G1 mostra como são conservados e restaurados livros ‘eternos’

Biblioteca Nacional, no Rio, tem livros guardados em cofre.
‘Livro das horas’ e outras preciosidades possuem mais de 500 anos.

[acesse aqui o vídeo disponível na notícia]

A 17ª Bienal do Livro do Rio, que será aberta na próxima quinta-feira (3) no Riocentro, na Zona Oeste, contará com o lançamento de mais de mil livros. A cerca de 37km dali, alheios  às novidades do mercado, alguns exemplares, por conta de sua raridade, são guardados em cofres com temperatura de umidades controladas e tratados como joias.

O G1 foi até a Biblioteca Nacional, no Centro do Rio, mostrar como funciona o trabalho de restauração e manutenção dessas obras especiais.

Os exemplares que precisam de reparos são levados para o Laboratório de Restauração, onde os técnicos utilizam materiais e máquinas importados para fazer com que obras degradadas pela ação de agentes como a maresia, poluição, insetos, umidade, temperatura e a mão do homem ganhem vida novamente.

Um dos livros que passa pelo processo de restauração é “Máximas Espirituaes”, de Affonso dos Prazeres, de 1740, que passa pelos cuidados dos especialistas da Biblioteca Nacional. Dentro deste processo, o livro é desmontado para ser recuperado. “É feita uma polpa de papel e a gente coloca em uma máquina e reconstitui toda a parte faltante onde o inseto comeu,” afirma Fernando Amaro, chefe da equipe responsável pela restauração.

Prevenção
Para que não precisem ser restaurados, livros, documentos e mapas passam por um trabalho preventivo. Para definir o que é raro, a Biblioteca Nacional não leva em questão somente a antiguidade, mas também se é única, inédita, se faz parte de alguma edição especial e possua algo que a diferencie de outras, como um autógrafo, por exemplo. Cada obra considerada rara é limpa individualmente, página a página, com um pincel em uma mesa, que se parece com uma escrivaninha, que “suga” a poeira.

No laboratório, é possível monitorar as condições de armazenamento em cada um dos setores da Biblioteca Nacional. Cada ambiente possui um sensor e um programa gerencia a qualidade do ambiente e indica quais são as condições de temperatura e umidade na qual os livros estão armazenados.

As obras, sejam elas raras ou não, são embaladas de maneira sob medida para que estejam preservadas dos agentes externos que possam danificá-los.”O objetivo é proteger os cortes do livro. Protegê-los da poeira para evitar que ela se deposite, que é um fator que faz com que o livro se degrade muito mais rápido”, conta Gilvânia Lima, chefe do Centro de Conservação e Encadernação. As obras mais raras possuem uma caixa em outro modelo, também sob medida, que as isolam totalmente do contato com o ambiente externo.

Dois dos livros de horas que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Cada um deles foi feito à mão por volta de 1460, na região de Flandres. (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Dois dos livros de horas que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Cada um deles foi feito à mão por volta de 1460, na região de Flandres. (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

Mais de 555 anos
Um destes livros eternos é um exemplar que faz parte da coleção dos chamados “livros de horas” medievais, que possuíam orações que deveriam ser feitas em cada uma das horas canônicas, ou seja, determinados horários do dia e da noite. São oito exemplares que ficam guardados dentro de um cofre climatizado. Por medida de segurança, não é possível fazer imagens do lugar, que não está aberto ao público. Estes livros são tão raros e valiosos que não possuem valor de mercado. Os ambientes onde permanecem são monitorados e possuem segurança redobrada.

Contar a história da origem de cada uma destas obras praticamente daria um outro livro. O exemplar que ilustra esta matéria foi feito à mão, por volta de 1460, possivelmente em um ateliê na região de Bruges, na antiga Flandres, atualmente território da Bélgica. Ou seja, o livro é mais antigo do que a própria chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500. Como a leitura era quase que exclusividade dos nobres e um livro como este era caro, provavelmente foi confeccionado para um membro da realeza.

O livro passou por destinos desconhecidos até chegar às mãos de uma figura conhecida dos livros de história: o Marquês de Pombal. No século XVIII, ele mandou encadernar o livro com uma capa com os seus brasões, conservada até hoje. Depois, o livro foi dado à Família Real Portuguesa. Com ela, a obra chegou ao Brasil, em 1808. Dois anos depois, passou a fazer parte do primeiro núcleo de livros, mapas e outros documentos do acervo da Biblioteca Nacional.

As páginas foram feitas de pergaminho, pele de animal usada na escrita desde a Antiguidade até a difusão do papel, com a imprensa. Como o material é mais resistente, isso teria ajudado a obra a chegar aos dias de hoje. Uma tinta feita à base de ouro decora as páginas, fazendo com que elas brilhem quando são expostas à luz.

Apesar do público não ter acesso aos originais, existem cópias que estão disponíveis para o público. “Quem precisa consultar pode ter acesso a fac-símiles, que foram produzidos com cuidado com este objetivo”, afirma Vera Faillace, chefe da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional.

Além dos livros de horas, a Biblioteca Nacional conta com outros exemplares raros que contam com os mesmos cuidados. Entre eles estão a única cópia no país da Bíblia de Mogúncia, ou Bíblia de Gutenberg, de 1462; a primeira edição dos Lusíadas, de Camões, de 1572; e a primeira edição da Arte da gramática da língua portuguesa, escrita pelo Padre Anchieta.

Livro é recuperado por restaurador, após ser retirado de máquina onde ele recebe uma polpa feita de celulose para recuperar espaços danificados por traças. (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Livro é recuperado por restaurador.
(Foto: Cristina Boeckel/ G1)

Modernização
A preservação do passado caminha ao lado do futuro. A Biblioteca nacional é a terceira maior do mundo nas redes sociais. Atualmente a página da instituição no Facebook conta com mais de 181 mil curtidas. No Twitter, o local conta com mais de 94 mil seguidores. Nas duas redes sociais só perde para a Biblioteca do Congresso dos EUA e para a Biblioteca de Nova York.

Toda a aparelhagem para que os nove milhões de livros, gravuras e documentos da Biblioteca Nacional sejam preservados fazem parte de um esforço para que a história permaneça viva, como afirma Fernando Amaro, chefe do Laboratório de Restauração.

“A necessidade de restaurar um documento de 200, 300 e 400 anos é dar vida novamente àquilo. E quando ele se perde, ali se perde a história. Então você consegue fazer com que um historiador diga o que nós fazíamos, o que comíamos, como era aquela época. Mais importante do que a restauração é a preservação”, resume o restaurador.

Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/09/g1-mostra-como-sao-conservados-e-restaurados-livros-eternos.html>. Acesso em: 1 set. 2015.

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