Do papel ao microfilme, rumo à página digital

“O futuro não é o que se espera. É o que se faz”, escreveu Carlos Lacerda na abertura de seu artigo publicado no Estado no dia do centenário do jornal, em 1975. Com seu estilo peculiar, o jornalista e político cassado citava previsões sobre os anos 2000 para dar seu recado sobre o regime ditatorial. “A vida doméstica será automatizada. Conheceremos o computador de bolso. Haverá telefones de bolso. O ensino será programado e a domicílio, por vídeo. O espetáculo escolhido em casa por meio de bibliotecas centrais audiovisuais… A liberdade restituída pela eletrônica.”

Em meio aos exercícios futuristas, Lacerda também falava sobre a sua pesquisa no arquivo do Estadopara preparar um livro em que contaria a história dos irmãos Julio e Francisco Mesquita, tarefa à qual se dedicou por alguns meses.

Naqueles meados dos anos 1970, o meio mais usual para consultar jornais antigos era folhear o original de papel, em volumosas coleções encadernadas guardadas no arquivo do jornal ou em algumas poucas bibliotecas. O acesso ao acervo do Estado não era um privilégio de Lacerda. O público também podia fazer pesquisas, mas esbarrava nas dificuldades de consulta e reprodução por se tratar de exemplares únicos.

O microfilme, então o meio mais moderno de preservação e difusão, ainda era uma realidade recente e bastante restrita no Brasil. A microfilmagem da coleção integral do Estado havia começado em 1970, em parceria com a Biblioteca do Congresso Americano em Washington. O trabalho estaria concluído em dois anos, mas somente em 1979 uma cópia seria entregue à Biblioteca Nacional, que continuaria o trabalho.

Foi esse conjunto de mais de 2 mil rolos de microfilmes que, mais de três décadas depois, permitiu a digitalização do gigantesco acervo de 137 anos de maneira mais rápida e eficiente.

Após minuciosa análise técnica, as melhores unidades de microfilme armazenadas no arquivo do jornal e na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, foram selecionadas para serem escaneadas por um equipamento especial. Com os milhões de arquivos digitais resultantes, um software de tratamento das imagens entrou em ação para eliminar imperfeições. Paralelamente, uma equipe dedicava-se a indexar e organizar as páginas em cadernos.

Desses dois processos dependia o sucesso da etapa seguinte: converter as imagens em textos, de modo que todo o conteúdo possa ser encontrado por meio de busca por palavras. Para isso, um software de reconhecimento de caracteres varreu todas as páginas, transformando imagens em letras. Quando o resultado não era satisfatório, as páginas originais foram fotografadas novamente.

Perfiladas, as páginas cobririam 1.440 km, distância entre São Paulo e Vitória da Conquista (BA). Encadernados, os volumes ocupam 230 metros, altura de um prédio de 76 andares. Digitalizadas, estarão em qualquer computador. Passado, presente e futuro a apenas alguns cliques.

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