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Reflexões sobre livros

Por João Cristofolini

Escrevi esse texto no grupo do ResumoCast recentemente e compartilho agora com todos vocês.

Algumas reflexões minhas sobre livros: (se preferir, pode ouvir o áudio desse texto aqui).

– O melhor livro que li pode não ser o melhor para você:
Cuidado em querer buscar sempre qual o melhor livro ou indicação de terceiros, isso é importante, mas não se limite a isso. Muitas vezes li algum livro por indicação que para a pessoa foi o melhor livro da vida dela e teve pouca ou nenhuma relevância para minha realidade. Assim como o contrário, o que me marcou pode não ser relevante para você.
Sabe por quê? Cada pessoa está em um momento, circunstâncias, realidade diferente. Cuidado com rótulos de terceiros.

– Não foque apenas nos best-sellers:
Best-seller significa que o livro já vendeu alguns milhares de exemplares, o que significa que algumas milhares de pessoas já o leram, o que significa que a informação contida virou commodity. Quando todo mundo le a mesma informação, essa informação já virou commodity e a sua função é sempre buscar o desvio.
Não estou dizendo que você não deva ler best-seller, eu também leio alguns deles, mas não se limite a isso. O que será o seu grande diferencial, o seu desvio, não está em um best-seller, está em um conteúdo que você foi capaz de encontrar.

– Não foque apenas em livros de negócios:
Sim, promovemos livros de negócios, eu leio livros de negócios, mas novamente, não se limite a isso. A vida não é só negócios, busque conhecimentos clássicos, filosofia, autoconhecimento, espiritualidade, saúde e qualquer outro gênero que goste, talvez um hobby seu. As grandes ideias e conexões surgem de conteúdos e áreas diferentes, lembre sempre disso.

– Não foque apenas em um único autor ou referência:
O mesmo vale para quem cria rótulo de guru ou passa a consumir apenas conteúdo de um único autor ou referência. Extraia o máximo de aprendizado de uma referência e alterne entre outras, todos tem algo a ensinar. É importante você mudar completamente a opinião e ponto de vista sobre um assunto com referências, fontes e autores completamente diferentes, de áreas e perfis.

– Cuidado com a sensação de sempre precisar consumir mais e mais informação:
Essa talvez seja uma das mais comuns nos dias de hoje. Parece que estão todos correndo contra o tempo em uma competição frenética de quem le (sic) mais livros, como se quantidade de informação que você adquire ou de livros que leu no ano fosse a única ou maior variável em sua vida. Informação que não é colocada em prática não tem valor nenhum.

– Priorize sempre que possível a fonte verdadeira:
Grandes obras e clássicos da literatura foram produzidos ha décadas ou séculos. Os maiores pensadores não surgiram nesse século. De novo, não se limite ao que está na moda, o clássico sempre terá seu valor.

– Não acredite em tudo o que le (sic):
Nem no que estou escrevendo, o seu objetivo deve ser aprender a questionar. A maior prova se um conteúdo de fato tem relevância é testando e colocando em prática. Questione tudo, teste, aplique e tire suas próprias conclusões.

– Reserve tempo para ler a sua mente, ficar em silêncio:
Os maiores ensinamentos estão dentro de você e não fora.
Tão importante quanto colocar informação é o tempo que você reserva para silenciar sua mente, para meditar, para refletir, para não pensar em nada, para ficar no ócio criativo. A verdadeira sabedoria está dentro e não fora. Muitas vezes procuramos fora o que está tão próximo de nós.

Disponível em: <http://joaocristofolini.com.br/blog/reflexoes-sobre-livros/>. Acesso em: 18 nov. 2016.

 

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O livro não nasce livro, torna-se livro

O título deste post é uma paráfrase da frase de Simone de Beauvoir que tornou-se popular no ano passado por ter sido objeto de uma questão do ENEM. A inspiração para o texto, no entanto, veio do artigo “The Philosophy of Language and Knowledge Organization in the 1930s: Pragmatics of Wittgenstein and Ranganathan”, de Gustavo Silva Saldanha, pesquisador do IBICT e professor da UNIRIO.

Especialmente o tópico “5.0 The books are not for use; the books are the use itself: Ranganathan and Wittgenstein, language
and knowledge in 1930s” chamou a atenção pelo fato de levantar um conceito interessante relacionado com a Segunda Lei de Ranganathan, que até então desconhecia: digvijaya. A Segunda Lei, “Para cada leitor seu livro” (ou qualquer outra variação similar que seja detectada em outros escritos), é apresentada por Ranganathan como uma espécie de advocacy proposta nos dias atuais. Ela também traz consigo a noção de uso. Sob o ponto de vista do bibliotecário indiano, essa noção está fortemente relacionada à Primeira Lei “Os livros são escritos para serem lidos”, pois considera que o conteúdo de um livro só pode ser explorado e seus significados são elaborados a partir do momento em que é usado.

Por isso, essa ideia do Ranganathan inspirou o título deste pequeno texto. É interessante pensar em dois aspectos:

1) a defesa pelas bibliotecas é muito mais antiga do que supõe o conceito de advocacy. Já vem desde os tempos de Ranganathan que revolucionou o pensamento biblioteconômico ao propor suas cinco leis:

  1. Os livros são escritos para serem lidos
  2. Todo leitor tem seu livro
  3. Todo livro tem seu leitor
  4. Poupe o tempo do leitor
  5. Uma biblioteca é um organismo em crescimento

2) o encontro da informação com seu leitor realmente é interessante, pois é quando há um (re)processamento, uma (re)significação do conteúdo pelo leitor, de forma que novas informações sejam criadas a partir das experiências prévias do leitor, alimentando, assim, o ciclo da informação.

 

REFERÊNCIAS
SALDANHA, G. S. The Philosophy of Language and Knowledge Organization in the 1930s: Pragmatics of Wittgenstein and Ranganathan. Knowledge Organization, v. 41, n. 4, p. 296-303, 2014.

RANGANATHAN, S. R. As Cinco leis da Biblioteconomia. Brasília: Briquet de Lemos, 2009.

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Os 10 mitos da informação (10)

10. People make easy, conflict-free connections between external information and their internal reality. We tend to assume an ordered universe, in which connections exist between the internal and external. In our research, we tend to ask “what” and “how” rather than “why”. We ask what people read or view, rather than why they do so. We lack understanding about how people inform themselves, how they make connections over time, the sense they make of their world between significant events. Dervin said that instead of studying what “information does… for people” we need to focus on “what people do to information” (p. 333).

O décimo e último mito apresenta uma abordagem muito interessante sobre a informação que é o “que” e “como” as pessoas a utilizam, ao invés de “por que”. Na realidade, como o próprio texto do mito diz, essa relação é muito mais complexa do que aparenta, já que as pessoas conectam as informações externas com sua realidade interna. Isso acontece pela tendência em se assumir uma ordem no universo a partir das conexões entre o externo e o interno.

Por isso, o foco recai sobre o “que” e como”, e não “por que” a informação é utilizada, a fim de entender como as pessoas se informam, como conectam as informações ao longo do tempo e o sentido que atribuem ao mundo entre eventos significativos. Isso melhorará a compreensão sobre o uso da informação em diferentes contextos e por diferentes pessoas, haja vista que algumas vezes até mesmo a própria pessoa que a procura não sabe exatamente o que quer, carecendo de elementos suficientes para estruturar uma questão que lhe traga a resposta desejada.

E esse mito é finalizado com a menção à Dervin de que ao invés de estudar o que “a informação faz… para as pessoas”, a atenção deve se voltar para “o que as pessoas fazem com a informação” (p. 333, tradução nossa), o que é válido, considerando-se que o significado de uma informação vai além daquele que lhe é inato, podendo ser atribuído outro significado segundo a realidade interna e externa da pessoa que a encontrou.

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Os 10 mitos da informação (9)

9. Time and space – individual situations – can be ignored in addressing information seeking and use. Yet often it is the individual’s definition of the situation that shapes his or her needs as much as the “real” situation itself. If individuals perceive a lack of predictability and control of an outcome, then they worry. The worry itself becomes a need.

O mito 9 se refere ao tempo e ao espaço. Essas variáveis devem ser lembradas no momento de busca de informação, pois são determinantes para saber se os resultados encontrados são compatíveis com a necessidade que motivou a busca. Como o texto apresenta, é a situação individual do usuário que molda suas necessidades e o faz com que busque respostas.

Qualquer que seja a motivação que desperte uma necessidade informacional, ela acontece num determinado tempo e espaço, lembrando que esses fatores também impõem limites às ferramentas disponíveis para a pesquisa de informação. Por exemplo, um motorista que teve um problema no carro e não possui seguro precisa entrar em contato com a concessionária da rodovia para resolvê-lo. Dependo do espaço, talvez não tenha uma cobertura 3G razoável para ele procurar pelo telefone da concessionária via Internet no seu smartphone, e se ele estiver no fim da tarde e não dirige a noite (tempo), seu problema toma outra dimensão e sua necessidade torna-se mais urgente.

Como o próprio texto também expõe, a falta de previsibilidade e controle de um resultado pode ser motivo de preocupação, conforme ilustrado pelo exemplo acima, e ela acaba tornando-se a própria necessidade, pois passa a ser a motivação que desperta a busca por informação.

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Os 10 mitos da informação (8)

8. Functional units of information, such as books or television programs, always fit the needs of individuals. Information systems as libraries or broadcasters define themselves in terms of their units of storage or production: in the case of the libraries, these are books, journals, audiovisual materials, or websites; in the case of the broadcasters, it is programs, ads, or public service announcements. But the “functional units” of the individual are not often these things; rather, they are responses, solutions, instructions, ideas, friendships, and so forth. Thus, client requests for help, action, or resources tend to be reinterpreted by institutions as information needs that can be fulfilled with the units that they provide: books, programs, and the like. The client cannot always effectively use these units of information.

O mito 8 define unidades funcionais de informação a partir de dois exemplos de sistemas de informações: bibliotecas e emissoras: no primeiro caso, essas unidades são livros, revistas, materiais audiovisuais ou sites, e no segundo, programas, propagandas e anúncios de serviços públicos.

Porém, essa informação pronta e lapidada nem sempre pode atender as necessidades do usuário, pois muitas vezes este busca respostas, soluções, instruções, ideias, amizades e assim por diante. Isso porque a busca por alguma resposta nem sempre será encontrada em fontes documentais, mas também em fontes pessoais, já que as respostas, soluções, instruções, ideias e, claro, amizades, podem ser conseguidas apenas através do contato humano, e não pela frieza de documentos impressos ou eletrônicos.

Neste caso, vale lembrar que a famosa entrevista com o usuário tem como objetivo identificar realmente sua necessidade de informação, pois se ele recorre à uma instituição, o que ela pode oficialmente lhe fornecer são as unidades funcionais de informação que oferece, sejam livros, revistas, propagandas, dentre outros. Porém, ressalta-se que essas unidades nem sempre são usadas de forma eficiente pelo usuário, o que pode ser provocado por vários aspectos, desde ele não saber exatamente o que quer até por alguma dificuldade de manuseio ou acesso à unidade funcional de informação.

 

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Os 10 mitos da informação (7)

7. It is always possible to make information available or accessible. Formal information systems are limited in what they can accomplish, at least where the vague, ambiguous, and constantly changing needs of the public concerned. People will continue to come up with their own unique, unpredictable questions without resorting to formal systems.

É interessante pensar nesse mito, haja vista que diante da quantidade absurda de informação que hoje está disponível, muito pouca pode ser acessada ou estar disponível para grupos muito extensos de usuários. Isso cabe desde informações que só podem ser encontradas na Deep Web até o segredo da fórmula da Coca-Cola. Tais situações envolvem confidencialidade, acesso restrito e outras expressões criadas para que apenas um seleto grupo tenha acesso a determinados tipos de informações.

O texto foi muito feliz em frisar que os sistemas de informação são limitados naquilo que podem fazer, pois como qualquer máquina, são criados para atender a necessidades específicas de grupos de usuários, e (ainda?) não possuem inteligência suficiente para trabalhar com questões vagas, ambiguidade e mudanças constantes das necessidades dos usuários.

Enquanto isso, as pessoas continuarão a apresentar questões únicas e imprevisíveis para esses sistemas, o que as levará a continuamente a reformulá-las a fim de que encontrem a resposta desejada. E é justamente esse o desafio que hoje se impõe aos usuários de sistemas de informações: explorá-los ao máximo para conseguir a resposta que procuram.

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Os 10 mitos da informação (6)

6. Every need situation has a solution. Institutions such as libraries, medical clinics, and social service agencies are focused on finding solutions to problems. To do so they attempt to map what the client says – the words they use – onto the resources and responses of their systems. But sometimes the client is looking for something – a reassurance, and understanding – that does not come in the shape of a canned response. Nevertheless, the system will usually provide an answer of some type, in its own language and logic, whether it is useful to the client or not.

As instituições procuram apresentar soluções para seus clientes a partir da informação que captam dos ambientes interno e externo. Asssim, elas é utilizada para melhorar os serviços e produtos oferecidos a fim de que possam servir melhor seus clientes, pois as mudanças não ocorreriam se não fossem pelas suas demandas.

O mapeamento as necessidades dos clientes, as instituições podem utilizar, dentre outras ferramentas, questionários, que permitirão verificar o que pode ser melhorado e em qual área. Esse processo é necessário para identificar pontos fortes e fracos e auxiliar na tomada de decisão das mudanças que devem ocorrer para a instituição continuar competitiva e relevante no seu setor. Na maioria dos casos, esse mapeamento é feito pelos recursos do próprio sistema da instituição.

Se por um lado o mapeamento via sistema facilita, posteriormente, o tratamento dos dados, por outro pode deixar a desejar no que se refere às respostas esperadas pelos clientes, haja vista que nem sempre eles esperam respostas “prontas”. Isso também é dificultado pelo fato dos sistemas gerarem respostas na sua própria linguagem e lógica, quer ser úteis ou não para os clientes. Por isso, é de extrema importância que qualquer sistema seja criado a partir das necessidades dos clientes, a fim de que atendam melhor suas necessidades. E, claro, que ele contemple o acesso à comunicação com outro ser humano, já que nem todas as demandas específicas podem ser contempladas em um sistema e respondidas pelo mesmo.

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