Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (IV)

A quarta e última mesa-redonda do evento, cujo tema foi “O futuro das bibliotecas digitais” e coordenada pela Diretora do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP, Sueli Mara Soares Pinto Ferreira, apontou o estado atual de iniciativas nacionais e internacionais, assim como tendências para os próximos anos.

A primeira apresentação, intitulada “Techno-change in libraryland: current trends, extrapolated futures”, foi proferida por David Palmer, da Scholarly Communications Team Leader, The University of Hong Kong. O palestrante iniciou sua fala baseando-se no relatório Education at a Glance, da OECD, colocando que no Brasil as pessoas com curso superior podem ganhar até 2,5 vezes mais e que a demanda crescerá. Apresentou, em seguida, outro relatório, também da OECD: Measuring innovations, ressaltando os aspectos da publicação de artigos científicos e da co-autoria.

Outro relatório, desta vez da OCLC, cujo título é Research Libraries, Risk and Systemic Change, aponta, dentre outras informações, a relação de profissões irmãs da Biblioteconomia, como o Jornalismo, e que a tecnologia não irá suplantar as bibliotecas, pois permitirá que se possa fazer mais com menos. Palmer também expôs que em 2010 foram vendidos mais e-books que livros impressos, destacando que muitas coisas estão indo para a “nuvem”, não apenas conteúdo.

Outra tendência apresentada foi a compra de recursos eletrônicos e a desintermediação da informação, conforme o Ithaka Faculty Survey Findings de 2009, além do PDA (Patron Driven Acquistions), open access e o bibliotecário passando da aquisição para a desintermediação. Segundo o palestrante, em Hong Kong há pouco espaço, cujo valor é alto e, diante disso, deve ser feito um uso criativo do espaço para estudo nas bibliotecas. No caso da Academic Hong Kong Library Link, por exemplo, os usuários podem fazer o pedido de material online e a entrega pode ser realizada via correio, o que demonstra o processo de desintermediação do bibliotecário, bastante reforçado durante sua fala. O Joint University Research Archive, por sua vez, irá permitir a guarda de documentos não-duplicados a partir de 2013 com recuperação robótica.

Outra tendência exposta foi “repositórios linkados”, como Portico, LOCKSS, CLOCKSS, o que levantou a questão se cada país deveria ter seu próprio repositório, e cada biblioteca, ou sistema de biblioteca, deveria ter o seu. Mas me pergunto: como fica a questão da globalização nesse contexto? E o nacionalismo, que parece ter voltado com força em alguns países, sobretudo por meio das redes sociais, que “teoricamente” são “apátridas”?

O relatório “Take our pulse: the OCLC Research Survey of Special Collections and Archives”, de Jackie M. Dooley, da OCLC, aponta que a duplicação irá acabar com o mundo online (o que, a meu ver, parece justamente o contrário, mas há que se ler o relatório para verificar) e destaca as coleções especiais, como da Bibliothèque nationale de France e da Library of Congress, que possuem interface de usuário razoáveis e serão utilizadas junto com os OPACs). No futuro, Palmer aponta que será necessário um local físico para as coleções especiais, poucos bibliotecários, altamente descentralizado e que o prédio será mais um espaço de estudo e coleções especiais. Também apresentou a opinião de David Lewis de embutir bibliotecas em empresas, com destaque para seu papel na promoção do ensino e aprendizagem. Mas o que fazer? O próprio palestrante responde: E-Science (colaboração global), E-Research (colaboração e compartilhamento de conhecimentos acadêmicos) e E-Science Librarianship (repositórios digitais). Nesse contexto, umas das Library E-Science Rules é a defesa do engajamento do campus nessas ações.

O Research Grants Council, órgão que financia as pesquisas em Hong Kong, irá apoiar o repositório. Nesse contexto, tem-se a transferência, tradução e intercâmbio do conhecimento, compartilhado entre agências, a saber: RCUK, CIHR, DEFF, DFG e JISC. Como exemplo, foi citado o repositório da The University of Hong Kong. Acredita-se que haverá maior demanda pela procura de especialistas, fontes de bibliometria, rankngs e revisão pelos pares. Além disso, o repositório deve servir como fonte de dados, sendo que na Austrália as bibliotecas já usadas para esse fim. Segundo J. Mac Coll, as biblioteca devem atuar em todos os ambientes de pesquisa, oferencedo expertise em bibliometria. Por fim, Palmer encerrou com o relatório A Slice of Research Life, da OCLC, que aponta que os pesquisadores não sabem o que as bibliotecas fazem e podem oferecer, portanto, elas devem trazê-los para si.

A segunda palestra foi proferida por Mandy Stewart, da British Library. Intitulada “The future of libraries – a view from a National Library”, Mandy iniciou sua fala apresentando a British Library, cujo objetivo é ajudar as pessoas com conhecimento para melhorar suas vidas. Trata-se da biblioteca nacional do Reino Unido, iniciada efetivamente em 1º/7/1773, embora já existissem coleções e os departamento de livros impressos, fundado em 1753 e que abrangia livros, periódicos, jornais, dentre outros materiais, o que contribuiu para um crescimento rápido.

Atualmente oferece recursos de ensino em seu site, possui o maior serviço de entrega de documentos do mundo, além de contar com uma sala do tesouro contendo peças do acervo. Esse é composto por mais de 150 milhões de itens individuais, sendo que são adicionados aproximadamente 3000 itens por ano; ainda há em torno de 60 milhões de patentes, 50 milhões de páginas impressas, jornais (que estão tentando microfilmas com vistas à preservação), mapas, selos, manuscritos com mais de 3000 anos e áudio.  Sua proposta é avançar no conhecimento do mundo, ao passo que sua visão é ajudar na pesquisa, proporcionar o auxílio de funcionários especialistas para visitas e possuir um papel importante na economia para manter fundos e seu lugar na sociedade. Sua missão é preservar a memória nacional, auxiliar na pesquisa e desempenhar um papel dinâmico que ajude a pensar no futuro.

A visão de futuro da British Library (2010) é: o que fazer até 2020 para manter a posição de líder. Assim, alguns pontos foram destacados: pesquisadores vão querer pesquisar online; ser importante na busca, descoberta e entrega de informação; oferecer conteúdo digital ao lado do impresso; parcerias e capacitação de funcionários para atividades comerciais – como o projeto de um catálogo com todos os programas da BBC, que permitirá a pesquisa por conteúdo -; metadados – uma busca bem sucedida exige bons metadados, padronização e links para outros ambientes, pessoas, buscas cruzadas, possibilidade de usar metadados de outros para diminuir os custos de catalogação; consultoria – coleta de ideias com funcionários e pesquisadores para detectar suas visões sobre a biblioteca; tecnologia – muitos modos de acessar e a dificuldade de saber como será o acesso no futuro, por isso, deve-se procurar um modelo de negócios ágil e de baixo custo para escolher a tecnologia correta.

Mandy destacou que nos últimos dois anos, as bibliotecas sofreram com o corte de orçamento, inclusive muitas fecharam, mas uma foi construída em Londres com café, livros, CDs, teatro e wi-fi, demonstrando uma nova forma de manter as bibliotecas funcionando. Por fim, concluiu que as bibliotecas nacionais são guardiãs da memória nacional e devem acompanhar a tecnologia para se manter no mundo digital, ou nas palavras da própria Mandy (que particularmente muito me impactaram e acredito que hoje deveria ser o lema de toda e qualquer biblioteca que queira continuar existindo): Não queremos ser o museu do livro.

Encerrando a mesa, Pedro Puntoni, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, proferiu a palestra “Brasiliana USP, plataforma corisco, rede memorial: perspectivas para as bibliotecas no futuro”. Puntoni iniciou sua fala declarando que José Mindlin falava que o futuro, se é daqui 10, 20 anos pode-se imaginar como será, mas e daqui 2000 anos? Assim, o tempo atual é de achatamento com aceleração e nos retira dessa relação com o passado. Nesse contexto, as biblioteca amarram o homem com vestígios do passado, fundamentais para a preservação. Não são naturais, mas construídos pela cultura: depende de gestos, ações e projetos para o futuro. O futuro que nos constitui é agora.

A Biblioteca Guita e José Mindlin teve início em 1999 com a doação da Brasiliana para a USP. Em 1985, porém, Rubens Borba de Moraes, José Mindlin e Guita Mindlin criaram uma associação para juntar suas bibliotecas e tornarem-nas públicas, mas posteriormente Moraes doou sua biblioteca para Mindlin. Em 2002, Iestman, então diretor do IEB-USP e Mindlin começam a desenhar o projeto e, em 2004, a resolução 5172 criou, efetivamente, a coleção na USP. Em 2006, ocorreu a assinatura da carta e, em 2007, teve início a construção do prédio. Aqui vale observar que enquanto as duas apresentações anteriores mostraram um futuro digital, a Brasiliana mostrou um futuro impresso para o acervo físico. Assim, penso que o futuro talvez seja híbrido durante um longo tempo.

Na sequência, Puntoni expôs que o prédio da Brasiliana contempla o IEB, café e livraria. Além disso, apresentou o projeto Biblioteca Digital Brasiliana, que teve auxílio financeiro da FAPESP e foi baseado em seis princípios com o uso de padrões abertos. Desse modo, em 16/6/09 foi lançada a versão 1.0 da Brasiliana Digital, que utilizou Drupal e DSpace customizável, com a possibilidade de buscas simples e avançada, além de arquivos grandes. A versão 1.1 teve seu lançamento em 25/1/10, desta vez com arquivos menores e, em 13/10/10, teve lançamento a versão 2.0 com a Plataforma Corisco, que é parte do DSpace e foi difundida para outras instituições que querem divulgar conteúdos online, inclusive para criar uma rede nacional para aperfeiçoa-la. Nessa versão, a biblioteca apresentou um novo tema, um servidor de imagens Djatoka (desenvolvido pela University of Califórnia e sugerido pela Library of Congress), visualizador de conteúdo e busca facetada por Sorl. Contou com alguns patrocinadores, como Petrobrás, Suzano e Minc, dentre outros.

Além dessas ações, o palestrante destacou a criação da Rede Memorial, a rede nacional das instituições comprometidas com políticas de digitalização dos acervos memoriais do Brasil, além da Carta de Recife, assinada em 14/9/11, que é um documento assinado por 31 instituições com base em seis princípios, a saber:

1. Compromisso com acesso aberto (público e gratuito)
2. Compromisso com o compartilhamento das informações e da tecnologia
3. Compromisso com a acessibilidade
4. Padrões de captura e de tratamento de imagens
5. Padrões de metadados e de arquitetura da informação dos repositórios digitais
6. Padrões e normas de preservação digital

O projeto piloto foi feito com arquivos estaduais para a digitalização da Brasiliana, coleção que possui livros impressos e digitais impulsionado pelas tecnologias. Finalizando, Puntoni encerrou sua falando colocando que as futuras gerações possam usufruir dos bens culturais de hoje, apesar da destruição do planeta e, desse modo, devemos ser bons ancestrais.

O evento como um todo foi um grande passo para que nós, bibliotecários, reafirmemos nosso papel de bons ancestrais, como foram nossos antepassados profissionais, além de nos esclarecer como devemos agir daqui para a frente.

3 Comentários

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3 Respostas para “Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (IV)

  1. Lu

    Muito apropriada sua síntese! Gostei do links tb!
    Lu

  2. Pingback: Blog Mundo Bibliotecário: Congresso Internacional SIBiUSP 30 anos: O Futuro do Conhecimento Universal (IV) | SIBiUSP 30 Anos

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