Volnei Canônica: “precisamos de leitores plenos”

Maristela Scheuer Deves – Pioneiro – 12/09/2015

Uma das cabeças por trás da criação, em 2005, do Programa Permanente de Estímulo à Leitura (PPEL), Volnei Canônica, 41 anos, já atuou na área de teatro em Caxias do Sul, assessorou a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), coordenou o programa Prazer em Ler do Instituto C&A e fundou, em 2014, o Centro de Leitura Quindim, também em Caxias — o nome foi dado pelo padrinho do grupo, o escritor e ilustrador Roger Mello, vencedor do Prêmio Hans Christian Andersen 2014. Desde o início de agosto, esse caxiense, formado em Relações Públicas e com especialização em Literatura Infantil e Juvenil, abraça um desafio maior: coordenar a Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (DLLLB), órgão ligado ao Ministério da Cultura e encarregado de colocar em prática as políticas federais do livro e leitura.

— O ministro (da Cultura) Juca (Ferreira) está nos trazendo o desafio de pensar uma grande campanha de mobilização da sociedade brasileira para a causa da leitura. Não tenho dúvida de que o único caminho é a leitura literária — diz.

Canônica conversou com o Pioneiro e disse que entre suas metas estão valorizar os esforços da sociedade civil em promover o acesso ao livro e à literatura e fortalecer o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias. Promover a circulação de escritores e ilustradores no Brasil e no Exterior, fomentar a construção de planos municipais e estaduais do livro e da leitura e construir parcerias são outros objetivos. Confira trechos da entrevista:

Quais são os principais desafios da DLLLB, neste momento?
Estamos falando de um país continental com cenários diferentes e um grande déficit no que diz respeito à educação e à cultura. Outro fator importante é que, devido ao contexto econômico e político, a DLLLB não conta, neste momento, com recursos financeiros suficientes para tudo que necessita. Depois desse panorama, só posso dizer que os desafios são muitos e bons. Mas é em momentos como esse que precisamos juntar os esforços e nos reinventar. Dessa forma, estamos buscando estruturar a Diretoria de modo que a equipe se sinta mais confiante para realizar suas ações, facilitando assim a agilidade nos processos, além de valorizar, dar visibilidade e fortalecer as ações já desenvolvidas, reabrir a Biblioteca Demonstrativa de Brasília e viabilizar o aumento dos recursos financeiros para a Diretoria dentro do MinC e por meio de parcerias.

O cenário econômico atual vem afetando, também, o mercado do livro, incluindo cancelamento ou suspensão de projetos voltados à leitura nos mais variados níveis de governo. Em que isso influencia o teu trabalho?
Estamos vivenciando um momento econômico e político bastante delicado. Pelo menos duas questões ficaram evidentes com esses fatos. Primeira, precisamos melhorar, por parte do governo, a compreensão de que a literatura é estruturante para a educação. Queremos leitores plenos que saibam decodificar o código escrito, mas que, principalmente, tenham um melhor entendimento desse código para estruturar os seus conhecimentos, sua cidadania e, assim, contribuir para o avanço do nosso país. Segunda, o mercado livreiro não pode ter o governo — federal, estadual ou municipal — como o grande responsável por sua sustentabilidade. No Brasil temos muita deficiência em ações concretas e demoramos muito para emplacar programas de governo que realmente contribuam para a área. Quando algum protelamento ou suspensão destes programas acontece, o impacto é enorme. Com isso, concluo que o Estado tem como dever investir, de alguma forma, garantindo que a literatura esteja presente nas escolas, e o mercado precisa buscar novas alternativas de sustentabilidade.

O Brasil, infelizmente, ainda não é um país de leitores, temos uma média de leitura bem abaixo de outros lugares. Como você vê isso?
Toda vez que alguma pesquisa sobre os índices de leitura no Brasil é publicada, ficamos desanimados e preocupados. As pesquisas são importantes para o planejamento de ações mais eficientes e com impactos necessários para a mudança de cenários. São dados que devem estar nas mãos dos gestores públicos para que a partir deles possam rever seus caminhos. Por outro lado, existe um Brasil em que as ações de promoção da leitura proliferam. Encontramos bibliotecas escolares e professores que entendem que seu papel na formação vai além da alfabetização e do conteúdo didático. Mediadores de leitura das bibliotecas comunitárias ou bibliotecas móveis ocupando diferentes espaços, sempre rodeados de meninos e meninas à procura de uma história. Muitas bibliotecas públicas, com bibliotecários comprometidos com a literatura, a informação e o conhecimento estão desfazendo o conceito de que biblioteca é um espaço do amontoado de livros e silêncio. Livrarias e cafés se reinventam e promovem saraus, bate-papos, leitura de histórias, dando acesso a todo esse universo ficcional e do conhecimento. O investidor social privado também vem atuando na promoção da leitura, contribuindo com investimento financeiro e técnico para a sustentabilidade de várias ações. Corroborando esse cenário, encontramos os nossos escritores, ilustradores, designers gráficos e editores produzindo literatura e livros de qualidade que provocam e ampliam o olhar de leitores brasileiros e estrangeiros. Mesmo quando o Estado está ausente e para além das estatísticas, o povo brasileiro toma a iniciativa e dissemina a leitura e a literatura.

Como o poder público pode agir?
O poder público tem como dever fomentar o diálogo entre os diferentes atores e construir marcos legais que garantam recursos para a sustentabilidade das ações de promoção da leitura. Para construir uma sociedade mais leitora, teremos de reunir numa mesa-redonda sociedade civil, investidor social privado, poder público e, juntos, planejarmos e desenvolvermos os nossos papéis numa cooperação. Precisamos de territórios leitores mais fortalecidos, e que todos os atores que são importantes para a promoção da leitura estejam em diálogo. Quero que a minha frase “Um por todos e todos por um Brasil de leitores!” não seja só um slogan, mas que seja o caminho percorrido entre o arco e o alvo.

De quem, afinal, é o papel de incentivar a leitura?
Existem várias portas de entrada para a formação de leitores. A qualquer momento da vida a ficção pode te pegar pela mão e te levar para o caminho dos livros e das bibliotecas e nunca mais te deixar. Um caminho que deveria ser o mais natural é o da presença da literatura desde os primeiros anos de vida. É importante que a criança se familiarize muito cedo com o objeto livro e com o processo da leitura. A literatura é caminho para o desenvolvimento do imaginário e do entendimento de mundo. A biblioteca na escola precisa proporcionar literatura diversificada e de qualidade que possa ampliar as possibilidades de conhecimento desta criança e principalmente o estímulo ao imaginário. Uma biblioteca deve contribuir para que o seu entendimento de mundo possa ser ampliado, conforme ela vai experimentando seu lugar no convívio social e principalmente neste processo individual de entendimento dos seus sentimentos.

E o Estado?
O Estado tem de garantir que a população possa continuar a ter acesso ao livro e à leitura pelas bibliotecas públicas, considerando-as espaços que devem abarcam o conhecimento, a cultura e a literatura, patrimônios da humanidade. Essas bibliotecas, se bem estruturadas com equipamentos, equipe qualificada e uma programação atraente, dão acesso a todo esse patrimônio. Aquele leitor que começou na família e teve ou está tendo acesso à literatura na escola e nas bibliotecas comunitárias, pode continuar sua trajetória de leitor na biblioteca pública. Cabe ressaltar que essas bibliotecas comunitárias são bastante ativas, com a presença de crianças o tempo todo e que além da formação de leitores, são espaços de discussão dos direitos da comunidade, de engajamento em causas sociais, colaborando assim para a construção da cidadania. Para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e participativa, o acesso a todas essas bibliotecas é fundamental! Por fim, é necessário um esforço conjunto entre sociedade civil e governo para mudarmos o cenário. Como já disse: “Um por todos e todos por um Brasil de leitores!”

Boa parte do público leitor brasileiro parece preferir autores estrangeiros, ao menos em se tratando de ficção. Há o que fazer nesse sentido?
Estamos falando aqui diretamente de uma questão de mercado. Consumimos informação. Portanto, a todo o momento estamos sendo bombardeados com a lista de mais vendidos _ basicamente autores estrangeiros. Entramos nas grandes livrarias e as vitrines são de autores estrangeiros. Os profissionais que trabalham na promoção da leitura, em sua maioria, não são leitores de literatura nacional. O que os leitores em desenvolvimento irão consumir? Claro que muitos autores estrangeiros devem ser consumidos, nem estou falando só de autores clássicos. MAs precisamos olhar melhor para a literatura brasileira. Não é de hoje que o Brasil tem um rol de autores que não podem faltar nas estantes, nem na cabeceira da cama. Precisamos cada vez mais divulgar os nossos autores. É importante que as feiras de livros e os eventos literários deem espaços para os escritores locais e regionais também. Os novos escritores precisam ser valorizados.

Nessa questão, qual o papel de órgãos públicos, como a DLLLB?
A DLLLB e a Fundação Biblioteca Nacional vêm fomentado, junto com outras secretarias do MinC, a participação de escritores e ilustradores brasileiros em eventos nacionais e internacionais. Fomentado também bolsas de tradução para que esses escritores possam entrar no mercado internacional e também ganhar maior projeção. As leis de incentivo e os fundos de fomento, municipais, estaduais e federais precisam contemplar isso e dar espaço aos novos. Mas gostaria de chamar a atenção para a importante contribuição da imprensa neste assunto. Precisamos da imprensa atuando conosco para dar mais espaço aos autores locais.

Disponível em: <http://www.blogdogaleno.com.br/2015/09/16/volnei-canonica-precisamos-de-leitores-plenos>. Acesso em: 18 set. 2015.

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