Apontamentos sobre “De Gutenberg à infra-estrutura global da informação: o acesso à informação no mundo em rede”

Em outro livro que li nas férias, especificamente em Janeiro, (“From Gutenberg to the global information infrastructure: access to information in the networked world”, de Christine L. Borgman), achei interessante a citação do trabalho de Bowker e Star (1999) sobre a ideologia nos catálogos, isto é, os termos contidos nos seus registros bibliográficos refletem a presença de uma ideologia de uma determinada época, indicando aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais de um momento histórico.

Posteriormente, Borgman apresenta ao leitor uma reflexão interessante sobre a invisibilidade do trabalho com a informação, identificada em um trabalho de Paisley (1980). No ambiente digital, contudo, esse trabalho tende a se tornar cada vez mais visível na medida em que ferramentas online permitem uma comunicação mais próxima com os usuários, para quem todos os produtos e serviços bibliotecários devem estar voltados. Vale ressaltar que as atividades clássicas de coleta, aquisição, tratamento e disseminação da informação continuam, porém com a adoção de padrões digitais, como o Dublin Core. Além disso, os direitos autorais dos materiais digitais também se colocam como desafios para os bibliotecários, não apenas por se encontrarem em um suporte eletrônico, mas também por permitirem formas de acesso diferenciadas, que devem ser definidas no momento de aquisição dos mesmos.

A questão da invisibilidade do conteúdo e custos de acesso é apresentado em Borgman (1997) e Miller (1997). Primeiramente ela aponta a dicotomia de recursos online e offline, discutindo que muitas fontes de informação encontram-se offline, ou seja, fora da Internet. Isso se deve a recente criação de bases de dados online, iniciada na década de 1970, bem como pelo fato de poucos índices impressos terem sido criados no começo dos anos 1960.

No contexto da informação paga versus livre, a autora discute que muitos materiais de pesquisa, por exemplo, possuem um custo proibitivo para os usuários, como bases de dados e periódicos acadêmicos, que geralmente são assinados por bibliotecas universitárias. Da mesma forma, governos, grupos religiosos ou políticos e ONGs podem prover informação por meio de recursos financeiros próprios. Portanto, a informação nem sempre é gratuita, mas isso ocorre pelo fato do custo da mesma geralmente não ser repassada aos usuários.

Quanto ao valor agregado conteúdo, Borgman (2003) aponta que os usuários devem considerar fatores intangíveis ao conteúdo, tais como integridade da fonte de informação e validade do conteúdo. Para tanto, deve-se contar com a assistência do provedor de conteúdo, por exemplo, de uma base de dados, de modo que dúvidas acerca da busca, formato ou versões do documento possam ser sanadas sem prejudicar a disponibilização e o acesso à informação. Nesse contexto, a autora exemplifica com a importância da qualidade e integridade informação jurídica fornecida para advogados, que pode levá-los a ganhar ou perder uma causa.

Por fim, chamou-me a atenção os trabalhos de Rupnik (1991), Shane (1994), Skvorecky (1991) e Z (1991) sobre a prática do Samizdat na ex-URSS. Nas palavras de Borgman (2003, p. 250, tradução nossa), apoiada pelos autores anteriormente citados, o Samizdat era uma “[…] forma de auto-publicação clandestina, incluindo materiais domésticos banidos pelo governo, traduções de materiais estrangeiros, e outros documentos que eram críticos para as práticas e políticas oficiais.”, o que revela que a prática da censura não é novidade nos tempos atuais, em que Twitter e Facebook derrubam regimes autoritários e, com eles, essa prática.

REFERÊNCIAS

Bowker, G., Star, S. L. 1999. Sorting things out: Classification and practice. MIT Press.

Paisley, W. J. 1980. Information and work. In B. Dervin and M. J. Voigt, eds. Progress in the Commucation Sciences (Vol. 2, pp. 114-165). Nordwood, NJ: Ablex.

Borgman, C. L. 1997c. Now that we have digital collections, why do we need libraries? In C. Schwartz and M. Rorvig, eds. Digital Collections: Implications for Users, Funders, Developers, and Maintainers; Proceedings of the American Society for Information Science Annual Meeting 34, November 1997, Washington, D.C. Medford, NJ: Information Today. pp. 27-33.

Miller, W. 1997. Troubling myths about on-line information. Chronicle of Higher Education 63 (47), A44.

Borgman, C. L. From Gutenberg to the Global Information Infrastructure: Access to Information in the Networked World. London: MIT Press, 2003.

Rupnik, J. 1991. Central Europe of Mitteleuropa? In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 233-266.

Shane, S. 1994. Dismantling Utopia: How Information Ended the Soviet Union. Chicago: Ivan R. Dee.

Skvorecky, J. 1991. Bohemia of the soul. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 115-143.

Z. 1991. To the Stalin Mausoleum. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 283-338.

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