A biblioteca pensada como um espaço vivo

Confira entrevista de Rogério Pereira à Gazeta de Alagoas

12/11/2012

Para o gestor, a instituição deve acompanhar seu tempo – e viver em transformação

Carla Castellotti

O jornalista Rogério Pereira, 39, guarda boas lembranças da biblioteca que frequentava quando criança. Aos 13 anos, o ainda garoto já trabalhava como office boy da Gazeta Mercantil – ocupação que conseguiu por intermédio da mãe, que era empregada doméstica na casa do dono do jornal – e, à noite, antes do início das aulas na unidade estadual na qual estudava, lá ia ele para a biblioteca.

“A lembrança que tenho é que a biblioteca sempre foi um espaço muito agradável para mim. Eu sempre fui recebido com muito carinho pela bibliotecária. Lembro de uma vez – eu gostava muito de escrever – que ia entrar num concurso de crônicas e a bibliotecária pegou livros do Rubem Braga, do [Erico] Verissimo, do Paulo Mendes Campos e do [Fernando] Sabino, me dizendo que eram grandes cronistas brasileiros e que eu precisava lê-los se quisesse escrever crônicas”, rememora Rogério.

Foi o gosto pela leitura, aliás, o elemento catalisador na vida de Rogério. Nascido no interior de Santa Catarina, ele e a família migraram para Curitiba na década de 1970. Rogério, que desde cedo acumulou muitos trabalhos, não abandonou os estudos, entrou na faculdade, se formou, fez pós-graduação e construiu uma carreira sólida no jornalismo.

Não satisfeito, em 2006 Rogério abriu mão do cargo de chefe de redação da Gazeta do Povo e foi se dedicar inteiramente ao Rascunho, o mais famoso jornal de poesia do país, criado por ele próprio em abril de 2000. Leitor incansável, há quase dois anos Rogério está de emprego novo, e é agora (também) o diretor da Biblioteca Pública do Paraná (www.bpp.pr.gov.br), instituição cuja estrutura serve de exemplo para seus pares Brasil afora.

Com um horário de funcionamento generoso e 630 mil títulos no acervo, o prédio localizado no centro de Curitiba recebe cerca de três mil pessoas e empresta uma média de 1.500 exemplares por dia. Isso sem falar nos inúmeros projetos que englobam as mais variadas linguagens artísticas – música, teatro, cinema, quadrinhos – desenvolvidas na biblioteca.

Apegado à lembrança que tinha da biblioteca de sua infância, Rogério não mede esforços para melhorar ainda mais a BPP. “Como diretor, espero que as pessoas tenham uma lembrança gostosa da biblioteca. O meu trabalho é transformar a biblioteca num espaço bacana, divertido, num espaço de leitura, de brincadeira, de silêncio e de estudo, num café, num espaço de música, num jornal… Num espaço vivo”, afirma ele.

No depoimento que você lê a seguir, Rogério Pereira fala da importância de uma biblioteca bem estruturada para a formação de um público leitor e chama atenção para a imprescindível qualidade do ensino público que deve ser ofertado às novas gerações. Suas palavras servem de exemplo. Confira.

BIBLIOTECA E EDUCAÇÃO DE QUALIDADE

O que é preciso fazer para tornar a biblioteca atrativa? Antes da biblioteca, é preciso se ter uma educação de qualidade. Para uma pessoa procurar a biblioteca, o livro e a leitura, é preciso ter uma escola preparada para formar esse leitor da vida toda. A biblioteca por si só é muito importante, deve ter um acervo adequado, ser atraente e tal, mas ela vai funcionar melhor num lugar e num estado onde a educação pública tenha qualidade. É natural essa migração da educação de qualidade para o fortalecimento de uma biblioteca – que deverá estar muito bem preparada para receber esse leitor, esse usuário que vai até lá procurar com uma determinada demanda. Isso normalmente não acontece porque há um descompasso da secretaria de Cultura, que não dialoga com a secretaria de Educação. Isso é ruim porque não há o fortalecimento das unidades de cultura que deveriam ser consumidas muito mais pelos estudantes, pela comunidade em geral, mas especialmente pelos estudantes que estão numa fase de conhecimento e aprendizado. Os espaços de cultura deveriam ser muito mais integrados à vida escolar. Isso vale para a biblioteca, para o museu e para o teatro.

O PAPEL DO ESTADO NO INCENTIVO À LEITURA

É fundamental [o papel do Estado] porque veja só: eu tenho 39 anos, nasci na roça em Santa Catarina, sou filho de pais que não frequentaram a escola e eu vim para a cidade grande em busca de uma oportunidade no final da década de 1970, na época do êxodo rural, quando as cidades começam a inchar. Quando você procura uma vida melhor na cidade, você procura o amparo do Estado e vai estudar na escola pública. Isso é tão comum que a maioria das pessoas [ainda hoje] estuda em escola pública e existe uma responsabilidade muito grande do Estado na formação do leitor. Essas crianças que vão para a escola pública; se eles não encontram uma escola de qualidade, que ajude na formação do leitor, elas não irão encontrar um ambiente propício à leitura em sua casa. Pouquíssimas casas possuem uma biblioteca; e as famílias, não importa a região do país, não costumam ser leitoras. Você vai buscar amparo à leitura onde? Na biblioteca da sua escola, do bairro ou da sua cidade. Eu tive sorte, por exemplo, de ter tido uma escola que de alguma maneira me ajudou a ter tido contato com o livro e a leitura desde muito cedo.

MERCADO EDITORIAL X ÍNDICE DE LEITURA

Acontece um fenômeno muito curioso no Brasil: o mercado editorial brasileiro vive em descompasso com o índice de leitura. E por que isso acontece? Porque o grande comprador de livros no Brasil hoje é o governo – tanto numa esfera federal como nos estados. O governo compra muitos livros para suas bibliotecas escolares, suas bibliotecas municipais. Mas o governo simplesmente compra esses livros e os coloca à disposição em suas bibliotecas. Mas na outra ponta não há um preparo para que o aluno vá até esse livro. Se você tem uma situação fragilizada na formação do professor e na estrutura da biblioteca, de nada adianta ter uma biblioteca como um depósito de livros. A biblioteca vai continuar com o estigma de um lugar chato. Não adianta só comprar livros; é preciso haver um trabalho que faça da biblioteca um organismo vivo. Por que? Colocar livros na prateleira pode funcionar muito bem como objeto de decoração, mas você tem que estimular que as pessoas leiam esses livros. Você precisa de professores bem preparados, escolas bem preparadas e alunos bem preparados. É por isso que o Estado tem uma responsabilidade muito grande.

POLÍTICAS PÚBLICAS DE FOMENTO À LEITURA

Nós temos uma série de políticas no Paraná, entre elas um projeto que se chama Biblioteca Cidadã, que prevê colocar uma biblioteca em cada um dos municípios paranaenses. Nós temos 399 municípios, e fechamos o ano com 303 municípios com bibliotecas cidadãs. O que não é nenhuma grande revolução; Isso é uma meta que o próprio governo federal propôs. Ter uma biblioteca no município, porém, não basta. Nós desenvolvemos políticas para que as bibliotecas realmente funcionem – com treinamento, acervo e com ações concretas. A Biblioteca Pública do Paraná, que é a principal do estado, tem uma série de programações durante o ano todo que visam tornar a biblioteca um organismo vivo, um espaço atraente, capaz de ir além do empréstimo do livro. Nós temos música na biblioteca, teatro, cinema, encontros com escritores, um jornal da biblioteca, o Cândido, um site bacana, oficinas de criação literária, oficinas de desenho. Temos até uma noite na biblioteca, quando um grupo com 50 crianças dorme e toma café na biblioteca. O que a gente faz é ter várias ações dentro da biblioteca, para torná-la um espaço lúdico, um espaço de convivência. É esse o grande desafio da biblioteca, muito além da ideia do espaço como depósito de livros.

EMPRÉSTIMOS E ATIVIDADES

Funciona com um cadastro simples. A BBP tem 630 mil volumes, entre livros e periódicos. Temos quase três mil pessoas por dia que frequentam a biblioteca, que tem 8.500 metros quadrados e fica no centro de Curitiba – e temos 185 anos. Os nossos usuários podem pegar até três livros e ficar 14 dias com esses livros, os quais ainda podem ser renovados por outros 14 dias. É óbvio que existem alguns livros do acervo da biblioteca que são apenas para consulta local, livros históricos, de referência… Os empréstimos [dos livros] são gratuitos – você só paga R$ 2,50 para fazer uma carteirinha e usa a biblioteca quando quiser. Nós abrimos às 08h30 e fechamos às 20h. Você pode vir para emprestar livro, para ouvir música, jogar xadrez… Existem várias atividades.

BIBLIOTECÁRIO INSTRUÍDO

Todos os bibliotecários da BPP são concursados; temos uma quantidade de estagiários e de (funcionários) terceirizados que trabalham na biblioteca. Hoje, são cerca de 230 funcionários dentro da biblioteca, e nós costumamos fazer treinamentos frequentes. E como temos uma série de atividades dentro da instituição, os funcionários são sempre estimulados a participar. Quando trazemos escritores importantes como o Milton Hatoum, que veio fazer uma palestra, os nossos funcionários também estão convidados a fazer parte dessa fala de literatura, sobre leitura e sobre livro. Isso é também uma forma de mantê-los atualizados. Temos também um jornal da biblioteca, o Cândido, que tem 10 mil exemplares de tiragem, e é um jornal que fala exclusivamente de livro e leitura e é distribuído gratuitamente – e os nossos funcionários também recebem esse material. A ideia do bibliotecário é que ele não seja apenas uma pessoa que saiba catalogar tecnicamente um livro, colocar esse livro numa estante. O bom bibliotecário é aquele que conhece a sua biblioteca, e para conhecer a biblioteca é preciso ler. Então o bom bibliotecário é aquele que, quando não está fazendo nenhum serviço técnico, está lendo, está conhecendo o seu material de trabalho. Assim, quando um usuário entra na biblioteca e pergunta se ali há um romance policial, o bibliotecário irá saber o que é um romance policial. Pode parecer algo óbvio, mas a maioria dos bibliotecários não se preocupa com conhecer a leitura e a literatura. É importante saber encantar o usuário, porque muitas vezes o leitor de bibliotecas públicas não tem a menor noção do que vai ler. Ele pode ter uma vontade de ler, uma vontade de descobrir alguma coisa, mas não sabe bem que caminho tomar. E quem vai dar essa orientação é o bibliotecário. Todo o corpo da biblioteca tem que estar em sintonia com o que é uma biblioteca. Quando a pessoa vem à biblioteca ler jornal – nós temos uma ala de periódicos bem grande aqui –, os funcionários também podem informar que a biblioteca vai além.

OBRAS RARAS E RENOVAÇÃO DO ACERVO

São mais de quatro mil exemplares de obras raras. Qualquer visitante pode ter acesso às obras raras, que podem ser manuseadas com o acompanhamento de um funcionário. Até o dia 19 de novembro nós vamos apresentar um novo projeto da biblioteca pública, porque pretendemos reformular a biblioteca do ponto de vista estrutural, como o mobiliário e o tecnológico. Nesta próxima semana estamos incorporando dez mil livros ao acervo de literatura, que é para dar uma atualizada. E junto com isso fazemos uma programação cultural direcionada para a comunidade. Isso é colocar a biblioteca no seu tempo.

Disponível em: http://www.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=186. Acesso em: 8 fev. 2013.

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