Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (II)

A segunda mesa redonda do Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos foi intitulada “O futuro do acesso ao conhecimento para pessoas com necessidades especiais”. Coordenada por Linamara Rizzo Battistella, da Secretaria de Estado do Direitos da Pessoa com Deficiência, contou com a participação de uma convidada brasileira e dois estrangeiros.

Mara Gabrilli, deputada federal, foi quem iniciou o debate. Sua fala foi breve devido sua agenda, mas proporcionou algumas reflexões, que resumi a seguir. A deputada, a primeira cadeirante na Câmara dos Deputados, contou um pouco sobre sua trajetória. Inicialmente expôs que existem dois caminhos para o tratamento em relação as pessoas com deficiência: assistencialista ou de desenvolvimento. Destacou a importância da educação formal em sua vida, pois cursou mais de uma faculdade, dentre elas, Psicologia, onde durante a residência permitiu que o entendimento de outro ser humano ocorria quando ele era o protagonista da situação.

A palestrante também teceu comentários sobre a Convenção da ONU sobre a pessoa com deficiência. Dentre alguns dados apresentados, destacam-se: cidades, escolas e outros lugares e instituições é que são deficientes, pois possuem barreiras que impedem o uso igualitário pelas pessoas e, portanto, é o meio que tem que se adaptar às pessoas; deve-se respeitar o desenho universal, que segundo o documento

“[…] significa a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico. O “desenho universal” não excluirá as ajudas técnicas para grupos específicos de pessoas com deficiência, quando necessárias.”

Por meio do desenho universal, por exemplo, Gabrilli apontou que uma mesma porta pode ser utilizada por pessoas com e sem deficiência e que em outros contextos pode gerar economia de energia, dentre outras vantagens.

Também foi interessante a colocação da deputada sobre a questão do acesso à informação sobre a pessoa com deficiência, levando a reflexão se somos inclusivos com nós mesmo para incluir o outro. Além disso, destacou que a acessibilidade deve ser tanto física como de conteúdo e, nesse contexto, ressalto que cabe a nós, bibliotecários, pensar (e colocar em prática!) produtos e serviços que atendam a todos os usuários, indistintamente.

A palestra seguinte foi proferida por Albert K. Boekhorst, da Information Literacy Section da IFLA/UNESCO (Holanda). O palestrante iniciou sua fala apresentando o conceito de espaço de informação. Nele existe a observação (objetos e processos), conversas (pessoas) e consulta (armazenamento e registro de informações). Representada pelas instituições de memória, Albert também apontou a diminuição das barreiras existentes aos espaços de informação, sendo que cada pessoa tem seu próprio espaço desde o nascimento, cujo desenvolvimento ocorre durante a vida e diminui com o passar dos anos.

Mas quais são essas barreiras? São elas: econômicas (pessoas depende da produção de recursos escassos: comida, vestuário, habitação, etc.; a informação custa dinheiro, então é limitada); políticas (proteção das pessoas com desrespeito às leis; nações que bloqueiam o acesso à Internet); afetivas (relacionamentos com pessoas, canais e fontes de informação); cognitivas (pessoas dependem uma das outras porque aprendem umas com as outras); pessoais (uma pessoa analfabeta do século XVIII é diferente de uma pessoa analfabeta do século XXI; sexo, altura e outras características físicas proporcionam diferentes habilidades, as vezes muito diferentes, mas que podem ser desenvolvidas).

Sobre o processo de informatização, o palestrante destacou o desenvolvimento da técnica, que envolve o controle de forças naturais, assim como a globalização, que gerou alguns efeitos sobre as pessoas, dentre eles, o aumento no crescimento da informação e da conexão. Além disso, foram apresentadas algumas mudanças no século XXI, a saber: o trabalho na nuvem; tudo precisa de dinheiro (CD, pen-drive, servidor, etc.); o aumento da quantidade de informação requer mais habilidades para sua recuperação e avaliação.

Albert também apresentou dois documentos que balizaram a instauração da information literacy na sociedade da informação: a Declaração de Praga (2003) e a Declaração da Alexandria (2005). Também apontou que existe a perspectiva de publicação de recomendações da IFLA/UNESCO em 2012 na The Road to Information Literacy: Librarians as Facilitators of Learning, salvo engano meu.

Também foi apontada que a information literacy envolve a capacidade de transmitir informação, reconhecer a necessidade de informação, avaliação da informação, manipulação de produtos do conhecimento e que também envolve recursos não tecnológicos, ou seja, informação impressa e de natureza bibliográfica. Alguns termos relacionados com a competência em informação são: fluência na informação; educação de usuários; instrução bibliográfica. Sobre isso, Albert apresentou um estudo de Harris e Hodges (1995), que infelizmente não consegui pegar a referência completa, em que foram encontrados 19 termos relacionados.

O palestrante também apresentou alguns tópicos que foram discutidos nas reuniões de Paris (2008) e Bangkok (2010), bem como expôs três conceitos diretamente relacionados ao assunto abordado: tecnologias da informação e comunicação (alfabetismo para o uso); recursos de informação (encontrar e usar informação sem intermediários); processo de informação (conceito mais inclusivo). Sobre a desigualdade informacional, Albert explicou que esse conceito envolve tanto as pessoas como o ambiente, interferindo diretamente na riqueza ou pobreza em relação à informação.

Outra questão levantada foi “Como ficamos alfabetizados em informação?”. Dentre as respostas possíveis estão a educação formal e informal, além da integração da information literacy em qualquer matéria ou currículo, já que é uma das habilidades requeridas na sociedade atual. Foi destacado que a information literacy é um conceito dinâmico e que envolve tanto o acesso à informação como o uso das TICs. No que se refere às pessoas com necessidades especiais, esse conceito também deve ser expandido para as minorias que possuem limitações de atividade e restrições de participação na vida social. Essas e outras recomendações podem ser encontradas no World report on disability (Relatório mundial sobre necessidades especiais). Uma imagem bastante interessante apresentada pelo palestrante foi a Timeline of communication tools, pela qual pode ser observada que se ainda há meios de comunicação anteriores à Cristo sendo utilizados, o livro impresso não deixará de existir tão brevemente… Por fim, Albert encerrou sua exposição com o conceito de e-acessibilidade, apontando que as TICs facilitaram muito o acesso à informação pelas pessoas com deficiência.

A terceira e última palestra foi proferida por Tone Eli Moseid, da Library Services to People with Special Needs Section – IFLA (Noruega). Intitulada “Libraries dricing access to all”, a palestra foi bastante interessante do ponto de vista da apresentação de projetos práticos realizados na Noruega. Tone iniciou questionando como é tratada a questão do acesso à informação para as pessoas com deficiência e se as bibliotecas estão encarando esse novo paradigma. O contexto de hoje é de uma transição radical que exige um arcabouço de desenvolvimento para adotar esse paradigma, exemplificado por projetos de e-inclusão desenvolvidos pela União Européia.

Mas afinal, trata-se de um novo paradigma ou um novo ponto de vista? A palestrante respondeu sua própria pergunta comentando que esse paradigma provoca uma revolução nos serviços e que as bibliotecas não estão prestando atenção nisso. Tal fato se deve a permanência do arcabouço na sociedade, pois há uma longa tradição de bibliotecas para pessoas com deficiência que é baseada nas características do indivíduo (problemas biológicos, por exemplo). Assim, esforços de tratamento inadequado exigem mudar o ambiente ou as pessoas com deficiência, e é nesse contexto que devem ser pensado a prestação de serviços especiais em biblioteca, por exemplo.

Tone também colocou que uma pessoa uma não é deficiente quanto está com outra que entende a linguagem, que o ambiente deve ser adaptado às minorias, comforme propõe o einclusion Gap Model, de Becker, Niehaves, Bergener e Räckers. Além disso, teceu comentários sobre o desenho universal (ou design universal), expondo que a acessibilidade para todos é um direito e que devem ser feitos produtos e ambientes que possam ser usados sem distinção. No caso das bibliotecas, por exemplo, podem ser pensadas as questões relativas à iluminação, eliminação de plantas que causam alergias, portas adaptadas para cadeirantes e idosos que não podem fazer força.

No caso norueguês, foi apresentado a existência de um projeto de acessibilidade em bibliotecas que ocorreu de 2001 a 2004, que teve, dentre outros objetivos, eliminar barreiras físicas e aumentar o uso das TICs para pessoas com deficiência, culminando na elaboração de um guia de acessibilidade. Esse projeto também considerou a demanda 24 horas por serviços eletrônicos, mas ressaltando que podem haver barreiras, por exemplo, telas touch screen para deficientes visuais. Em relação aos sites, o projeto lembra que devem apresentar uniformidade e navegadores específicos para tornar a biblioteca virtual acessível, como é o caso de um site de informações norueguês (se não me engano, de natureza governamental), que possui um software que converte texto em arquivos de áudio.

Essa amplitude do acesso à informação foi ampliada, sobretudo, pelas TICs, basta ver o exemplo dos audiolivros, livros táteis, livros didáticos em áudio para facilitar a interpretação, plataforma comum para pessoas com deficiência visual e bibliotecários de bibliotecas públicas se comunicarem, softwares especiais que podem reduzir barreiras, dentre outras formas de acesso possíveis. Nesse novo contexto, as bibliotecas que desconheciam os serviços especiais receberam treinamento que propiciaram o desenvolvimento de novas habilidades.

Outra iniciativa interessante que ocorre na Noruega é o Easy-to-Read-Network, que basicamente é uma rede de pessoas que leem e discutem textos para parentes e/ou outras pessoas, geralmente em bibliotecas públicas, mas não limitado a esses espaços. Na Noruega, as bibliotecas públicas também oferecem orientação pessoal para as pessoas com deficiência, proporcionando-lhes autonomia para futuramente realizar suas próprias ações de maneira autônoma, como é o caso da rede supracitada no âmbito da leitura.

Nesse novo paradigma, as bibliotecas devem conhecer os diferentes tipos de deficiências para oferecem melhor atendimento aos seus usuários, ou seja, redefinir papéis, enfrentar os novos desafios, adotar o desenho universal para garantir a acessibilidade, dentre outras ações possíveis. Além disso, deve ser pensada a questão da inclusão digital, tendo em vista a realização de projetos nesse contexto na Europa e na América, exemplificados por um projeto da Califórnia que lançou um programa com um fundo para uso das TICs e, no Brasil, outro programa para o desenvolvimento de competências digitais.

Diante do exposto, Tone encerrou sua palestra expondo que as bibliotecas devem reduzir as lacunas em relação ao acesso e não no que se refere à informação. Tal medida pode ser adotada com a oferta de conteúdo digitalizado para grupos específicos por meio do desenho universal, por exemplo. Desta forma, as bibliotecas estarão alinhadas a alguns princípios da gestão 2010-2015 da IFLA, dentre eles, acesso igualitário à informação e transformação do perfil da profissão de bibliotecário.

Particularmente considero essa mesa redonda muito interessante, não só pelo fato de ter sido o primeiro contato com a questão da acessibilidade no contexto das bibliotecas, mas também por conhecer algumas iniciativas e perceber que é uma área que possui grande potencial de desenvolvimento, facilitada, sobretudo, pelo uso das TICs.

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7 Comentários

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7 Respostas para “Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (II)

  1. Juliana Takahashi

    Eduardo, parabéns pela disseminação e compartilhamento. Sua capacidade de síntese e comentários foram muito bons.
    Abs, Juliana

  2. Angela

    Muito bom o texto. E temos como biblotecários perceber a realidade dos portadores de deficiencia nos ambientes das bibbliotecas. Trabalho em uma biblioteca par surdos e sinto que é necessário modificar algumas coisas no ambiente em função deles. gostaria de saber se alguém tem algum texto ou sugestão para este tipo de serviço para poder compartilhar comigo.

    • Boa noite, Angela!

      Obrigado por compartilhar sua experiência! Não tenho nenhum texto específico para sua situação, talvez algum leitor do blog possa nos indicar! Procure ver no post se os links dos documentos citados pelos palestrantes podem te ajudar.

      Agradeço a visita!
      Eduardo.

  3. Pingback: Blog Mundo Bibliotecário: Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (II) | SIBiUSP 30 Anos

  4. Buga

    Eduardo,
    Muito bom seu relato do evento, sobretudo para quem não esteve presente. Com pesquisa de links e tudo! Obrigada.

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