{"id":2726,"date":"2012-10-04T09:48:33","date_gmt":"2012-10-04T12:48:33","guid":{"rendered":"http:\/\/mundobibliotecario.wordpress.com\/?p=2726"},"modified":"2020-07-21T23:18:33","modified_gmt":"2020-07-22T02:18:33","slug":"o-memorialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2012\/10\/04\/o-memorialista\/","title":{"rendered":"O memorialista"},"content":{"rendered":"<p>As amizades e os livros de Edson Nery da Fonseca<\/p>\n<p>por <em>CAROL PIRES<\/em><\/p>\n<p>O carrilh\u00e3o mais sonoro de Olinda \u00e9 o da Bas\u00edlica de S\u00e3o Bento. Quando anuncia 18 horas, o bibliotec\u00e1rio Edson Nery da Fonseca pede licen\u00e7a e p\u00f5e-se a rezar \u2013 primeiro, o Angelus; depois, \u201cUbiquidade\u201d, um poema de Manuel Bandeira:<\/p>\n<p><em>Est\u00e1s em tudo que penso<\/em><\/p>\n<p><em>Est\u00e1s em quanto imagino: <\/em><\/p>\n<p><em>Est\u00e1s no horizonte imenso,<\/em><\/p>\n<p><em>Est\u00e1s no gr\u00e3o pequenino.<\/em><\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>Ele recita a ora\u00e7\u00e3o e o poema na mesma cad\u00eancia. \u201cQuando rezo esse poema, penso em Deus\u201d, emenda.<\/p>\n<p>O badalar dos sinos ecoa alto como se viesse da cozinha da casa de n\u00famero 90 na rua S\u00e3o Bento, a 21 metros da Bas\u00edlica, famosa tamb\u00e9m pelo seu altar-mor, de cedro e ouro, que j\u00e1 esteve exposto em 2001 no Museu Guggenheim, em Nova York. A proximidade \u00e9 intencional. Quando parou de trabalhar, h\u00e1 21 anos, Nery decidiu viver como oblato (leigo que serve \u00e0 comunidade religiosa) da Ordem Beneditina e comprou a casa mais pr\u00f3xima \u00e0 Bas\u00edlica que encontrou \u00e0 venda.<\/p>\n<p>Edson Nery da Fonseca \u00e9 um dos bibliotec\u00e1rios mais conceituados do pa\u00eds. \u00c9 tamb\u00e9m bibli\u00f3filo e \u201cbibli\u00f3sofo\u201d, como o chamava o amigo e intelectual Ant\u00f4nio Houaiss, para dizer que ele n\u00e3o s\u00f3 atua na profiss\u00e3o como tamb\u00e9m pensa sobre ela. Na casa de Nery, por\u00e9m, quase n\u00e3o h\u00e1 livros. Uma biografia do pensador renascentista franc\u00eas Michel de Montaigne repousa na estante, o segundo tomo da <em>Hist\u00f3ria de Ant\u00f4nio Vieira<\/em>, de Jo\u00e3o L\u00facio de Azevedo, est\u00e1 ao alcance da m\u00e3o, numa escrivaninha ao lado da poltrona de couro marrom da sala.<\/p>\n<p>No ch\u00e3o da casa est\u00e3o marcados os sinais das estantes que outrora ocupavam toda uma parede da sala, o corredor e parte da cozinha, nas quais Nery guardava 11 700 livros. Em 2001, ele vendeu a cole\u00e7\u00e3o ao empres\u00e1rio Ricardo Brennand. A biblioteca agora est\u00e1 em um castelo de estilo medieval na regi\u00e3o da V\u00e1rzea, no Recife. A fam\u00edlia Brennand \u00e9 tradicional em Pernambuco \u2013 seu integrante mais famoso \u00e9 Francisco Brennand, escultor e ceramista. O pai de Ricardo, Ant\u00f4nio, foi padrinho de Edson Nery e por isso ele teve prefer\u00eancia na compra da cole\u00e7\u00e3o. Levou primeiro os 595 volumes sobre o soci\u00f3logo Gilberto Freyre, de quem Nery foi amigo por 47 anos. Quando decidiu desfazer-se do restante, o bibliotec\u00e1rio separou as grandes cole\u00e7\u00f5es sobre Salvador Dal\u00ed, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, T. E. Law-rence, e estipulou um pre\u00e7o do qual n\u00e3o se recorda para cada uma. No restante do acervo contou 10 reais por exemplar. \u201cDeu uma fortuna e ele pagou sem questionar\u201d, diz. O Instituto Ricardo Brennand n\u00e3o divulga o valor pago.<\/p>\n<p>Edson Nery cresceu no Recife, na rua do Progresso, filho de um representante comercial e de uma dona de casa, pais de sete filhos \u2013 Ida, Edson, Amelinha, Jorge, Jos\u00e9, L\u00facia e Paulo. Apenas as duas irm\u00e3s mais novas est\u00e3o vivas. Com 90 anos completados em 6 de dezembro, Nery n\u00e3o consegue mais sustentar seu corpanzil de 1,89 metro sem apoio. S\u00e3o dois enfermeiros que se revezam de segunda a sexta-feira, um terceiro que o ajuda no fim de semana e uma cozinheira trabalhando na casa dele. A rua de paralelep\u00edpedo virou um desafio. Para a missa de domingo vai de carro at\u00e9 a igreja no final da rua e senta-se numa cadeira especial, acolchoada, na porta da sacristia. Sua rotina, h\u00e1 anos, \u00e9 receber a b\u00ean\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o Greg\u00f3rio no in\u00edcio da manh\u00e3, fazer fisioterapia, dormir a sesta, ler e acariciar a gata dileta, Daminha.<\/p>\n<p>Mais surpreendente que a casa de um bibliotec\u00e1rio sem livros \u00e9 a mem\u00f3ria prodigiosa de um <em>causeur <\/em>\u2013 e dos mais bem relacionados. A nenhuma hist\u00f3ria faltam datas, nomes de rua ou sobrenomes. Poucas vezes vacila ao recitar um poema e, ainda assim, horas depois ou no dia seguinte, ao incluir o mesmo poema em uma anedota, repete-o completo.<\/p>\n<p>Os casos mais fartos s\u00e3o sobre Gilberto Freyre, com quem fez amizade ainda jovem, ele aos 20 anos, Freyre aos 41. Depois de ler <em>Casa Grande <\/em><em>&amp;<\/em><em>Senzala <\/em>no curso pr\u00e9-jur\u00eddico do Col\u00e9gio Oswaldo Cruz, no Recife, Nery passou a frequentar todas as confer\u00eancias do autor. No ano seguinte, foi estudar no Gin\u00e1sio Pernambucano e tornou-se colega de classe de Gilberto Freyre Costa, sobrinho do soci\u00f3logo. \u201cEle, ao me conhecer, levou ao tio: \u2018Tenho um colega que, quando atacam seus livros, ele defende e ganha todas as discuss\u00f5es. Isso porque leu tudo e os outros n\u00e3o leram\u2019\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Gilberto Freyre pediu ao sobrinho que combinasse um jantar entre os tr\u00eas no Restaurante Leite, na pra\u00e7a Joaquim Nabuco, no Recife, o mais tradicional da cidade e um dos mais antigos do Brasil, de 1882. Do encontro, Nery guarda duas vergonhas. Aos 20 anos, nunca tinha ido a um restaurante e, quando o gar\u00e7om lhe perguntou se queria o fil\u00e9 bem ou malpassado, n\u00e3o fazia ideia do que significava aquilo. \u201cGilberto Freyre era muito generoso e, quando viu minha cara, se adiantou: ao ponto, n\u00e3o \u00e9 isso?\u201d A outra foi um ensaio que tinha escrito e entregou a Freyre sobre a poesia na obra dele. Era t\u00e3o ruim que nunca falaram no assunto. A amizade dos dois passou a incluir almo\u00e7o com cozido e cacha\u00e7a de pitanga toda quinta-feira em Apipucos, o bairro de Freyre. As \u00fanicas discord\u00e2ncias eram sobre Fernando Pessoa e Jorge Luis Borges (o soci\u00f3logo os achava superficiais).<\/p>\n<p>Freyre foi o segundo amigo ilustre de Edson Nery. O primeiro havia sido o cr\u00edtico liter\u00e1rio \u00c1lvaro Lins, seu professor de hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o no ginasial. No livro <em>Literatura e Vida Liter\u00e1ria: Di\u00e1rio e Confiss\u00f5es<\/em>, publicado em 1963 pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, \u00c1lvaro Lins anota um encontro com Nery: \u201cRecebo a visita de E. N. F. Ele tem 20 anos: est\u00e1 diante da vida liter\u00e1ria com a ansiedade e o deslumbramento dos que trazem uma verdadeira voca\u00e7\u00e3o. Vejo que j\u00e1 se acha na posse de uma orienta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, que j\u00e1 conhece o seu pr\u00f3prio caminho. Leio o seu primeiro artigo, que apresenta uma seguran\u00e7a e uma lucidez muito acima da sua idade.\u201d No p\u00e9 da p\u00e1gina, Lins observou: \u201cEdson Nery da Fonseca, ent\u00e3o jovem escritor; tornou-se a nossa maior compet\u00eancia e autoridade em biblioteconomia e bibliografia, presentemente, em sentido nacional e internacional.\u201d<\/p>\n<p>Entre o curso pr\u00e9-jur\u00eddico e o in\u00edcio da carreira de bibliotec\u00e1rio, Edson Nery pensou em tornar-se monge ap\u00f3s um retiro espiritual no Mosteiro de S\u00e3o Bento, o mesmo do qual hoje \u00e9 vizinho. Mas foi convocado a servir no 14\u00ba Regimento de Infantaria em 1943, quando o Brasil come\u00e7ava a organizar a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira que iria ao combate na Segunda Guerra. \u201cO Ex\u00e9rcito me ensinou a cuidar do meu corpo, que eu n\u00e3o cuidava. Aprendi a nadar na piscina do regimento, aprendi a jogar futebol,que no col\u00e9gio eu nunca joguei porque eu vivia em casa lendo. <em>Mens sana in corpore sano<\/em>\u201d, diz.<\/p>\n<p>Quando deixou o Ex\u00e9rcito, havia desistido do monast\u00e9rio e foi para o Rio de Janeiro estudar na Biblioteca Nacional, no primeiro curso superior de biblioteconomia no Brasil. Os primeiros anos no Rio somaram a Nery duas outras amizades de refer\u00eancia \u2013 o diretor da biblioteca, Rubens Borba de Moraes, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, e o cr\u00edtico Otto Maria Carpeaux, de quem foi estagi\u00e1rio na biblioteca da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas.<\/p>\n<p>Gilberto Freyre tamb\u00e9m foi morar na capital federal naquele mesmo 1946, eleito para a Assembleia Constituinte. O primeiro dos 135 ensaios que Nery escreveu sobre Gilberto Freyre (reunidos em <em>O Grande Sedutor: Escritos sobre Gilberto Freyre de 1945 at\u00e9 hoje<\/em>, publicado em 2011 pela editora Cassar\u00e1) foi sobre os bastidores da campanha. Pela manh\u00e3, Freyre pesquisava na se\u00e7\u00e3o de obras raras da Biblioteca Nacional e Nery estudava biblioteconomia. Juntos, caminhavam ao menos sete quadras depois do almo\u00e7o at\u00e9 a porta do Pal\u00e1cio Tiradentes, sede do Congresso Nacional e hoje da Assembleia Legislativa do Estado do Rio.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Freyre, filha de Gilberto, diz se lembrar dos amigos do pai como tio Bandeira, tio Gigante e tio Z\u00e9 Lins: o poeta Manuel Bandeira, Edson Nery, com seus olhos azuis e altura de gal\u00e3 de cinema, e Jos\u00e9 Lins do Rego, que S\u00f4nia considera ter sido o melhor amigo de seu pai entre os tr\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cSempre quando quero saber em qual livro est\u00e1 esse ou aquele trecho, ligo para Nery. Ele tem uma mem\u00f3ria prodigiosa\u201d, diz S\u00f4nia. Ela ressalva, no entanto, haver uma incongru\u00eancia nas mem\u00f3rias do bibliotec\u00e1rio. \u201cAgora ele deu para dizer que Gilberto foi apaixonado por uma mulher, [<em>a poeta<\/em>] Amy Lowell, e que foi aos Estados Unidos visitar o t\u00famulo dela. Mas papai era um esteta, jamais olharia para aquela mulher. N\u00e3o \u00e9 ciumeira n\u00e3o, que ele deve ter olhado para muita mulher, mas essa eu n\u00e3o engulo, n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A historiadora Maria L\u00facia Garcia Pallares-Burke, curadora da homenagem a Gilberto Freyre na Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty de 2010 e autora da biografia <em>Gilberto Freyre: Um Vitoriano dos Tr\u00f3picos<\/em>, confirma Edson Nery como o maior conhecedor da obra de Freyre \u2013 se a palavra conhecedor for tomada literalmente. \u201cPenso que n\u00e3o h\u00e1 exagero em dizer que ele conhece praticamente todos os livros, artigos, op\u00fasculos que Freyre escreveu, assim como muito do que foi escrito sobre sua obra\u201d, afirma Maria L\u00facia. Ela cita o livro <em>Gilberto Freyre de A a Z<\/em>,de Nery, como uma amostra do conhecimento enciclop\u00e9dico do autor. Na cole\u00e7\u00e3o vendida em 2001 a Ricardo Brennand, 72 t\u00edtulos tinham Nery como autor, organizador, introdutor ou prefaciador.<\/p>\n<p>Quando a palavra \u201cconhecedor\u201d for entendida no sentido de cr\u00edtico da obra de Freyre, Maria L\u00facia afirma que essa pessoa n\u00e3o existe: \u201cA abordagem h\u00edbrida e interdisciplinar com que Freyre estudou a sociedade brasileira \u2013em que campos variados como literatura, antropologia, sociologia, hist\u00f3ria e psicologia t\u00eam, todos eles, o seu papel \u2013 explica tanto a riqueza da obra freyriana como a dificuldade de estud\u00e1-la como um todo.\u201d Um dos cr\u00e9ditos que ela d\u00e1 a Nery \u00e9 ter chamado aten\u00e7\u00e3o para os aspectos liter\u00e1rios e estil\u00edsticos dos quais Freyre tanto se orgulhava, inclusive manifestando irrita\u00e7\u00e3o com quem o reconheciaapenas como soci\u00f3logo e historiador,e n\u00e3o como escritor.<\/p>\n<p>De todos os escritores e poetas que Nery conheceu \u2013 Cec\u00edlia Meireles, Cassiano Nunes, Carlos Drummond de Andrade, Jo\u00e3o Cabral, Guimar\u00e3es Rosa \u2013, a quem mais se devotou foi Manuel Bandeira. \u201cNery tinha devo\u00e7\u00e3o ao Bandeira, era muito insistente com isso e sabia seus versos de cor. Bandeira me contou como tinha escrito a \u2018\u00daltima can\u00e7\u00e3o do beco\u2019e eu contei a Nery. Ele ficava fascinado por essas hist\u00f3rias. Disput\u00e1-vamos quem sabia todos os versos. Disputar \u00e9 modo de dizer. Ele ficava animado em citar os versos de que eu n\u00e3o me lembrava\u201d, diz o poeta amazonense Thiago de Mello, 86 anos, amigo da mesma turma.<\/p>\n<p>Para chegar a Bandeira, Nery pediu que Freyre lhe escrevesse uma carta de apresenta\u00e7\u00e3o. Com ela, bateu \u00e0 porta do poeta pernambucano, na avenida Beira-Mar, no Rio. Geralmente quando narra uma mem\u00f3ria, Nery a intercala com um poema que comp\u00f5e o cen\u00e1rio ou que foi escrito por causa da ocasi\u00e3o. Ele se lembra do apartamento de Bandeira com vista para o p\u00e1tio interno do edif\u00edcio e isso o leva a entoar:<\/p>\n<p><em>Vi ontem um bicho<\/em><\/p>\n<p><em>Na imundice do p\u00e1tio<\/em><\/p>\n<p><em>Catando comida entre os detritos.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando achava alguma coisa;<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o examinava nem cheirava:<\/em><\/p>\n<p><em>Engolia com voracidade.<\/em><\/p>\n<p><em>O bicho n\u00e3o era um c\u00e3o,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o era um gato,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o era um rato&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Nery esbugalha os olhos e, com o peito cheio de ar e entona\u00e7\u00e3o teatral, arremata em exclama\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>O bicho, meu Deus, era um homem!!!<\/em><\/p>\n<p>Nery escreveu uma reportagem sobre a casa da rua da Uni\u00e3o, no Recife, onde as vizinhas lhe contaram hist\u00f3rias sobre o beb\u00ea Bandeira; editou v\u00e1rias colet\u00e2neas sobre o poeta e reuniu as mem\u00f3rias no livro <em>Alumbramentos e Perplexidades<\/em>, publicado pela Carpe Diem. O livro tem fac-s\u00edmiles de cartas trocadas pelos dois e hist\u00f3rias que, tal qual sua prosa oral, se entremeiam com poemas de Bandeira. Nery e o jornalista Zuenir Ventura falaram sobre a amizade com Bandeira na Flip de 2009, em homenagem ao poeta. Em 2010, com a sa\u00fade melhor do que hoje, mas j\u00e1 em cadeira de rodas, Nery voltou a Paraty para contar hist\u00f3rias do homenageado Gilberto Freyre.<\/p>\n<p>O bibliotec\u00e1rio desata uma infinidade de inconfid\u00eancias sobre os amigos ilustres. \u201cDiziam que Gilberto Freyre era filho de Est\u00e1cio Coimbra, e n\u00e3o do doutor Alfredo Freyre. Uma vez, eu estava sozinho com ele e perguntei: \u2018Gilberto, \u00e9 verdade que voc\u00ea \u00e9 filho do pol\u00edtico Est\u00e1cio Coimbra?\u2019 Gilberto respondeu: \u2018\u00c9 o que dizem&#8230;\u2019\u201d, conta Nery. \u201cEle tinha um grande senso de humor.\u201d<\/p>\n<p>Algumas fofocas fariam corar os monges do Mosteiro de S\u00e3o Bento, como a de que os poemas religiosos de Carlos Drummond de Andrade foram escritos depois que o itabirano recuperou a f\u00e9 da mocidade atrav\u00e9s da paix\u00e3o t\u00f3rrida que viveu com Lygia Fernandes.<\/p>\n<p>As inconfid\u00eancias, por\u00e9m, param na porta de casa. Ainda que conte no livro <em>V\u00e3o-se os Dias e Eu Fico <\/em>(Ateli\u00ea Editorial), publicado em 2009, que n\u00e3o se casou por ser homossexual, ele n\u00e3o revela seus namorados. Assente que Gilberto Freyre lhe confidenciou experi\u00eancias homossexuais, mas garante que ambos foram apenas amigos. \u201cNunca gostei de homens mais velhos\u201d, diz. Na parede da sala dele h\u00e1 um desenho de um homem jovem em preto e branco. Ele confirma que foi um dos seus namorados, mas n\u00e3o diz o nome, s\u00f3 que hoje \u00e9 padrinho do filho desse antigo <em>affair<\/em>.<\/p>\n<p>Edson Nery \u00e9 considerado por alguns o papa da biblioteconomia no Brasil, entre outros motivos por ter ajudado a montar dois cursos universit\u00e1rios da especialidade \u2013 no Recife e em Bras\u00edlia \u2013, por ser autor de livros essenciais na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica dos bibliotec\u00e1rios, por ser um defensor da moderniza\u00e7\u00e3o das bibli-o&#8211;tecas e por nunca ter poupado biblio-tecas e colegas de profiss\u00e3o de coment\u00e1rios amargos.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a alinhavar sua hist\u00f3ria com a da biblioteconomia moderna no Brasil em 1948, quando voltou a Pernambuco e reformou a biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade do Recife. Sua primeira atitude ao chegar foi pedir ao diretor que mandasse embora todos os funcion\u00e1rios que n\u00e3o tinham dado certo em outros setores e estavam encostados ali. \u201cPedi para realocarem um l\u00e1 que passava o dia tomando sol no jardim. Depois ele voltou um dia e me disse, armado e b\u00eabado: \u2018Vim aqui para tirar sua vida.\u2019 Fiquei apavorado, mas consegui fugir. Fui ao diretor da faculdade dizer: \u2018Olha, voc\u00eas demitiram o homem e agora estou sendo amea\u00e7ado de morte.\u2019 O diretor me disse: \u2018Ah, Edson, me desculpe, ele realmente tinha cara de assassino\u2019\u201d, diverte-se.<\/p>\n<p>Em artigo publicado \u00e0 \u00e9poca na revista <em>O Cruzeiro<\/em>, Gilberto Freyre disse dar gosto entrar na biblioteca reformada por Nery: \u201cOs livros parecem chegar \u00e0s m\u00e3os dos estudiosos com uma alegria de livros que nasceram para serem lidos e n\u00e3o para serem guardados em estantes sepulcrais.\u201d O trabalho no Recife azedou porque Nery publicou no <em>Di\u00e1rio de Pernambuco<\/em>, onde escrevia semanalmente, v\u00e1rias cr\u00edticas \u00e0 ideia do governo de construir um pomposo edif\u00edcio para a biblioteca p\u00fablica. Foi demitido uma semana depois.<\/p>\n<p>Ao deixar a universidade, Nery peregrinou por v\u00e1rios empregos. Inspecionou as bibliotecas p\u00fablicas de Alagoas pelo Instituto Nacional do Livro, foi aos Estados Unidos trabalhar na biblioteca da Uni\u00e3o Pan-Americana, passou pela biblioteca p\u00fablica de Jo\u00e3o Pessoa, mas voltou ao Rio de Janeiro quando percebeu que n\u00e3o conseguiria mudar \u201co ar bolorento dos livros e do diretor\u201d. Achou um rumo quando, em 1956, passou em segundo lugar no concurso p\u00fablico para a Biblioteca da C\u00e2mara dos Deputados, ainda na antiga capital federal.<\/p>\n<p>Na C\u00e2mara, publicava um boletim com a bibliografia dos presidentes, lista de novas aquisi\u00e7\u00f5es e resenhas escritas por deputados. Ficou amigo de Luiz Viana Filho (que viria a ser presidente do Senado e dar nome \u00e0 biblioteca da Casa, que reformou e \u00e0 qual doou sua cole\u00e7\u00e3o privada) e de Pedro Aleixo, que hoje d\u00e1 nome \u00e0 biblioteca da C\u00e2mara por ter sido ass\u00edduo frequentador. Ambos apoiaram o golpe de 1964, assim como Carlos Lacerda, que Nery tamb\u00e9m conheceu. O bibliotec\u00e1rio guarda a lembran\u00e7a de ter ajudado o deputado da UDN a montar sua defesa em um processo de cassa\u00e7\u00e3o que sofreu em 1957 (e da qual escapou pelo voto majorit\u00e1rio do plen\u00e1rio), ao ser acusado de veicular o c\u00f3digo secreto do Itamaraty. \u201c\u00c9ramos todos lacerdistas. Ele era admir\u00e1vel, pela combatividade, pela intelig\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Quando Bras\u00edlia come\u00e7ou a ser constru\u00edda, os intelectuais Ant\u00f4nio Houaiss e Francisco de Assis Barbosa foram convocados pelo ent\u00e3o presidente Juscelino Kubitschek para montar a biblioteca do Pal\u00e1cio da Alvorada, a resid\u00eancia oficial do presidente. Coube a Edson Nery comprar, tombar e catalogar os livros, num espa\u00e7o improvisado da Livraria S\u00e3o Jos\u00e9, no Rio. Elegeu livros sobre o Brasil, literatura mundial, obras de refer\u00eancia (dicion\u00e1rios e enciclop\u00e9dias) e uma cole\u00e7\u00e3o que estava na moda na \u00e9poca, com t\u00edtulos de Gilberto Freyre a padre Ant\u00f4nio Vieira, de Marcel Proust a Jorge Luis Borges, al\u00e9m dos grandes da literatura brasileira.<\/p>\n<p>Em 1959, Nery foi duas vezes a Bras\u00edlia montar a biblioteca, que tem 3 406 livros e \u00e9 decorada com tape\u00e7aria de Di Cavalcanti e mapas da Am\u00e9rica do Sul da primeira metade do s\u00e9culo xvii. Numa delas, encontrou Oscar Niemeyer e perguntou a ele onde estavam as escadas para dar alcance aos livros mais altos. O arquiteto respondeu: \u201cEscadas s\u00e3o feias, e, al\u00e9m do mais, aqui n\u00e3o \u00e9 para ningu\u00e9m ler, \u00e9 apenas decorativo.\u201d<\/p>\n<p>No ano seguinte, \u00e0 revelia, Nery e toda a burocracia pol\u00edtica mudaram-se para Bras\u00edlia. Um dia estava em casa quando recebeu um telefonema da Presid\u00eancia para que fosse ao Alvorada falar com a filha do presidente, M\u00e1rcia Kubitschek: \u201cFui de lambreta. Chegando l\u00e1, ela perguntou se era tecnicamente correto n\u00e3o ter escadas. \u00c9 por causa dela que hoje h\u00e1 duas escadas l\u00e1.\u201d Ele conta que, na Presid\u00eancia do marechal Castello Branco, foi procurado pelo amigo Viana Filho, ent\u00e3o ministro-chefe da Casa Civil, para atualizar o acervo. \u201cFiz uma lista, mas n\u00e3o sei se foram comprados. Capaz que tenham sido, o Castello Branco gostava de ler, n\u00e3o era um burr\u00e3o como o Costa e Silva.\u201d<\/p>\n<p>No rol de cr\u00edticas de Nery aos pol\u00edticos est\u00e1 a de que, tal qual previu Niemeyer, os livros ali s\u00e3o s\u00f3 decorativos. O ex-presidente Jos\u00e9 Sarney, no entanto, nega. \u201cDizem que os presidentes n\u00e3o leem os livros, mas eu lia. Ali est\u00e3o guardadas raridades, est\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 um original de Barleus, de 1647\u201d, disse. [Gaspar Barleus foi autor de um relato famoso sobre o dom\u00ednio holand\u00eas no Nordeste.] Para Nery, pode ser que a presidente Dilma Rousseff use a biblioteca: \u201cSe bem que n\u00e3o sei, porque ela \u00e9 mais t\u00e9cnica do que culta.\u201d Notinhas na imprensa d\u00e3o conta de que o lugar \u00e9 o predileto de Dilma no Alvorada, e que ela sempre leva os convidados para conhecerem os livros.<\/p>\n<p>\u201cO Fernando Henrique deve ter usado, ele \u00e9 um homem culto\u201d, continua Nery. \u201cO Lula, n\u00e3o. Dizem que o Lula uma vez sofreu um atentado. Sabe como? Jogaram um livro no carro dele.\u201d O bibliotec\u00e1rio presume que a cole\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de n\u00e3o estar atualizada, pode estar desfalcada. \u201cUm funcion\u00e1rio me disse uma vez: est\u00e3o roubando os livros todos l\u00e1, a\u00ed eu roubei uns tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Sarney se lembrou de conhecer Nery desde os tempos em que o pernambucano era cr\u00edtico liter\u00e1rio no Recife, nos anos 40, e o elogia como um grande bibliotec\u00e1rio. O ex-presidente o contratou duas vezes: uma para organizar o acervo privado dos presidentes da Rep\u00fablica, durante seu governo, e depois para organizar o acervo bibliogr\u00e1fico dele na Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Sarney, em S\u00e3o Lu\u00eds. \u201cO Sarney me considerava muito, mas como pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 bom, \u00e9 um homem que bota a fam\u00edlia toda para trabalhar. Literariamente \u00e9 fraco\u201d, diz Nery. \u201cSou daqueles que <em>si hay gobierno, soy contra<\/em>. Se voc\u00ea n\u00e3o critica, eles n\u00e3o melhoram.\u201d<\/p>\n<p>A apenas dois pol\u00edticos ele se permitiu elogios. \u201cGosto do Aldo Rebelo, \u00e9 um grande admirador do Gilberto Freyre, apesar de ser do PCdoB. Os comunistas n\u00e3o gostam de Freyre.\u201d De Pedro Simon tamb\u00e9m diz gostar, mas pondera que \u00e9 \u201cmeio doido\u201d. Quando pergunto o porqu\u00ea, ele entoa em tom de cavalgada um poema de Ascenso Ferreira:<\/p>\n<p><em>Riscando os cavalos!<\/em><\/p>\n<p><em>Tinindo as esporas!<\/em><\/p>\n<p><em>Trav\u00e9s das cochilhas!<\/em><\/p>\n<p><em>Sai de meus pagos em louca arrancada!<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Para qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Pra nada!<\/em><\/p>\n<p>\u201cAssim \u00e9 o ga\u00facho. Para que tudo isso? Para nada\u201d, diz sorrindo.<\/p>\n<p>Como tinha servido ao Ex\u00e9rcito durante a Segunda Guerra e trabalhado em Bras\u00edlia nos primeiros anos da cidade, antigos c\u00e1lculos da Previd\u00eancia permitiram a Nery se aposentar em 1964, aos 43 anos. Passou a trabalhar o dia todo na Universidade de Bras\u00edlia, a UnB, onde j\u00e1 dava meio expediente havia dois anos. Hoje recebe aposentadoria de 25 mil reais da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Quando a UnB come\u00e7ou a funcionar, em 1962, o antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro era ministro da Educa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart e telefonou a Nery convidando-o para dar aulas de metodologia cient\u00edfica. \u201cNesse tempo havia um clamor por uma biblioteca, ent\u00e3o Darcy me telefonou e disse: \u2018Organize uma, r\u00e1pido.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Nery come\u00e7ou a montar a biblioteca comprando cole\u00e7\u00f5es privadas de vi\u00favas. As primeiras foram de Homero Pires (\u201cum intelectual devoto de Rui Barbosa, como todo baiano, que tinha mais coisa de Rui Barbosa que a pr\u00f3pria Casa de Rui Barbosa\u201d), Pedro de Almeida Moura (\u201cum paulista professor de filosofia, que tinha toda a literatura grega e romana\u201d), Agripino Grieco (\u201cmorava no M\u00e9ier, fui com os filhos diplomatas ver a biblioteca e encontrei ali todas as literaturas do mundo\u201d) e Carlos Lacerda (\u201cimpressionante, ficava numa casa em Petr\u00f3polis\u201d).<\/p>\n<p>\u201cPerguntei para o Darcy Ribeiro qual era o teto, e ele me disse: \u2018N\u00e3o tem teto, compre o que quiser.\u2019 Depois ele sofreu v\u00e1rios processos porque tinha tirado dinheiro de tudo quanto \u00e9 lugar da Novacap para pagar os livros da biblioteca. Darcy era fant\u00e1stico\u201d, diz. Na UnB, Nery formatou o curso de biblioteconomia, depois chamado Departamento de Ci\u00eancia da Informa\u00e7\u00e3o, e deixou pronta a Biblioteca Central.<\/p>\n<p>Enquanto Nery era professor, sob a reitoria de An\u00edsio Teixeira, o embaixador americano visitou a UnB para a entrega de 4 mil livros que hoje formam a J. F. Kennedy Memorial Collection. No dia da cerim\u00f4nia, Nery elogiou Kennedy e foi vaiado. \u201cQuando eles come\u00e7aram a vaiar, eu disse: \u2018Burros s\u00f3 sabem zurrar.\u2019 Foi uma briga s\u00f3, os estudantes come\u00e7am a atirar livros na comitiva, derrubaram as mulheres dos diplomatas jogando enciclop\u00e9dias nelas. A pol\u00edcia chegou e prendeu todo mundo que n\u00e3o estava de terno, inclusive os professores. A\u00ed espalharam que eu estava do lado dos americanos e que iam me dar uma surra. Para voc\u00ea ver que ambiente de biblioteca n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o tranquilo assim.\u201d<\/p>\n<p>Em <em>Ler o Mundo <\/em>(Editora Global), Affonso Romano de Sant\u2019Anna conta que, quando cobrou de Lucio Costa o fato de n\u00e3o haver projeto para biblioteca p\u00fablica na planta original de Bras\u00edlia, ouviu do urbanista a afirmativa de que esse neg\u00f3cio de biblioteca p\u00fablica nunca deu certo no Brasil, o que Nery lamenta. \u201cEstou triste com as bibliotecas p\u00fablicas. As especializadas andam muito bem, a da Embrapa \u00e9 muito boa, mas biblioteca para o p\u00fablico em geral&#8230; Deveria existir uma em cada quadra. A biblioteca tem que fazer propaganda como as lojas, para atrair leitores.\u201d<\/p>\n<p>Um censo encomendado \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas pelo Minist\u00e9rio da Cultura em 2010 apontou que 21% dos munic\u00edpios brasileiros n\u00e3o tinham nem uma biblioteca sequer. Das existentes, apenas 45% tinham acesso \u00e0 internet.<\/p>\n<p>Alvos de cr\u00edtica de Nery s\u00e3o os bibliotec\u00e1rios que impedem a moderniza\u00e7\u00e3o de bibliotecas achando que a informatiza\u00e7\u00e3o acabar\u00e1 com o valor do livro. Ele cita o poeta franc\u00eas St\u00e9phane Mallarm\u00e9 \u2013 \u201cTudo o que no mundo existe come\u00e7a e acaba em livro\u201d \u2013 para dizer que, por consequ\u00eancia, tudo come\u00e7a e termina em biblioteca. \u201cChamo as bibliotec\u00e1rias de ignorantes gerais especializadas em biblioteconomia. Acham que ser bibliotec\u00e1ria \u00e9 saber catalogar livros\u201d, diz, ao contar absurdos que j\u00e1 viu, como <em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, de S\u00e9rgio Buarque de Holanda, catalogado em bot\u00e2nica e <em>Sobrados e Mucambos<\/em>, de Gilberto Freyre, em arquitetura.<\/p>\n<p>Hoje, al\u00e9m da biblioteca da UnB, Nery aprova as bibliotecas nacionais do Rio e de Bras\u00edlia \u2013 esta \u00faltima, na verdade, n\u00e3o deu t\u00e3o certo assim. Criada por decreto em 1962, desenhada por Niemeyer nos anos 80, constru\u00edda em 2004 e enfim inaugurada em dezembro de 2008, a bibliotecanunca abriu o acervo \u00e0 consulta porque nunca se terminou de catalog\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Antonio Miranda, ex-diretor da Biblioteca Nacional de Bras\u00edlia, \u00e9 amigo de Nery e lhe dedicou um poema que diz: \u201cNa cadeira de balan\u00e7o, com um gato\/ no colo, mais bem seria um livro,\/ um ter\u00e7o, uma fruta, uma caixa.\/ Est\u00e1 lendo Bandeira, talvez Oscar Wilde,\/ Relendo Gilberto Freyre \u2013 ou seria Mallarm\u00e9? [\u2026]\u201d Miranda diz nunca ter conseguido da Secretaria de Cultura do Distrito Federal um sistema de seguran\u00e7a e um software definitivo para abrir o acervo ao p\u00fablico. Mesmo assim, a BNB est\u00e1 sempre cheia porque oferece computadores com acesso \u00e0 internet sem fio. \u201cAs pessoas querem um lugar para estudar, com as condi\u00e7\u00f5es de rede, e, tamb\u00e9m, acervo. Da\u00ed o conceito de biblioteca h\u00edbrida, oferecer acervo e acesso\u201d, diz Miranda.<\/p>\n<p>Dos tempos de Bras\u00edlia, Nery n\u00e3o guarda boas mem\u00f3rias de fora das bibliotecas onde trabalhou. \u201cOs primeiros anos foram muito dif\u00edceis, Bras\u00edlia era s\u00f3 poeira e solid\u00e3o. Eu dizia meu endere\u00e7o assim: 707 sul, bloco G, t\u00famulo 29.\u201d Andava pela cidade de lambreta, frequentava a casa de Luiz Viana Filho e do poeta Cassiano Nunes. Quando se aposentou da UnB, Nery n\u00e3o encontrou motivos para ficar em Bras\u00edlia nem para atrelar-se a outra institui\u00e7\u00e3o. Ele havia sido convidado por Freyre para ser diretor-executivo da Funda\u00e7\u00e3o Gilberto Freyre, mas, quando a funda\u00e7\u00e3o passou a funcionar, o amigo j\u00e1 havia morrido. Nery desentendeu-se com Fernando Freyre, filho de Gilberto e seu afilhado de crisma, e renunciou ao cargo. Participar de alguma academia de letras tamb\u00e9m n\u00e3o foi uma op\u00e7\u00e3o. Ele diz que n\u00e3o pode pisar na de Pernambuco porque certa vez disse que l\u00e1 s\u00f3 h\u00e1 med\u00edocres. \u201cA Academia Brasileira de Letras tem dez que se salvam, o Alberto Venancio Filho \u00e9 pouco conhecido, mas \u00e9 bom. Mas Merval Pereira \u2013 que coisa, n\u00e9?\u201d, diz, e franze o cenho.<\/p>\n<p>Voltou ao Recife levando treze gatos de Bras\u00edlia. At\u00e9 o ano passado, eram trinta na casa da rua S\u00e3o Bento. Os empregados dizem que j\u00e1 houve 48. No ano passado, ficou dois meses internado no Real Hospital Portugu\u00eas com pneumonia e, quando voltou, s\u00f3 encontrou seus cinco gatos favoritos \u2013 Daminha, Rosinha, Chiquinha, Princesa e Fernando. Os outros foram doados pela sobrinha.<\/p>\n<p>Os gatos tamb\u00e9m est\u00e3o nas paredes, em quadros, pesos de papel, est\u00e1tuas, chaveiros e bibel\u00f4s de toda sorte. Marcelo, um dos funcion\u00e1rios, diz que j\u00e1 somou 1 800 enfeites de gato at\u00e9 perder a paci\u00eancia e abandonar a conta. \u201cGosto de gato por dois motivos, um sentimental e outro pr\u00e1tico. Minha m\u00e3e gostava de gatos e ela morreu muito jovem, com 52 anos. Dias depois a gata dela, Catuxa, morreu de desgosto. Achei muito leal.\u201d O segundo foi porque nos seus anos de Bras\u00edlia s\u00f3 moravam ratos \u2013 \u201canimais e humanos\u201d \u2013 e, para matar os bichos, comprou o primeiro gato, que deu fim \u00e0 peste e passou a lhe fazer companhia.<\/p>\n<p>Daminha passa o dia no colo de Nery, enquanto os outros bichos descansam no p\u00e1tio dos fundos. Apenas quando o dono pede comida \u2013 recebe geleia, torradas e caf\u00e9 com leite \u2013, Princesa se aproxima para cheirar o prato. Nery pede que lhe tragam queijo e d\u00e1 \u00e0 gatinha. Ele muda de express\u00e3o quando n\u00e3o est\u00e1 contando uma hist\u00f3ria. Mais do que um \u201cgilbert\u00f3logo\u201d, bibliotec\u00e1rio ou ensa\u00edsta, Edson Nery da Fonseca \u00e9 um grande memorialista e ganha um ar jovial ao relembrar um caso. Quando n\u00e3o \u00e9 instigado a recordar o passado, recosta-se desanimado, reclama da velhice, dos amigos mortos, da pouca mobilidade e fala da espera da morte com uma franqueza perturbadora.<\/p>\n<p>Pedi-lhe que recitasse o poema com o qual mais se identifica e ele recitou <em>Testamento<\/em>, de Manuel Bandeira, que de fato se parece com ele ao falar dos dinheiros que perdeu, do filho que n\u00e3o teve, da sa\u00fade que se foi. Depois chamou Marcelo para passar uma pomada em um princ\u00edpio de dermatite na testa. O ajudante veio, espalhou o rem\u00e9dio, segurou o rosto de Nery com as duas m\u00e3os e disse: \u201cEle tem a cabe\u00e7a pequena assim, mas aqui dentro tem uma biblioteca.\u201d<\/p>\n<p>DIspon\u00edvel em: &lt;http:\/\/revistapiaui.estadao.com.br\/edicao-72\/figuras-das-letras\/o-memorialista&gt;. Acesso em: 4 out. 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As amizades e os livros de Edson Nery da Fonseca por CAROL PIRES O carrilh\u00e3o mais sonoro de Olinda \u00e9 o da Bas\u00edlica de S\u00e3o Bento. Quando anuncia 18 horas, o bibliotec\u00e1rio Edson Nery da Fonseca pede licen\u00e7a e p\u00f5e-se a rezar \u2013 primeiro, o Angelus; depois, \u201cUbiquidade\u201d, um poema de Manuel Bandeira: Est\u00e1s em &#8230; <a title=\"O memorialista\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2012\/10\/04\/o-memorialista\/\" aria-label=\"Read more about O memorialista\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_jetpack_newsletter_access":"","footnotes":""},"categories":[60],"tags":[495],"class_list":["post-2726","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-edson-nery-da-fonseca"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":3514,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2014\/06\/23\/morre-em-olinda-o-pesquisador-edson-nery-da-fonseca\/","url_meta":{"origin":2726,"position":0},"title":"Morre em Olinda o pesquisador Edson Nery da Fonseca","author":"mundobibliotecario","date":"23\/06\/2014","format":false,"excerpt":"\u00c9 com pesar que publico a not\u00edcia abaixo. *** Bibliotec\u00e1rio e professor universit\u00e1rio era especialista na obra de Gilberto Freyre Publica\u00e7\u00e3o:\u00a022\/06\/2014 12:36\u00a0Atualiza\u00e7\u00e3o:\u00a022\/06\/2014 16:42 Foto: Juliana Leitao\/DP\/DAPress Morreu, aos 92 anos, por volta das 8h da manh\u00e3 deste domingo (22), o pesquisador e professor pernambucano Edson Nery da Fonseca, uma refer\u00eancia\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":1015,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2009\/12\/16\/polemica-e-biblioteconomia-espelham-obra-de-edson-nery-da-fonseca\/","url_meta":{"origin":2726,"position":1},"title":"Pol\u00eamica e biblioteconomia espelham obra de Edson Nery da Fonseca","author":"mundobibliotecario","date":"16\/12\/2009","format":false,"excerpt":"29\/06\/2009 -19h47 TERESA CHAVES Colabora\u00e7\u00e3o para a Folha Online Um pernambucano biblioteconomista, que quase foi militar, monge, e que hoje \u00e9 considerado um dos maiores especialistas do Brasil na obra do soci\u00f3logo Gilberto Freyre (1900-1987), o autor de \"Casa Grande & Senzala\", um dos livros mais importantes da historiografia brasileira.\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":4995,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2018\/08\/29\/fala-bibliotecaria-10-classicos-de-biblioteconomia-por-gabriela-pedrao\/","url_meta":{"origin":2726,"position":2},"title":"Fala, Bibliotec\u00e1ria: 10 cl\u00e1ssicos de Biblioteconomia! 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Como se conduzir para\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Eventos&quot;","block_context":{"text":"Eventos","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/eventos\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]}],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pcbzwa-HY","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2726"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6063,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2726\/revisions\/6063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}