço da Neurociência e da Engenharia Genética nas últimas décadas desafiam cientistas e filósofos a entenderem o novo ser humano “produzido e manipulado” em laboratório. Não são apenas as questões científicas que estão na pauta, mas, também gigantescos desafios éticos e sociais. Manipulação da mente, capacidade da memória intelectual, preferências sexuais, estados de ânimo estão no cerne da discussão.

“O novo homem”, antecipou Drummond em Caminhos de João Brandão (publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 1967), será feito em laboratório. “Muito mais perfeito que no antigório. (…) Nele, tudo exato, medido, bem-posto: o justo formato, o standard do rosto. Duzentos modelos, todos atraentes. (Escolher, ao vê-los, nossos descendentes.) Quer um sábio? Peça. Ministro? Encomende. Uma ficha impressa a todos atende. (…) eis que o homem feito em laboratório sem qualquer defeito como no antigório, acabou com o Homem. Bem feito.”

O sueco Nick Bostrom, diretor do Instituto para o Futuro da Humanidade, é um dos filósofos contemporâneos mais preocupados com o impacto transformador que as tecnologias atuais e futuras trarão para a sociedade, que é estudado no Transhumanismo (corrente filosófica que incentiva o uso da ciência e tecnologia para melhorar a condição humana em larga escala). Entre esses e outros impactos, o principal trata da ampliação dos riscos de extermínio da própria raça humana. “Algumas das questões importantes referem-se à moral filosófica e aos seus valores. Outras estão relacionadas à racionalidade e ao discurso sobre a incerteza. Há, ainda, as que dizem respeito a questões específicas e às suas possibilidades, tais como riscos existenciais, simulação, valorização humana, vantagens infinitas, raciocínio antrópico, riscos da informação, inteligência artificial, entre outras”, ressalta.

Entre perigos e possibilidades, a geneticista Mayana Zatz, professora de Genética Humana Médica do Instituto de Biociências da USP, e coordenadora do Centro de Estudo do Genoma Humano, diz que prevalecem inúmeros mitos em relação ao alcance da ciência, e que a gestão da informação, e, de nossos “códigos” genéticos, será o principal desafio para o homem nas próximas décadas. Na Revista da Cultura deste mês, Mayana falou desse possível efeito “Frankenstein” e suas implicações.

Abaixo, leia a entrevista completa.

Quais efeitos sociais o avanço da ciência trouxe para a sociedade. E quais as principais implicações éticas no cenário atual? A partir do estudo do DNA podemos detectar um número maior de características. A grande questão ética é o que fazer com estas informações. O estudo do Genoma é extremamente importante para o diagnóstico de doenças genéticas, para saber se determinada pessoa tem um risco aumentado de ter filhos com algum problema, por exemplo. Há uma noção do poder da ciência um pouco acima do que é real. Conseguimos identificar, mas, pouco ainda sobre o poder de manipular.

O que podemos fazer hoje em relação ao ser humano é selecionar embriões com algumas características. Mas, é uma coisa muito limitada porque se eu quiser selecionar um embrião com olho azul, ele só vai existir se o pai e a mãe tiverem genes que determinem olho azul, ou seja, precisa ter aquelas características na família para poder selecionar aquelas características. O que vai poder ser feito no futuro, é, talvez, atuar na expressão dos genes. Por exemplo, se eu digo que tenho um gene que me libera endorfina quando corro, pode ser que eu possa dar endorfina para as pessoas para ficarem felizes sem ter que correrem. Então, com isso vamos poder interferir na pessoa, não na transmissão para a próxima geração.

O que existe de real e preocupante? Podemos saber se determinada pessoa tem uma mutação e, com isso, um risco aumentado de desenvolver alguma doença aos 40, 50 anos. Mas, para algumas doenças não existe cura, tratamento, e, portanto, nada pode ser feito. A primeira questão ética é se vale a pena ou não oferecer testes se não há nada o que pode ser feito a respeito. Até que ponto você gostaria de saber que há uma bomba dentro de você, que pode estourar a qualquer momento?

Você escreveu recentemente que muitas dessas informações não têm grande utilidade, caindo cada vez mais na futilidade. Esse seria outro aspecto? Essa é a segunda questão. Muitos testes genéticos estão sendo feitos para coisas completamente fúteis. Foi o que escrevi, em meu blog, sobre o chamado “gene da futilidade”. Companhias já se oferecem para testar várias características, como possível cor do olho, cabelo, se a criança terá sarda ou não, se espirrará quando sair à luz do sol, etc. Ou seja, coisas completamente idiotas. A mais patética foi a de uma empresa que oferece testes para saber se a pessoa é sensível a um determinado tipo de cheiro, que é excretado na urina quando se come aspargo! Para você ver o quão ridículo isso chegou.

Que tipo de perigo a sociedade pode correr com esse tipo de banalização? Tem que se pensar se essas pessoas e empresas, que estão oferecendo essas bobagens, não vão querer usar isso para diagnóstico pré-natal, por exemplo, e, começar a alterar as características das futuras gerações. Essa é uma grande preocupação: como a informação será usada. O que as pessoas vão querer selecionar. Por exemplo, os Estados Unidos valorizam crianças com habilidades para o esporte. Então, pensando no futuro, poderá haver uma carga emocional gigantesca para essa criança ter ou não esse tipo de habilidade. Como grande parte dos testes é feito por empresas privadas, ninguém sabe como as pessoas vão receber os resultados e o que farão com eles.

Por que a informação será o principal desafio no futuro? Com o avanço da ciência, vamos gerar uma quantidade gigantesca de informação com muito pouco conhecimento. Vamos achar uma série de alterações, ou diferenças no DNA de uma pessoa em relação à outra, e não vamos saber se essas diferenças são simplesmente o que faz uma pessoa ter uma determinada característica, como ter sarda ou não, ou se isso significará um risco para doenças. É preocupante ver essas companhias oferecendo testes genéticos a torto e a direito. Acho que muita gente vai pirar. Brinco sempre que os consultórios dos psicanalistas vão começar a encher porque as pessoas vão ver que têm mutações e não vão saber qual o significado.

Em termos éticos, os limites da informação são mais importantes do que a manipulação. Oferecer testes genéticos, o que oferecer, quem interpretará as informações, quando se deve dar a informação, ou seja, vale a pena realizar esses testes quando não há nada que possa ser feito? Eu, por exemplo, não quero saber se vou ter doença de Alzheimer, porque não posso fazer nada a respeito. O que se sabe é que as pessoas, quando sabem que têm risco aumentado para alguma patologia, aceleram o processo. A informação é real e está acontecendo agora, e vai aumentar cada vez mais.

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita – não necessariamente nessa ordem.

Disponível em: <http://cultura.updateordie.com/2010/08/11/mayana-zatz-informacao-sera-o-grande-desafio-etico-para-o-%e2%80%9cnovo-homem%e2%80%9d/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+BlogDaCultura+%28Blog+da+Cultura%29&utm_content=Google+Reader>. Acesso em: 23 ago. 2010.

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