O livro é caro? É por isso que o brasileiro lê pouco?

Desde crianças nos habituamos a ouvir de todos – pais, professores e amigos – que o principal problema do livro é seu preço. “Livro é caro”, repetimos incessantemente por gerações.

Mas ele é mesmo?

Não se vai ao cinema hoje por menos de R$ 40 (se somarmos ingresso à sempre presente pipoca). Ainda assim, o brasileiro vai, em média, quase 8 vezes por ano ao cinema.

O preço médio de um livro é menor que R$ 35 – mas, em média o brasileiro tenta lê (sic) 4 livros e consegue chegar ao fim de 2,1 deles em um ano inteiro. Assutador.

E porque comparar livro com filme? Porque ambos são modelos de se contar histórias, sendo que o livro é um tipo de meio que pode ser “aproveitado” por mais tempo, costuma trazer conhecimento de maneira bem mais densa e trabalhar a imaginação de qualquer pessoa como nenhuma outra narrativa.

O problema, então, é o preço? Se isso fosse verdade, iríamos ao cinema uma vez na vida e outra na morte. Não é o caso.

Dizem que quando se repete uma frase o suficiente ela vira uma verdade quase incontestável. Dizer que o brasileiro lê pouco porque o livro é caro é um caso típico disso: estamos tão habituados a considerar esse fator como absolutamente preponderante que sequer nos damos ao luxo de questioná-lo.

O livro poderia custar menos? Sim, sem dúvidas – da mesma forma que o ingresso do teatro, o preço de um jantar ou um celular novo. Tudo poderia custar menos pelo simples fato de que ninguém gosta de pagar muito por nada.

Mas daí a acreditar que o brasileiro lê pouco porque o livro é caro é um tipo de conclusão não apenas precipitada, mas totalmente sem base em parâmetros empíricos e capaz de afundar toda uma indústria criativa que, como qualquer outra, precisa de investimentos para poder crescer com qualidade.

Disponível em: <http://blog.clubedeautores.com.br/2015/10/o-livro-e-caro-e-por-isso-que-o-brasileiro-le-pouco.html>. Acesso em: 23 out. 2015.

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3 Comentários

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3 Respostas para “O livro é caro? É por isso que o brasileiro lê pouco?

  1. Post muito bom!

    Mas creio que a ausência de leitura no hábito do brasileiro seja também um problema sociocultural. A parte social de toda esta questão envolve o fato de que entre os 100 países com o maior número de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o Brasil possui o terceiro maior número de evasão escolar. Um em cada quatro alunos abandonam a escola antes da última série. Também é fácil supor que os três que não abandonam a escola não são devidamente apresentados à leitura como algo prazeroso. Cria-se um vício cultural de não-leitura, além do conceito equivocado de que a ler um livro seja sempre, obrigatoriamente, algo chato e tedioso. O cinema, ao contrário dos livros, possui uma forte propaganda. Até porque, os produtores gastam muito nas produções dos filmes e precisam de lucro como retorno – e como a propaganda é a alma do negócio… Isto influência para que o cinema seja um hábito mais comum do que a leitura de um livro, mesmo sabendo que ambos são meios de se contar uma história. Para que esta situação melhore, de fato, no Brasil, ao meu ver, seria a longo prazo.

    Hoje, 90% da população é alfabetizada, mas apenas 50% possui o ensino médio completo. Sabemos que ser alfabetizado não diz muita coisa sobre nada. Então precisamos de meios atrativos para as gerações atuais de crianças, desde o primário. Precisamos de meios que influenciem as crianças à leitura, não como algo obrigatório e imposto, mas prazeroso. Precisamos de escolas com boas estruturas e bibliotecas, para que os alunos tenham a oportunidade de ler – porque mesmo com os livros não sendo caros, há alunos pobres, de famílias carentes que realmente não vão nem ao cinema por falta de dinheiro, ou os que não trabalham e os pais não dão dinheiro para que compre livros e uma imensidão de possibilidades. Em 2014, em atos estudantis, percebi que muitos alunos secundaristas protestavam clamando para que algum espaço de suas escolas fosse dedicado para haver biblioteca para eles dentro do ambiente escolar. Como exigir que a sociedade leia bastante, se a leitura costuma ser apresentada da forma errada?

    É parte também de um problema estrutural. A leitura, por ser mal apresentada, é sempre vista como tediosa. Já o cinema, sempre bem apresentado nos trailers e propagandas da TV, é visto como interessante. Gastar pouco numa coisa que parece ser chata, mesmo quando não é chata, soa como gastar muito. Talvez por isso também que a ideia do “livro é caro” se mantenha tão viva.

    • Olá, Edu Leocádio!

      Ótima reflexão!

      Sua análise mostra que o problema da não-leitura (adorei esse termo!) de fato é um problema muito mais profundo. Além da leitura ser apresentada erroneamente, também existe outro ponto sempre muito comentado: ela exige reflexão. Algo que não acontece com o cinema, pelo menos não da mesma forma, já que se trata de outra linguagem, no caso, a audiovisual. Por isso, além de ser apresentada de forma errada, a leitura também carrega esse “estigma” de reflexão, coisa que o brasileiro não é lá muito chegado… Interessante também sua abordagem sobre a forte propaganda no cinema e acredito que a questão é essa mesma: no fundo é uma guerra econômica por trás!

      Obrigado pelo comentário e pela visita!
      Eduardo.

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