Pense diferente, pense Bibliocamp!

Profissional. É o que se pode dizer do Bibliocamp. Desconferência de altíssimo nível, o Bibliocamp mostrou possibilidades de reflexão nos campos mais diversos, das mídias digitais às publicações científicas, da arte à história e memória.

A 3ª edição do evento ocorreu na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em São Paulo, no dia 5/10/13. Teve início pela manhã, as 9h00, com a realização de uma visita monitorada pela bibliotecária (diretora) Maria Angélica, e foi seguida de um coffee break pelo Senac-SP. O site da Prefeitura de São Paulo disponibiliza informações sobre o histórico, o prédio da biblioteca e seu patrono.

As apresentações da manhã foram iniciadas por Soraia Magalhães, responsável pelo Movimento Abre Biblioteca e editora do blog Caçadores de Bibliotecas. Provocada pelo fechamento da Biblioteca Pública Estadual do Amazonas em 2007, que durou 5 anos, Soraia mobilizou muitas pessoas em torno da reabertura por meio de várias ações: petição pública, mobilização nas redes sociais, Abraço à Biblioteca, Biblioteca na Rua, Mural Abre Biblioteca e O Grito. Após 8 meses de luta, a biblioteca foi reaberta em janeiro de 2013 e, devido à repercussão, Soraia foi uma das selecionadas no Movers & Shakers de 2013. A lição que ela nos deixa é de que os bibliotecários devem lutar não apenas pelos seus postos de trabalho, mas em torno de uma causa que vise o bem comum e cause impactos positivos na sociedade.

Em seguida, o bibliotecário do Senac-SC Jorge do Prado fez uma apresentação sobre Transmedia Storytelling em bibliotecas. Sua apresentação foi bastante marcada por elementos visuais, pois como se trata de assunto novo na área, Jorge buscou ideias em eventos de jornalismo, marketing e publicidade. Abordou o conceito de marketing 3.0, que é focado no sentimento/emocional das pessoas. No contexto das biblioteca, Jorge apresentou o vídeo da Seattle Public Library, que entrou para o Guinness Book como o maior dominó de livros do mundo. Tudo isso para lançar o catálogo do programa de leitura de verão da biblioteca! Um exemplo muito inspirador de como essas instituições podem usar diversas mídias para divulgar seus produtos e serviços para os usuários, também denominados por Jorge como interagentes.

A apresentação de Magali Machado, aluna do curso de biblioteconomia da FESPSP, abordou o blog Monitoria Científica FaBCI-FESPSP, cuja intenção é aproximar dos alunos a realidade dos profissionais bibliotecários por meio de entrevistas, divulgação de novas publicações, dentre outras. O blog também tem o intuito de divulgar a FESPSP e servir como um veículo de comunicação científica e não-científica. Iniciado em 2010 com apenas um aluno, atualmente o blog mais de 30 monitores voluntários que trabalham no projeto sob a gestão de um aluno-monitor selecionado por um edital. Além de ser uma experiência diferenciada nas áreas de informação e comunicação, os alunos podem ter bolsas de até 40% enquanto trabalham no blog. Além dessa ferramenta, também foi citado o Repositório de produção discente da FaBCI, que amplia o acesso aos estudos e pesquisas realizados na instituição.

Gabriela Previdello Orth, mestre em Ciência da Informação pelo PPGCI-ECA/USP e professora na Pós-Graduação da FESPSP em preservação e segurança da informação digital, abordou um tema que num primeiro momento aparenta ser perturbador. Com a apresentação “Propostas não formais de documentação da arte contemporânea”, um dos capítulos de sua dissertação defendida recentemente na ECA-USP, ela expôs que a inserção da arte contemporânea ainda é difícil na maioria dos museus, como trabalhos com luz, vestidos de carne, dentre outros. Ilustrando sua fala com exemplos, Gabriela também comentou que os museus não se propunham a documentar tais trabalhos, sendo que apenas recentemente estão dando atenção a eles. No contexto artístico, ela defende que as regras devem compreender o que foge delas, para que os trabalhos possam ser adequadamente documentados, tais como o site 88 Constellations, em que o usuário se apropria do conteúdo. Dentre os referenciais teóricos apresentados, destaco o trabalho de Jon Ippolito, que abordou a preservação digital por meio de teorias genéticas no campo da biologia evolutiva. Gabriela ressaltou que se trata de um trabalho teórico, mas que no contexto bibliotecário, existe um trabalho sendo feito pela Library of Congress de Encoding Cultura Data. O importante, então, é pensar no arquivo como um todo, e não somente os itens que o compõe.

André Serradas, bibliotecário do SIBi-USP, abordou a questão do embedded librarian, isto é, do bibliotecário engajado. Para tanto, abordou sua experiência na indexação de imagens na Biblioteca Virtual da FAPESP, na Biblioteca Virtual de Psicologia e, atualmente, no Portal de Revistas da USP. De um modo geral, André frisou que a participação do bibliotecário na tomada de decisões das instituições é essencial para que as necessidades dos usuários sejam atendidas. Alguns dos desafios apresentados são, de um modo geral, trabalhar com pessoas de instituições diferentes, compreender a missão e aspiração de cada um e entender as instâncias políticas e participar como bibliotecário. Além disso, destacou a interação com outros setores dentro da própria instituição, como tecnologia da informação e jurídico e, no contexto de seu trabalho atual, expõe que deve haver maior aproximação da Administração da Universidade para observar o acesso aberto nos contratos das publicações.

Abrindo a sessão da tade, a historiadora e bibliotecária Patricia Pimenta teve sua apresentação intitulada “Topographie des Terrors“, uma fundação dedica à memória da Segunda Guerra Mundial localizada em Berlim. Explorando a topografia do terror, o espaço pode ser denominado de diferentes formas, como turismo de reflexão, documento de barbárie e até turismo macabro. Sua importância reside no fato de comunicar o passado para diferentes gerações, pois a história muda com a descoberta e inserção de novos documentos, inclusive para quem trabalha com eles. Por isso, atenção especial deve ser dada à classificação e indexação, que devem ser diferenciadas para essa documentação e revistas com o tempo.

Na sequência, Fabiana Pereira, da Biblioteca Virtual da FAPESP, abordou o tema “Big data é um novo campo de atuação para o bibliotecário?”. Definido como um conjunto de soluções para recolher, organizar e analisar (em tempo real) os dados estruturados e não estruturados, como blogs, geolocalizações, vídeos e fotos, o Big Data possui três atributos principais: velocidades, variedade e volume. Segundo Fabiana, o problema não reside no software e tecnologia da informação, mas na análise dos dados, pois o desafio atual é como usá-lo nas bibliotecas e se o bibliotecário tem competência para isso. A palestrante acredita que sim, pois por meio de levantamento de textos sobre o assunto, vislumbra muitas possibilidades de atuação, como na curadoria digital de conteúdos, literacia de informação e disponibilização de coleções para os usuários. Para Fabiana,”Quem gerencia informação, gerencia dados.” e, por isso, o Big Data deve receber especial atenção do bibliotecário.

Edison deu seu depoimento de quando foi diretor da Biblioteca Comunitária de Heliópolis por 7 anos. Fez cursos de auxiliar e técnico de biblioteca, chegando até a faculdade, mas sem concluí-la. Tudo começou a partir de uma reportagem que apresentou as más condições do bairro, o que motivou a realização de uma campanha para melhorar o bairro. Inicialmente contando com 4000 livros, hoje o acervo em torno de 9000 e a biblioteca recebe, aproximadamente, 1000 usuários por dia. Após premiações recebidas em 2008, 2009 e 2010, tornou-se referência para outras bibliotecas comunitárias de São Paulo, como em Paraisópolis.

Em seguida, Gisele Adornato, bibliotecária da FEA-USP, apresentou também o trabalho de sua dissertação sobre as redes sociais nas bibliotecas universitárias da USP, UNESP e UNICAMP, abordando como as redes afetam a qualidade dos serviços e produtos dessas bibliotecas. Após levantar características positivas e negativas da geração Y, Gisele identificou que houve uma mudança de comportamento de dessa geração que deve ser observada pela biblioteca para que esta não se torne um depósito. Também constatou algumas das razões pelas quais as redes são utilizadas pelas bibliotecas, tais como divulgar informações, como um novo meio de comunicação e para criar um contato mais informal com o usuário. Gisele também relatou que existem bibliotecas que utilizam as redes, mas que possuem equipamentos com acesso limitado às mesmas, e que nem sempre existem colaboração, planejamento, atualização e comprometimento no uso das redes. Diante disso, a palestrante ressaltou que as bibliotecas ainda não conseguem explorar as redes sociais profundamente, mas apenas divulgar informações, o que leva a rever o uso das mesmas e pensar na criação uma política de uso para esse canal de comunicação.

Katty Anne, bibliotecária do SEMED de Manaus, apresentou a palestra “Biblioteca escolar como espaço de oportunidades”. Longe de qualquer referencial teórico, a bibliotecária trouxe sua experiência e projetos que desenvolveu na biblioteca escolar. Sempre em busca de temas provenientes de datas comemorativas para as atividades, Katty Anne também realiza visitas, concursos e mural informativo. Pela biblioteca em que atua já passaram desde desenhista até nutricionistas, e também já foi realizada uma exposição de brinquedos e resgate de brincadeiras antigas, como roda, bambolê, dentre outras, bem como declamação de poesias e teatro. Mas para que tudo isso seja implantando, também há que se encarar fatores que impedem a realização de um bom trabalho, tais como: resistência a mudanças, falta de apoio, falta de recursos físicos e financeiros, condições de funcionamento adequadas, acervo desatualizado e a compatibilidade do perfil do profissional.

A bibliotecária Rosane Estevão se apresentou após Katty, falando de sua experiência na área da saúde. Formada em 1984 pela UFSC, trabalhou em bibliotecas escolares e universitárias do Sul, em cidades como Tubarão e Joinville, sendo que em determinado momento foi convidada a organizar o arquivo de imagens de um jornal, incentivando-a a cursar uma especialização em administração de arquivos. Em 1996, foi trabalhar em um hospital e em 2000, em uma multinacional da área da saúde em São Paulo. Em 2003, cursou a pós-graduação em Ciências da Saúde na UNIFESP e também foi aluna de um curso de pesquisa clínica. Desde 2010, atua como coordenadora de pesquisa clínica da Clion, em Salvador. Deixa-nos a mensagem de que o bibliotecário deve procurar se inserir em áreas não convencionais, como a saúde, pois somente assim podemos mostrar nosso valor aos outros profissionais, que muitas vezem sequer imaginam a importância do bibliotecário em suas organizações.

Por fim, Juliana Almeida, da Biblioteca Mário de Andrade, apresentou maneiras muito criativas de montagem das exposições do acervo circulante. Os destaques ficam por conta de exposições comemorativas e datas cívicas, e a inspiração foram os Doodles do Google, pois da mesma forma que eles despertam a curiosidade dos usuários do buscador, as exposições são criadas de forma a instigar os usuários a levarem o livro consigo, que de outro modo talvez nunca tivessem contato com um determinado título. Para tanto, são utilizados sete expositores com capacidade para quinze livros, e duas exposições recebem destaque no site. A equipe multidisciplinar responsável por essa atividade contribui para o enriquecimento do ato de criação das exposições, que são inspiradas por acontecimentos diários (como atrasos na devolução de livros, por exemplo), insights, pesquisas e programação cultural, levando a um contato próximo da equipe com os usuários.

Após o Bibliocamp, os participantes foram até um barzinho próximo para o Bibliochopp, do qual não participei. Mas só o fato de ter ido ao Bibliocamp valeu a pena! É um evento não convencional, mas fundamental para se respirar novos ares na Biblioteconomia e captar novas ideias e, principalmente, pessoas, pois sem elas o evento não teria acontecido! O formato diferenciado permite ter contato com quase todos os participantes, estreitando relações e criando novas. Por isso, fica aqui meu muito obrigado aos organizadores e participantes por essa oportunidade! E quem venham os próximos!

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14 Comentários

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14 Respostas para “Pense diferente, pense Bibliocamp!

  1. Meu nome êh Rosane Estevao e minha graduação na UFSC foi em 1984

  2. lkazachenkova

    Schama me Lyubov Kazachenkova. Trabalho como o redator-chefe na revista profissional “Biblioteka MOderna” na Rússia. Interessei-me muito pelo o seu artigo.
    Peço a sua permissão de imprimi-lo em uma tradução para o russo na minha revista. O meu e-mail: lkazachenkova@gmail.com

  3. Grato pelo bom relato. Sugestão ao texto: inclua mais e mais links sobre os conceitos, pessoas, eventos etc. O futuro será assim.

  4. Daniela F. A. de Oliveira Spudeit

    Parabéns Eduardo, excelente texto! Resumisse com muita propriedade tudo que aconteceu no evento. Compartilhei ele no meu facebook. Grande abraço e foi um prazer te rever.

  5. lkazachenkova

    Obrigada! Claro, eu vou postá-lo no site e enviar o link!

  6. Pingback: BiblioCamp Sanca 2017: as bibliotecas não são o limite! | Mundo Bibliotecário

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