Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (I)

Ocorreu nos dias 7/10 e 8/10, em São Paulo, o Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal. Contou com a presença de profissionais de diversas áreas e países que enriqueceram o evento com suas práticas, ideias, discussões e experiências, juntamente com as perguntas do público. Relatarei o evento em 4 posts, cada um apresentando cada mesa redonda.

A primeira mesa (O Futuro do Livro) foi coordenada por Mônica Rizzo Soares Pinto, Diretora do Centro de Referência e Difusão da Biblioteca  Nacional, representando o Presidente Galeno Amorim, que infelizmente não pode comparecer.

A primeira apresentação foi de Jean-Claude Guedón, da Université de Montréal/OAPEN (Open Access Publishing in European Networks), do Canadá. Intitulada “The future of the book: reshaping the sociology and the society of texts”, foram apresentados os interessantes conceitos de sociologia de textos, sociologia de documentos e sociedade de textos, que em linhas gerais abordam a questão de  que os textos devem ser analisados segundo seu tipo, sua maneira de produção e a época em que foram publicados.

Sobre o texto, Jean-Claude Guedón apontou que ele permite externalizar a memória e sofreu modificações durante a evolução dos suportes da informação (escrita cuneiforme, papiro, códex etc.). Porém,  esses suportes impuseram obstáculos, como no caso de tábuas de argila a necessidade de saber escrever e, no que se refere ao papiro, o domínio de técnicas específicas de escrita. A imprensa, por sua vez, determina não só o conhecimento da impressão, mas também influencia na decisão de publicar ou não um texto e, consequentemente, na circulação de ideias.

Ainda no que diz respeito à sociologia dos textos, Guedón expôs que sua modificação também provoca mudança em quem faz os textos. É o caso, por exemplo, da imprensa, que de controlada por poucas passou a ser digitalizada, por meio da proliferação de blogs, tweets, de link para link etc., configurando um novo jornalismo emergente. Embora Guedón apontou que a imprensa digitalizada seja de fácil navegabilidade, não concordo, pois nem todos os sites e ferramentas são desenvolvidos visando a organização e recuperação da informação, que muitas vezes são uma verdadeira dor de cabeça para os usuários. Nesse contexto, tutoriais podem ser uma boa solução para esclarecer a navegação, assim como um mapa do site ou até mesmo o e-mail do autor caso a resposta para uma dúvida não seja encontrada.

Destaca-se que na sociedade atual fomos transformados em autores e leitores, além de ser ressaltado, em diversos momentos, que os documentos não sobrevivem sem os grupos sociais. Há mudanças de papéis, as vezes sutis, as vezes não: passou-se de uma sociedade de textos para uma sociedade de documentos, de um sistema claro de distribuição para um sistema interativo. Sobretudo nesta era de conectividade, nem sempre é fácil fazer essas distinções, mas acredito que o mais importante seja transformar a informação em conhecimento, principalmente para “aliviar” um pouco o excesso de informação, contribuindo para a satisfação das necessidades informacionais dos usuários.

Sobre o futuro dos livros e do conhecimento, o palestrante fez três considerações:

1. Livros não serão transformados em Kindles.

2. A presença dos e-books será cada vez mais forte.

3. O autor está inserido em um ambiente novo e rico para essa nova sociedade e sociologia dos textos.

Jean-Claude Guedón encerrou sua fala reafirmando que o futuro dos livros passará pelas comunidades, pois elas irão reunir pessoas e livros com alguma organização e que o trabalho do bibliotecário passará dos livros para as pessoas, ou seja, tudo que possa ser feito com documentos por meio das pessoas.

A próxima palestra, “How to change copyright without changing the law: fair use and open access in the U.S.”, por Brandon Butler, da Policy Initiatives – Association of Research Library (EUA). Inicialmente, Butler expôs que as dificuldades enfrentadas pelos EUA em relação à lei de direitos autorais não são tão diferentes no Brasil e esclareceu que sua fala tomou por base a legislação americana.

Segundo o palestrante, o problema principal é que o futuro será governado pela lei, com exceção das bibliotecas, mas ainda assim uma exceção muito restrita. Embora atualmente os usuários desejem todo o conteúdo digitalizado, bem como que os livros sejam encontráveis e compartilháveis, Butler colocou que o sistema atual de publicação está quebrado; a solução, a princípio, seria mudar a lei. Porém, o grande problema enfrentado no Congresso americano é o argumento dos possuidores dos direitos que se colocam como criadores de empregos, além de deixarem em segundo plano outros atores envolvidos nesse processo, como usuários e bibliotecas, que se tornam “reféns” na medida em que o acesso depende da autorização dos detentores dos direitos. Os bibliotecários realizaram esforços no sentido que tornar a lei mais favorável para o acesso aos conteúdos, porém não obtiveram sucesso e também pelo fato de existir muitos lobistas no meio, segundo Butler.

No que se refere à educação a distância, Brandon Butler apontou a existência doTEACH Act, que permite aos educadores copiar documentos ou utilizar materiais sob proteção para uso em aula. Essa lei, infelizmente, não funciona para bibliotecas, que juntamente com o Congresso e bibliotecários, não conseguem chegar a um acordo para o uso dessas instituições. As soluções podem ser o Fair Use e o acesso aberto. Como este já é conhecido dos bibliotecários, limito-me a apresentar o conceito do Fair Use, que acredito ser uma novidade para mim e outros leitores e participantes do evento. Segundo a Wikipédia, é

“[…] uma limitação e exceção ao direito exclusivo concedido pela lei de copyright para o autor de um trabalho criativo, é uma doutrina na lei de direitos autorais dos Estados Unidos que permite o uso limitado de material protegido por copyright sem adquirir a permissão dos detentores dos direitos. Exemplos de fair use incluiem comentários, críticas, notícias, pesquisa, ensino, documentos de biblioteca e bolsas de estudos.”

Vale destacar que o Fair Use é baseado em quatro fatores:

O propósito e caráter do uso, incluindo se tal uso é de natureza comercial ou educacional sem fins lucrativos.
A natureza do trabalho com direitos autorais.
A quantidade e substancialidade da parte usada em relação à obra como um todo.
O efeito do uso sobre para um mercado potencial para ou o valor do trabalho com direitos autorais.

Nesse sentido, a Association of Research Libraries (ARL) está desenvolvendo um código para regular o uso dos materiais na comunidade acadêmica. Para tanto, foi realizada uma pesquisa que envolveu a conversa com pessoas para elencar os problemas, dentre eles: a falta de uma política específica para uso do livro quanto à cópia; suporte à pesquisa: digitalização de coleções e gerenciamento do acesso; exposições online; pessoas com necessidades especiais.

Já existem melhores práticas para uso do fair use, como é o caso de algumas comunidades com seus próprios códigos, como o Documentary Filmmakers’ Statement of Best Practices in Fair Use e o Librarians Code Research, cuja previsão de lançamento é para janeiro de 2012.

Em relação ao acesso aberto, Butler que esse modelo deveria ser parte do sistema de publicação e não apenas uma alternativa. Como exemplo mencionou o Scholarly Publishing and Academic Resources Coalition (SPARC), uma iniciativa desenvolvida pela ARL. Trata-se de “[…] uma aliança internacional de bibliotecas acadêmicas e de pesquisa trabalhando para corrigir desequilíbrios no sistema de publicação científica.”, conforme consta na página About SPARC.

Encerrando a mesa redonda, Roberto Bahiense, da Nuvem de Livros/Gol Grupo apresentou a palestra “Nuvem de livros – Democratização do acesso ao conhecimento”. A partir da pergunta “Porque as editoras estão postergando os e-books?”, o palestrante apresentou três respostas:

1. Síndrome do DRM (controle dos direitos autorais), relacionada com a preservação dos conteúdos para evitar pirataria.

2. O suporte da cadeia editorial poderia quebrar.

3. As editoras vão ter que terceirizar a tecnologia da informação?

Em seguida, Bahiense expôs alguns dados que refletem uma nova realidade brasileira, dentre eles: a Lei nº 12.244 – Universalização das bibliotecas escolares no Brasil, que prevê, até 2020, a existência de bibliotecas nas instituições de ensino e um livro por aluno, pois atualmente há 15 milhões de alunos sem biblioteca; o aumento do número de celulares, que já é maior que a população brasileira; o aumento da velocidade da banda larga e também do número de computadores.

Após essa breve exposição, foi apresentada a Nuvem de Livros, desenvolvida por uma equipe multidisciplinar (bibliotecários, publicitários, dentre outro profissionais) e que disponibiliza contos, crônicas e outros tipos de obras literárias, exceto livros didáticos. Como o próprio nome diz, tudo é arquivado e disponibilizado na “nuvem”, além de ser acessível simultaneamente por vários usuários e não possuir problemas de conteúdos indisponíveis. O acesso a nuvem ocorre independentemente de quaisquer critérios sociais, econômicos, políticos ou religiosos e as obras só podem ser lidas no computador por R$0,99 por semana. Conforme Bahiense explicou, esse valor é o “aluguel” da leitura, já que não pode ser feito o download das obras, e também resolve a delicada questão dos direitos autorais, já que um percentual é destinado aos editores e autores. Por fim, foi apresentado que atualmente a Nuvem de Livros já conta com cerca de 40 editoras e que também serão atendidos os critérios de acessibilidade, num primeiro momento com os livros em libras, e posteriormente com outros recursos para atender às demais pessoas com deficiência.

Foi uma mesa bastante instigante, tendo em vista que apresentou conceitos filosóficos, passando pelos direitos autorais e patrimoniais e encerrada com questões ligadas à tecnologia.

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16 Comentários

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16 Respostas para “Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (I)

  1. eduardo
    meus parabens por ter compartilhado conosco este resumo, que ficou excelente!!!

  2. Pingback: Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do … | Via Media

  3. parabéns pela iniciativa … precuisamos de pessoas ativas assim como vc! abraço!!!! vou divulgar seu relato com seus crédito, ok?! … muito importante disseminar essa informação!
    Atenciosamente,

  4. Parabéns! Sua capacidade de relatar é muito boa. Vou compartilhar com os devidos créditos,
    Muito grata,

  5. Grande Edu! Quando me formar quero ser como você! Excelente resumo! Como já te disse, você deveria ser jornalista também.

  6. Simoreno

    Puxa Eduardo, quero deixar registrado meus PARABÉNS pela iniciativa, clareza em relatar os fatos e Ótimo resumo!!!!

    Não estive no evento, mas já me sinto atualizada rsrs….

    Parabéns e Sucesso!!!!
    Simoreno

  7. Eduardo, muito bom este relato. Posso inserir um link no meu blogo? O foco é um pouco diferente. Exploro sempre q possível a tecnologia e regulamentação.

  8. arichloe

    Parabéns pela iniciativa e qualidade do blog, Eduardo! A primeira parte do resumo do Encontro dos 30 anos da USP é ótima!
    Abraço
    Chloe

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