Como séries temáticas podem ajudar no desenvolvimento de revistas

Luciana Christante de Mello (BioMed Central/Springer)
Editora de Aquisições e Desenvolvimento

A publicação de séries temáticas é considerada uma ação estratégica para o desenvolvimento de periódicos. Embora os nomes variem (coleção temática, fascículo especial, suplemento etc), a ideia comum é a de publicar, de forma agrupada, artigos focados em um tópico específico, de preferência um tópico emergente (hot topic) dentro de uma determinada área de pesquisa. Ainda que uma série temática possa estar vinculada a um evento científico, não devemos confundi-la com anais de congresso.
De forma geral, os principais benefícios que a publicação de séries temáticas pode trazer a um periódico são: 1) atrair submissões em áreas que a revista não costuma receber e 2) ampliar a base de leitores e encorajar citações. O negrito na frase anterior é importante para assinalar que estes são benefícios potenciais e as chances de eles se concretizarem são tanto maiores quanto mais os editores atentarem para a alguns detalhes no planejamento e na organização da série, como explico a seguir.

Escolha do tema
Eleger um tema para uma série temática nem sempre é tarefa simples e pode ser particularmente trabalhosa para revistas de amplo escopo, como é o caso da maioria dos periódicos brasileiros. Neste caso, antes de começar a considerar um hot topic, é preciso decidir qual área do escopo será enfocada. E o melhor a se fazer é escolher uma área na qual a revista tenha recebido pouca ou nenhuma submissão nos últimos anos, ainda que isso pareça contraditório.
Um exemplo: uma revista de medicina cujo escopo cobre todas as especialidades médicas muito provavelmente estará publicando muito em algumas delas e pouco ou nada em outras. Digamos, hipoteticamente, que essa revista tem publicado muito em cardiologia e nada em oncologia. A consequência disso é que os autores de oncologia nem sequer consideram tal revista quando pensam em publicar um artigo, simplesmente porque nunca leem nada de oncologia nela. A série temática ajuda a quebrar este círculo vicioso, colocando a revista no radar destes autores e aumentando as submissões nessa área nos meses ou anos subsequentes.
Seguindo com este exemplo hipotético, o próximo passo é investigar tópicos emergentes em oncologia. Está aí uma boa oportunidade para pedir aconselhamento aos oncologistas do conselho editorial, com quem provavelmente o editor (não sendo um oncologista) não tem contato há bastante tempo. Engajá-los nesta empreitada é fundamental. Este deveria ser o ponto de partida não apenas para discussão do tópico, mas também para a indicação de editor(es) convidado(s) para a série temática.

Internacionalização
Revistas que publicam em inglês e têm se esforçado para internacionalizar sua base de autores devem considerar fortemente a possibilidade de ter pesquisadores estrangeiros entre os editores convidados para suas séries temáticas, pois eles vão ajudar a atrair submissões que provavelmente não chegariam à revista de outra maneira. Obviamente, a escolha do país vai depender da temática e das colaborações dele com o Brasil nessa área de pesquisa.
A participação de editores convidados de outros países emergentes, em especial da China, pode dar mais visibilidade ao periódico em regiões onde a revista talvez não tenha muita penetração. Sempre escuto muitas queixas entre editores brasileiros sobre a enxurrada de submissões asiáticas de baixa qualidade, mas é por isso mesmo que um editor convidado dessa região pode contribuir. Ele pode atrair a pesquisa de boa qualidade que também é produzida lá e, por vários motivos, está indo parar em outras revistas.
Sem a pretensão de esgotar o assunto, espero ter colaborado para chamar a atenção para alguns aspectos-chave a serem considerados no planejamento de séries temáticas e que podem potencializar seus benefícios e impulsionar o desenvolvimento de uma revista científica. Boas séries temáticas valorizam o periódico e não é por outra razão que até mesmo aqueles já bem estabelecidos não abrem mão de publicá-las pelo menos uma vez por ano.

Luciana Christante de Mello é graduada em Farmácia-Bioquímica e mestre em Neurociências pela USP, com especialização em jornalismo científico pela Unicamp. Trabalhou 12 anos como jornalista de ciência e atualmente é editora de aquisições e desenvolvimento do BioMed Central/Springer para a América Latina.
Email: luciana.christantedemello@biomedcentral.com

Disponível em: <http://www.abecbrasil.org.br/index.asp?include=noticias_newsletter&id=13&Parte=3>. Acesso em: 15 set. 2015.

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