{"id":3322,"date":"2013-11-26T22:36:00","date_gmt":"2013-11-27T01:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/mundobibliotecario.wordpress.com\/?p=3322"},"modified":"2020-07-21T23:23:14","modified_gmt":"2020-07-22T02:23:14","slug":"dita-kraus-a-bibliotecaria-de-auschwitz-fala-com-exclusividade-ao-jornal-opcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2013\/11\/26\/dita-kraus-a-bibliotecaria-de-auschwitz-fala-com-exclusividade-ao-jornal-opcao\/","title":{"rendered":"Dita Kraus, a bibliotec\u00e1ria de Auschwitz, fala com exclusividade ao Jornal Op\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div>N\u00e3o sei como ser\u00e1 a leitura para voc\u00eas, mas me senti &#8220;pesado&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>***<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>No campo de exterm\u00ednio mais letal do regime nazista de Hitler, Dita Kraus, de 14 anos, era a bibliotec\u00e1ria de oito livros que Freddy Hirsch reuniu para cerca de 500 crian\u00e7as. Nascida na Tchecoslov\u00e1quia, ela tem 84 anos e mora em Israel. Lamenta o horror do Holocausto e n\u00e3o se sente culpada por estar viva<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>Herbert Moraes<\/strong><\/p>\n<p><strong>De Tel Aviv, Israel<\/strong><\/p>\n<p>O livro \u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d, do escritor espanhol Antonio Iturbe, \u00e9 best seller na Europa, notadamente na Espanha e na Alemanha. Trata-se de um romance baseado numa hist\u00f3ria real. Dita Kraus, uma adolescente de 14 anos, foi enviada com os pais do gueto de Terezin para o campo de exterm\u00ednio de Auschwitz, na Pol\u00f4nia. Ficou no campo de 1944 a 1945, quando foi enviada para a Alemanha, que desistiu de mat\u00e1-las (Dita e sua m\u00e3e), e a outros judeus, porque precisava de m\u00e3o de obra escrava. O pai morreu em Auschwitz, ao lado de Treblinka, um dos campos mais letais do regime nazista de Adolf Hitler, Heinrich Himmler, G\u00f6ring e, entre outros, Adolf Eichmann. Num pavilh\u00e3o do campo (o bloco 31), os judeus formaram uma biblioteca de poucos livros \u2014 Iturbe menciona oito, mas eram um pouco mais \u2014 e Dita Kraus foi escolhida para ser sua guardi\u00e3. Quase 70 anos depois, a sobrevivente Dita Kraus, de 84 anos, mora em Israel. Ela \u00e9 vi\u00fava do escritor Otto Kraus, autor de \u201cThe Painted Wall\u201d (\u201cA Parede Pintada\u201d), livro que discute Auschwitz (mais ou menos na linhagem de \u201c\u00c9 Isto um Homem?\u201d, do escritor italiano Primo Levi, tamb\u00e9m prisioneiro e sobrevivente de Auschwitz). No campo, ao lado do mestre e instrutor Freddy Hirsch, Otto Kraus entretinha e instru\u00eda os meninos, numa esp\u00e9cie de escola volante. Com o fim da guerra, Dita e Otto Kraus foram para Praga e l\u00e1 ficaram at\u00e9 1949. Dado o autoritarismo do regime comunista, decidiram seguir para Israel. Dita Kraus nasceu em Praga, na Tchecoslov\u00e1quia, e visita a Rep\u00fablica Tcheca todos os anos. Ela fala tcheco.<\/p>\n<p>Quando li a not\u00edcia da publica\u00e7\u00e3o do livro, e informado de que Dita Kraus morava em Israel, decidi procur\u00e1-la. Encontr\u00e1-la n\u00e3o foi dif\u00edcil. O nome da bibliotec\u00e1ria de Auschwitz est\u00e1 na lista de sobreviventes do Holocausto do Yad Vashem (Museu do Holocausto), em Jerusal\u00e9m. Complicado mesmo foi convenc\u00ea-la a conceder uma entrevista. Dita Kraus n\u00e3o \u00e9 reclusa, mas \u00e9 reservada. Acha que j\u00e1 contou o que tinha para revelar. Quando cheguei \u00e0 sua casa, ela, num primeiro instante, demonstrou frieza e distanciamento. Mas aos poucos, quando come\u00e7amos a falar de literatura e do marido que j\u00e1 morreu, foi se soltando. No final da entrevista, est\u00e1vamos os dois sentados no ch\u00e3o, enquanto ela me mostrava fotos e documentos de Auschwitz.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi a primeira vez que entrevistei um sobrevivente do Holocausto. Como moro em Israel h\u00e1 oito anos, todos os anos entrevisto alguns deles. Segundo o governo de Israel, como est\u00e3o com idade avan\u00e7ada, pelo menos mil sobreviventes morrem a cada m\u00eas (h\u00e1 cerca de 250 mil sobreviventes). \u00c9 uma corrida contra o tempo se um jornalista ou estudioso estiver interessado em interagir com essas pessoas. Mas a entrevista com Dita Kraus foi especial. Por ter sido professora, e ainda estar com a mem\u00f3ria \u00f3tima, conversar com ela \u00e9 como entrar num t\u00fanel do tempo. Dita Kraus consegue levar, quem escuta suas hist\u00f3rias, de volta aos horrores que viveu e sobreviveu, e que a deixaram marcada pra sempre.<\/p>\n<p>Dita, vi\u00fava, mora sozinha no mesmo apartamento onde viveu com o marido, em Netanya, uma cidade costeira de Israel, onde judeus russos e franceses s\u00e3o mais da metade da popula\u00e7\u00e3o. Apesar da idade avan\u00e7ada, \u00e9 bem ativa. Enquanto me mostrava as v\u00e1rias estantes lotadas de livros variados e documentos, a sobrevivente do Holocausto me surpreendeu pela energia e mem\u00f3ria. Na prateleira, bem perto da porta de entrada onde o sobrenome da fam\u00edlia est\u00e1 gravado numa placa, estava o livro que conta um pouco da hist\u00f3ria dela. Dita Krauss diz que sua biblioteca tem literaturas alem\u00e3, francesa, tcheca e israelense. \u201cAqui est\u00e3o os livros sobre o Holocausto. Tenho dezenas, em v\u00e1rias l\u00ednguas, principalmente em ingl\u00eas. Adoro os autores ingleses, at\u00e9 porque fui professora de ingl\u00eas\u201d, diz. Ela mostra outro livro, \u201cThe Painted Wall\u201d, de autoria do marido. \u201cA hist\u00f3ria contada aqui inspirou o autor do livro sobre o qual vamos conversar. \u00c9 sobre o mesmo t\u00f3pico.\u201d<br \/>\nCom sua eleg\u00e2ncia discreta, Dita Kraus mostra o livro que ganhou do escritor espanhol Antonio Iturbe, com a dedicat\u00f3ria que ele fez para ela. \u201cFui at\u00e9 Barcelona para o lan\u00e7amento. N\u00f3s nos tornamos amigos. Nos encontramos primeiramente em Praga\u201d, afirma. Pergunto se ainda fala tcheco. \u201cSim, \u00e9 minha l\u00edngua materna. Com o fim do comunismo, voltei a visitar com frequ\u00eancia a minha terra natal. Quando ainda era controlada pelos comunistas, os israelenses n\u00e3o podiam visitar a Tchecoslo-v\u00e1quia (atuais Rep\u00fablica Tcheca e Eslov\u00e1quia). Por isso durante 40 anos n\u00e3o fui ao meu pa\u00eds. Quando voltei, foi uma surpresa\u201d (risos).<\/p>\n<p>Depois de uma conversa inicial, mais uma troca de impress\u00f5es, eu e Dita Kraus nos sentamos para a entrevista. Ao final, ela disse que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o tocava em certos assuntos, mas que, durante a nossa conversa, se sentiu a vontade para voltar ao passado, sem \u201ccinto de seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Aos que perguntam se Dita Kraus se sente culpada por ter sobrevivido, enquanto seu pai e cerca de 6 milh\u00f5es de judeus foram assassinados pela m\u00e1quina de matar criada por Hitler, G\u00f6ring e Himmler, ela sempre responde, de maneira enf\u00e1tica, que n\u00e3o se sente, em nenhum momento, culpada por ter escapado das garras dos nazistas. Sente alguma culpa pela morte da m\u00e3e, mas ela n\u00e3o podia fazer praticamente nada para salv\u00e1-la. A m\u00e3e morreu de tifo. Assegura que n\u00e3o odeia nem quer vingar-se dos alem\u00e3es. Entretanto, nas f\u00e9rias, n\u00e3o frequenta nem a Alemanha nem a \u00c1ustria.<\/p>\n<p>A pele de Dita Kraus ainda guarda o n\u00famero 73.305 \u2014 tatuado pelos nazistas. Ela fez quest\u00e3o de mostrar o bra\u00e7o no qual est\u00e1 inscrita a marca infame.<\/p>\n<p>A perda de sua filha representa para a resistente e serena Dita Kraus algo igual ou pior do que o Holocausto.<br \/>\n\u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d ainda n\u00e3o tem edi\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Como foi o contato com o jornalista e escritor Antonio Iturbe, autor de \u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d, livro romanceado sobre sua vida no campo de exterm\u00ednio?<\/strong><br \/>\nO primeiro contato com o autor aconteceu via e-mail. O escritor fala um ingl\u00eas b\u00e1sico. A forma como me questionava tornou poss\u00edvel a nossa comunica\u00e7\u00e3o \u2014 o que me deixou particularmente encantada. Nos encontramos duas vezes em Praga, capital da Rep\u00fablica Tcheca, onde nasci. Na \u00e9poca, Iturbe me disse que queria escrever um livro e come\u00e7ou a me perguntar detalhes daquele tempo. Meses depois, ele enviou a not\u00edcia de que o livro seria publicado em Barcelona e me convidou para o lan\u00e7amento. Eu fui. Mas ainda n\u00e3o pude ler, pois a obra n\u00e3o foi traduzida [saiu na Espanha, na Alemanha e ser\u00e1 publicada na Rep\u00fablica Tcheca]. Folheei algumas p\u00e1ginas e vi meu nome v\u00e1rias vezes, al\u00e9m de nomes familiares, como o de Freddy Hirsch [nascido em 1916 e assassinado em 1944, aos 28 anos, no campo de Auschwitz, Pol\u00f4nia. Ele foi o idealizador da biblioteca da qual Dita Kraus tomava conta]. As informa\u00e7\u00f5es que repassei a Iturbe foram publicadas no livro. Ele tamb\u00e9m leu a obra de meu marido [o escritor Otto Kraus] e esteve em Auschwitz. Nossas conversas indicam que o escritor sabe muito sobre o assunto.<\/p>\n<p><strong>A sra. diz que ainda l\u00ea e fala em tcheco. Como foi a primeira vez que voltou a Praga depois de tantos anos? Quais foram as suas impress\u00f5es?<\/strong><br \/>\n[Antes de responder, Dita Kraus abre um sorriso. Ao falar, prefere a primeira pessoa do plural, sempre colocando-se ao lado do marido, o falecido escritor Otto Kraus.] Nossa primeira impress\u00e3o foi muito engra\u00e7ada e emocionante. Otto e eu fomos at\u00e9 a principal ponte da cidade e olhamos para o castelo e para a catedral, que s\u00e3o monumentos famosos de Praga. E dissemos ao mesmo tempo um para o outro: \u201cOlhe, ainda existe. O castelo n\u00e3o foi destru\u00eddo, e o rio ainda corre no mesmo lugar, e tamb\u00e9m est\u00e1 aqui!\u201d Nunca me esque\u00e7o disso. A l\u00edngua n\u00e3o era problema, j\u00e1 que eu nunca parei de falar tcheco com meu marido. Toda nossa vida nos comunicamos em tcheco. Mas os nossos filhos n\u00e3o aprenderam. A outra impress\u00e3o que eu tive foi em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios da cidade. Todos descascados, velhos. Era puro concreto, caixas de concreto. Praga estava horr\u00edvel. Mas, com a retomada da democracia, tudo melhorou. Praga \u00e9 hoje uma cidade deslumbrante.<\/p>\n<p><strong>O que as crian\u00e7as diziam dos livros que a sra. cuidava quando estava em Auschwitz? Eram mesmo oito livros? Tinha Freud (\u201cNovos Caminhos da Terapia Psicanal\u00edtica\u201d), H. G. Wells (\u201cHist\u00f3ria do Mundo\u201d), um Atlas, uma gram\u00e1tica russa, uma novela russa (o livro n\u00e3o tinha capa) e mais dois livros, como relata o autor de \u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d? N\u00e3o eram livros chatos para as crian\u00e7as? Elas tiveram tempo de ler todos ou pelo menos um desses livros?<\/strong><br \/>\nEu quero responder isso voltando no tempo, antes da sua quest\u00e3o. Os livros chegaram ao Pavilh\u00e3o das Crian\u00e7as por interm\u00e9dio de prisioneiros poloneses que separavam os objetos das malas dos judeus que embarcavam os que eram levados para as c\u00e2maras de g\u00e1s. Eles separavam os objetos de acordo com a sua fun\u00e7\u00e3o. Na rampa de embarque, depois que o trem sa\u00eda, ficavam as malas vazias, e pilhas de roupas, comida, sapatos, \u00f3culos. Como o pavilh\u00e3o no qual eu ficava estava bem na entrada de Auschwitz, assistia a cena todos os dias. Quando eles achavam um livro traziam para nosso pavilh\u00e3o. N\u00e3o havia livros infantis. Eram temas modernos. A biblioteca era formada por 12 ou 14 obras. N\u00e3o me lembro dos t\u00edtulos. E n\u00e3o pude revel\u00e1-los a Antonio Iturbe, autor de \u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d. Lembro-me, com certeza, somente de \u201cA Hist\u00f3ria do Mundo\u201d [publicado no Brasil como \u201cUma Breve Hist\u00f3ria do Mundo\u201d, Editora L&amp;PM], de H. G. Wells. Os outros citados sa\u00edram da imagina\u00e7\u00e3o de Antonio Iturbe. Foram escolhas dele. N\u00e3o \u00e9 um fato documentado. As crian\u00e7as n\u00e3o liam os livros. Eu me lembro de um Atlas. As crian\u00e7as olhavam as figuras, os mapas aleatoriamente. Mas eram usados de forma l\u00fadica, at\u00e9 mesmo para jogos de palavras. Jogo do ABC. Os livros, embora interessantes, n\u00e3o foram escritos para crian\u00e7as. Mas adultos repetiam v\u00e1rias vezes certos cap\u00edtulos de alguns desses livros. Isto ocorria diversas vezes ao dia. Cham\u00e1vamos de livros andantes. Eram as melhores hist\u00f3rias, porque se misturavam com a imagina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as que estavam ali.<\/p>\n<p><strong>A sra. voltou a Auschwitz?<\/strong><br \/>\nO campo j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Eles destru\u00edram tudo. O que hoje os turistas veem em Auschwitz n\u00e3o \u00e9 nem um ter\u00e7o do que foi aquele inferno. S\u00f3 sobraram as chamin\u00e9s dos pavilh\u00f5es. Nunca fui at\u00e9 l\u00e1. E n\u00e3o vou. N\u00e3o quero ir at\u00e9 l\u00e1. [Dita Kraus fica com o rosto crispado. Se a voz silencia-se, o corpo protesta.]<\/p>\n<p><strong>Fale das crian\u00e7as. Eram mesmo 500?<\/strong><br \/>\nMuito mais. Era muito cheio. Era o \u00fanico pavilh\u00e3o que n\u00e3o tinha bancos ou beliches. Tudo vazio. Um grande espa\u00e7o. Eu fiz um desenho que d\u00e1 uma ideia de como era. Posso lhe mostrar depois. N\u00e3o havia espa\u00e7o suficiente para tantas crian\u00e7as. Todos se sentavam no ch\u00e3o ou ficavam em p\u00e9. Com exce\u00e7\u00e3o da chamin\u00e9 do aquecedor e alguns livros n\u00e3o havia mais nada. Nenhum brinquedo \u2014 nem um quadro-negro para os adultos ensinarem. Nada.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o o que faziam l\u00e1?<\/strong><br \/>\nHavia algum tipo de educa\u00e7\u00e3o. Aprendizado. Os adultos ensinavam sem livros, canetas, cadernos e l\u00e1pis. Tudo era feito oralmente, e de uma forma muito secreta. Afinal, ensinar e aprender eram proibidos. Havia um controle. Quando os inspetores chegavam, as crian\u00e7as fingiam que estavam participando de um jogo de adivinhar, \u00e9 claro, j\u00e1 que n\u00e3o havia espa\u00e7o para correr.<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>A sra. se lembra de alguma crian\u00e7a em especial?<\/strong><br \/>\nEram tantas crian\u00e7as&#8230; Lembro-me de muitas que tinham a minha idade [14\u00a0 anos]. N\u00f3s fomos para l\u00e1 juntas. O pavilh\u00e3o s\u00f3 funcionava durante o dia. N\u00f3s dorm\u00edamos com os adultos. As meninas com as m\u00e3es e os meninos com os pais. Somente de dia n\u00f3s segu\u00edamos para o pavilh\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Como a sra. se tornou respons\u00e1vel pelos livros?<\/strong><br \/>\n[Antes de responder, Dita Kraus abre um sorriso] Ah! [suspira] Foi Freddy Hirsch, que era o que podemos chamar de \u201cgerente\u201d ou \u201cdiretor\u201d do pavilh\u00e3o. A SS permitiu que crian\u00e7as de at\u00e9 14 anos ficassem ali. A partir dessa idade, tinham de trabalhar. Ele [Freddy] conseguiu autoriza\u00e7\u00f5es para dar \u201cempregos\u201d para as crian\u00e7as entre 14 e 16 anos que ainda estavam no pavilh\u00e3o e seriam encaminhadas para o trabalho for\u00e7ado. Nossa fun\u00e7\u00e3o era cuidar das crian\u00e7as menores. Eu, como uma dessas ajudantes, fiquei respons\u00e1vel pelos livros. Essa era a minha fun\u00e7\u00e3o. Outros tinham que varrer, porque n\u00e3o havia assoalho. A poeira era grande e a fuma\u00e7a e as cinzas que vinham dos cremat\u00f3rios eram constantes. Por isso o pavilh\u00e3o era frequentemente varrido. Outros ajudavam na distribui\u00e7\u00e3o da sopa. Uma vez por dia eles serviam sopa. \u00c9ramos chamados de \u201cos servi\u00e7ais\u201d.<\/p>\n<p><strong>A sra. era encarregada, ent\u00e3o, de repassar os livros?<\/strong><br \/>\nEu fazia o que era determinado. N\u00e3o era um trabalho pesado. Eu ficava sentada com alguns livros ao meu lado. Os adultos vinham, olhavam os livros e os retiravam. Eu tinha de lembrar para quem o livro tinha sido entregue, j\u00e1 que n\u00e3o podia anotar. Era proibido escrever.<\/p>\n<p><strong>Algum dos prisioneiros judeus chegou a ler todos os livros?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o sei. Talvez [Dita Kraus faz uma pausa e fica com o olhar est\u00e1tico, como se estivesse buscando no fundo do ser informa\u00e7\u00f5es precisas de um tempo j\u00e1 long\u00ednquo e, ao mesmo tempo, doloroso. Mas firmemente incrustado em sua mem\u00f3ria].<\/p>\n<p><strong>O que a sra. se lembra do tempo em que esteve em Auschwitz?<\/strong><br \/>\nDe coisas bem tristes. Tr\u00e1gicas. O pior momento foi a morte do meu pai. N\u00f3s chegamos em dezembro, e meu pai morreu em fevereiro. Quando chegamos, j\u00e1 est\u00e1vamos h\u00e1 um ano vivendo num gueto. Est\u00e1vamos famintos. Auschwitz era a personifica\u00e7\u00e3o da fome. Uma fome que n\u00e3o pode ser descrita. Era t\u00e3o forte que n\u00e3o nos deixava pensar em outra coisa, exceto em comida. Meu marido uma vez escreveu \u201c &#8230; a fome tomava conta de todo o nosso corpo\u201d. Meu pai foi ficando magro. Em poucas semanas estava raqu\u00edtico e muito fraco. Um dia ele n\u00e3o conseguiu se levantar. Todos tinham que sair do pavilh\u00e3o, todas as manh\u00e3s e noites, para a contagem. Meu pai n\u00e3o p\u00f4de se levantar e se apresentar. No outro dia ele estava morto. [Ao falar sobre o pai, Dita Kraus, de repente, silencia-se. Parece ausente, mas est\u00e1 apenas rememorando o tempo perdido, recuperando-o cerebralmente, para contar o que aconteceu.] Os mortos eram empilhados atr\u00e1s dos pavilh\u00f5es pr\u00f3ximos \u00e0s cercas de arame farpado. Ao fim de cada dia algu\u00e9m passava para recolh\u00ea-los. E todos os dias havia uma pilha deles atr\u00e1s de cada pavilh\u00e3o. Era um lugar horr\u00edvel. Auschwitz era um lugar horr\u00edvel. A vida ali n\u00e3o tinha nenhum valor, e nenhum sentido.<\/p>\n<p><strong>O assassinato era cometido de modo indiscriminado em Auschwitz?<\/strong><br \/>\nEm mar\u00e7o, metade da popula\u00e7\u00e3o do nosso pavilh\u00e3o foi levada em v\u00e1rios caminh\u00f5es. Tr\u00eas mil e 700 pessoas num s\u00f3 dia. Crian\u00e7as e beb\u00eas entre eles. Todos foram levados para as c\u00e2maras de g\u00e1s. Naquele dia n\u00f3s sab\u00edamos que o nosso destino seria o mesmo. Em junho seria a nossa vez. Os adultos ent\u00e3o decidiram tornar mais tranquilos aqueles \u00faltimos tr\u00eas meses. Eles queriam que as crian\u00e7as aproveitassem um pouco mais da vida. Eles passaram por cima do pr\u00f3prio medo e se dedicaram \u00e0s crian\u00e7as. Brincando e ensinando como se nada estivesse para acontecer. Como se as c\u00e2maras de g\u00e1s n\u00e3o existissem.<\/p>\n<p><strong>A morte \u201crondava\u201d todos os dias. Como as crian\u00e7as lidavam com esse horror?<\/strong><br \/>\nCrian\u00e7a \u00e9 crian\u00e7a. Elas ficavam brincando, mesmo com fome [sil\u00eancio]. N\u00f3s n\u00e3o fal\u00e1vamos sobre isso [morte]. Eu n\u00e3o me lembro de ter discutido o nosso medo. N\u00f3s o cont\u00ednhamos para que ele n\u00e3o se agravasse.<\/p>\n<p><strong>Como a sra. sobreviveu?<\/strong><br \/>\nA nossa sorte foi que os alem\u00e3es decidiram, em maio de 1944, um m\u00eas antes da data para o nosso exterm\u00ednio, que era um desperd\u00edcio de energia humana matar tanta gente nas c\u00e2maras de g\u00e1s. Ent\u00e3o eles disseram: \u201cVamos mat\u00e1-los de tanto trabalhar. Deixem que morram trabalhando para n\u00f3s\u201d. As ordens chegaram em Auschwitz, e com elas o dr. [Joseph] Mengele [morreu afogado em Bertioga, S\u00e3o Paulo, em fevereiro de 1979]. Foi este m\u00e9dico quem fez a sele\u00e7\u00e3o dos que estavam aptos ao trabalho. Durante alguns dias ele examinou as pessoas que estavam no pavilh\u00e3o das fam\u00edlias. Em dias separados para homens e mulheres. N\u00f3s t\u00ednhamos que marchar diante dele. Ele apontava o dedo para aqueles que achava que estavam saud\u00e1veis. E assim, eu e minha m\u00e3e fomos selecionadas para trabalhar na Alemanha, num campo de trabalho for\u00e7ado. Ent\u00e3o, em vez da c\u00e2mara de g\u00e1s, n\u00f3s embarcamos num trem para a Alemanha. L\u00e1 n\u00f3s trabalhamos duro nos dez meses seguintes. E isso n\u00e3o foi o fim. Ainda fomos levadas para outro campo. Eram v\u00e1rios. Esse para o qual me mandaram \u00e9 conhecido como Bergen-Belsen. Foi o pior de todos. [O campo de concentra\u00e7\u00e3o de Bergen-Belsen, mais citado como Belsen, situava-se na Alemanha. A partir de abril de 1943, passou a ser controlado pela SS. L\u00e1, como n\u00e3o era um campo de exterm\u00ednio, n\u00e3o havia c\u00e2maras de g\u00e1s, por\u00e9m milhares de judeus, ciganos e homossexuais morreram de fome ou sob tortura.]<\/p>\n<p><strong>Quando e por quem foram libertadas?<\/strong><br \/>\nPor sorte, poucos dias depois de chegarmos em Bergen-Belsen, os brit\u00e2nicos apareceram e nos libertaram. Mas fomos obrigados a permanecer no campo, de quarentena, porque havia uma epidemia de tifo. Ningu\u00e9m podia ir pra casa. Isso ainda durou algumas semanas. Dois meses antes do fim da guerra, minha m\u00e3e ficou doente e morreu em dois dias de febre tifoide. [Sil\u00eancio, olhar parado.] Me lembro dela [Dita Kraus mant\u00e9m o olhar distante, como se n\u00e3o houvesse um interlocutor \u00e0 sua frente]. Ela morreu depois de passar por tudo isso junto comigo. E s\u00f3 tinha 42 anos. Meu pai tinha 44 quando faleceu.<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>E o que aconteceu com voc\u00ea depois da morte de sua m\u00e3e?<\/strong><br \/>\nAlguns amigos possibilitaram que eu embarcasse num \u00f4nibus para Praga. Quando cheguei l\u00e1, lembrei-me que tinha uma prima do meu pai, que n\u00e3o era judia, mas era uma pessoa muito pr\u00f3xima da fam\u00edlia. Uma pessoa boa, que me acolheu. Ela foi muito delicada. Me aceitou e me protegeu por duas semanas, at\u00e9 que eu consegui encontrar meu caminho. Eu tinha 16 anos.<\/p>\n<p><strong>Outras mem\u00f3rias ainda mexem com a sra.?<\/strong><br \/>\nEu me lembro que um dos professores do pavilh\u00e3o das crian\u00e7as fazia com que todos cantassem uma certa can\u00e7\u00e3o que de alguma forma provocava uma sensa\u00e7\u00e3o de felicidade entre elas. O nome da m\u00fasica \u00e9 \u201cAloutte\u201d. \u00c9 em franc\u00eas. Conta a hist\u00f3ria de um p\u00e1ssaro, e cada palavra que se dizia acrescentava-se outra, e as crian\u00e7as adoravam isso. Era um momento diferente. Nos sent\u00edamos vivos. Mesmo assim \u00e9 tudo muito triste. Tenho lembran\u00e7as de acontecimentos muito tristes. Eu tinha uma parente distante, que eu n\u00e3o conhecia, mas minha m\u00e3e sim. Ela ficava no mesmo pavilh\u00e3o que a gente dormia. Ela roubava as pessoas. N\u00f3s n\u00e3o roub\u00e1vamos, \u00e9ramos honestos e amigos uns dos outros. Com os estranhos tamb\u00e9m. Eu tinha vergonha por ela, porque os roubos aconteciam dentro do pavilh\u00e3o, \u00e0 noite. E ela roubava de pessoas que n\u00e3o tinham nada. Os nossos sapatos eram colocados debaixo da cabe\u00e7a na hora de dormir justamente para n\u00e3o serem roubados. Alguns tinham colheres que colocavam na cintura quando se deitavam. Outros tinham agulhas para costurar a roupa que nunca era trocada e nem lavada. N\u00f3s fic\u00e1vamos com os mesmos trajes dia e noite. T\u00ednhamos um peda\u00e7o de sabonete. Sujo. Horr\u00edvel, era cheio de areia. E essa minha parente roubou essas coisas. Eu fiquei muito envergonhada por ela, que morreu na c\u00e2mara de g\u00e1s na primeira leva, em mar\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Como conheceu o seu marido, Otto Kraus? Foi mesmo em Auschwitz?<\/strong><br \/>\nMeu marido era um dos \u201cprofessores\u201d do pavilh\u00e3o das crian\u00e7as. O grupo que ele ensinava ficava pr\u00f3ximo de onde eu estava sentada com os livros. Durante todo o dia eu o via e ouvia o que ele dizia \u00e0s crian\u00e7as. Eu o conhecia a dist\u00e2ncia e sabia como era sua voz. Achava que ali nem havia me notado, mas nos encontramos depois da guerra. Eu estava na fila de um ponto de \u00f4nibus em Praga e ele estava l\u00e1 tamb\u00e9m. Eu sorri porque o reconheci, e pensava que ele n\u00e3o se lembraria de mim. Mas ele lembrou, e disse que sabia quem eu era. \u201cVoc\u00ea \u00e9 a menina de pernas finas que cuidava dos livros em Auschwitz\u201d. Pernas finas! [Risos] Ele sabia quem eu era [agora, Dita Kraus sorri]. N\u00f3s nos casamos dois anos depois em Praga.<\/p>\n<p><strong>O autor do livro \u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d (in\u00e9dito em portugu\u00eas, faz sucesso na Espanha, na Alemanha e agora est\u00e1 saindo na Rep\u00fablica Tcheca), o espanhol Antonio G. Iturbe, afirma que a sra. n\u00e3o gosta de ser chamada de hero\u00edna. Por que n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA obra, at\u00e9 onde sei, exagera a minha coragem. Eu n\u00e3o era t\u00e3o corajosa como o livro conta. [O livro romanceia a hist\u00f3ria. O autor afian\u00e7a que n\u00e3o conseguiu dados suficientes para relat\u00e1-la, da\u00ed o recurso \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. O que tornou a hist\u00f3ria mais compreens\u00edvel e emocionante.]<\/p>\n<p><strong>O dr. Mengele chegou a fazer algum tipo de exame na sra. ou nas crian\u00e7as do pavilh\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o era um exame propriamente dito. Ele nos olhava e apontava o dedo para os que achava que estavam saud\u00e1veis [para o trabalho]. N\u00f3s fic\u00e1vamos de p\u00e9, em frente a ele. Diz\u00edamos o nosso n\u00famero [Dita Kraus levanta a manga da camisa para mostrar o n\u00famero tatuado). Este \u00e9 meu n\u00famero: 73.305 [neste momento, Dita Kraus aumenta o tom da voz e diz em alem\u00e3o o n\u00famero que est\u00e1 em seu bra\u00e7o como se estivesse, mais uma vez, reportando-se a Mengele. \u00c9 uma \u201cvolta\u201d a Auschwitz]. N\u00f3s t\u00ednhamos que dizer nosso n\u00famero bem alto, em alem\u00e3o. O n\u00famero, a idade e a profiss\u00e3o. Pod\u00edamos falar apenas essas tr\u00eas coisas. Eu menti a minha idade pra poder passar no teste [Dita Kraus tinha 14 anos, mas disse que era mais velha]. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>O tratamento dos nazistas com os judeus era o mesmo para todos ou havia diferencia\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nCom exce\u00e7\u00e3o de Freddy Hirsch [esp\u00e9cie de gerente do pavilh\u00e3o], todos n\u00f3s \u00e9ramos tratados de maneira desumana. Com Hirsch havia um tratamento de respeito. Ele era tratado como um ser humano. N\u00f3s \u00e9ramos apenas um subpovo. Sub \u2014 nada al\u00e9m disso.<\/p>\n<p><strong>Quais observa\u00e7\u00f5es pode fazer sobre o livro \u201cA Bibliotec\u00e1ria de Auschwitz\u201d?<\/strong><br \/>\nEu tenho minhas reservas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra. Primeiramente, porque me qualifica como hero\u00edna. E, depois, porque o autor n\u00e3o conheceu os meus pais, mas, mesmo assim, faz uma descri\u00e7\u00e3o como se os conhecesse bem. Os pais descritos no romance hist\u00f3rico s\u00e3o bem diferentes dos meus pais verdadeiros. N\u00e3o posso aceitar isso. [Risos fortes] Eu ouvi de amigos que \u00e9 um bom livro. Muito bem escrito. Daqueles que n\u00e3o se consegue parar de ler. Deve ser muito bom, mas eu n\u00e3o posso avali\u00e1-lo porque n\u00e3o o li. [Numa entrevista a um jornal espanhol, o autor diz que torce para ela o leia e revela que o livro havia sido traduzido para o tcheco, a l\u00edngua original de Dita Kraus.]<\/p>\n<p><strong>A sra. chegou a assistir o julgamento de Adolf Eichmann \u2014 o nazista que enviava os judeus para os campos de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio \u2014 em Jerusal\u00e9m, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o assisti porque naquela \u00e9poca n\u00e3o tinha televis\u00e3o. Mas ele foi transmitido pelo r\u00e1dio. Lembro-me que nos sent\u00e1vamos e ouv\u00edamos o tempo todo. Por v\u00e1rias semanas. A justi\u00e7a foi feita. Um criminoso como ele tinha de pagar pelo que fez. [Eichmann foi julgado e enforcado. A fil\u00f3sofa judia alem\u00e3 Hannah Arendt escreveu um livro a respeito, \u201cEichmann em Jerusal\u00e9m \u2014 Um Relato Sobre a Banalidade do Mal\u201d.]<\/p>\n<p><strong>A sra. recebeu alguma indeniza\u00e7\u00e3o do governo da Alemanha?<\/strong><br \/>\nSim. Eles pagam o meu aluguel. E isto ajuda, sen\u00e3o n\u00e3o poderia morar aqui.<\/p>\n<p><strong>Considera-se uma pessoa de sorte por ter sobrevivido ao Holocausto?<\/strong><br \/>\nEu sobrevivi, mas fiquei traumatizada e marcada para sempre. Todos que foram para Auschwitz e sa\u00edram de l\u00e1 ficaram com alguma marca, um trauma. No cora\u00e7\u00e3o, na alma, no sorriso. Alguns ficaram com marcas f\u00edsicas tamb\u00e9m. Quando eu sa\u00ed, meu corpo estava bom, mas a minha alma at\u00e9 hoje est\u00e1 marcada. Por muitos anos, sonhei com a minha m\u00e3e [de novo, o olhar fica perdido, distante, como se o c\u00e9rebro de Dita Kraus estivesse fixando-se em algum momento feliz ao lado de sua m\u00e3e]. Nos meus sonhos ela est\u00e1 viva. E eu tinha v\u00e1rias vers\u00f5es do mesmo sonho. De que ela estava viva. Sempre viva. Me sinto culpada pela morte dela. Eu deveria ter feito mais. Encontrar um m\u00e9dico, algo ou algu\u00e9m que pudesse ajudar quando ela morreu. E isso me persegue.<\/p>\n<p><strong>A sra. mant\u00e9m contato com pessoas que conheceu em Auschwitz?<\/strong><br \/>\nSim, sim. Mais que contato. N\u00f3s somos como uma fam\u00edlia. Os que estiveram nos mesmos campos que eu t\u00eam um tipo de conex\u00e3o estreita. Como irm\u00e3os. Fam\u00edlia mesmo. Alguns ainda est\u00e3o vivos. Estamos desaparecendo. A cada hora algu\u00e9m vai embora. Mas mantemos contato. At\u00e9 mesmo com os que vivem em outros pa\u00edses. Uma vez por ano nos encontramos. Este ano \u00e9ramos apenas cinco. H\u00e1 30 anos \u00e9ramos mais de 200 [risos]. Mas ainda h\u00e1 outros vivos, que ainda n\u00e3o se foram. Como eu.<\/p>\n<p><strong>A sra. acredita que o Holocausto possa acontecer de novo?<\/strong><br \/>\nO Holocausto propriamente dito n\u00e3o. S\u00f3 teve um. E esse evento matou milh\u00f5es de pessoas sem motivos, entre eles os judeus. A morte num ritmo industrial. Um fato que nenhuma outra trag\u00e9dia \u2014 seja de ocupa\u00e7\u00e3o, aniquila\u00e7\u00e3o \u2014 conseguiu superar. N\u00e3o podemos nem mesmo comparar ao que os turcos fizeram com os arm\u00eanios, que foi uma trag\u00e9dia horr\u00edvel tamb\u00e9m. O Holocausto foi um fen\u00f4meno t\u00e3o \u00fanico que n\u00e3o acredito que possa acontecer de novo. Eu ainda me pergunto como eles puderam fazer isso. Aquilo foi horr\u00edvel. N\u00e3o acredito que possa haver novas c\u00e2maras de g\u00e1s. Eu n\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar dos prisioneiros chamados de sondercomando? Essas eram as pessoas, os prisioneiros judeus, que trabalhavam nas c\u00e2maras de g\u00e1s para os nazistas. Eles eram os respons\u00e1veis por retirar os dentes de ouro e os cabelos (para perucas) dos cad\u00e1veres antes de serem levados para o cremat\u00f3rio. Era um trabalho horr\u00edvel. Um deles sobreviveu e contou o que acontecia l\u00e1 dentro. [De novo, sil\u00eancio.] Eu acho que todos deveriam ler esse relato. \u00c9 t\u00e3o horr\u00edvel que, quando penso nisso, eu perco o f\u00f4lego [agora, pela primeira vez durante a entrevista, percebe-se l\u00e1grimas nos olhos de Dita Kraus, uma mulher extremamente composta e serena \u2014 que, se n\u00e3o odeia, tamb\u00e9m n\u00e3o esquece. Vive para denunciar a iniquidade nazista]. \u00c9 inimagin\u00e1vel. As pessoas eram levadas para esse lugar que parecia um vesti\u00e1rio. Um grande banheiro. E sufocavam por 20 minutos ou mais. Muitas mulheres foram mortas com suas crian\u00e7as ou com seus beb\u00eas ao peito. Preciso dizer mais?\u00a0 [N\u00e3o precisava, pois o nazismo, com seus campos de exterm\u00ednio, como Auschwitz, Treblinka e Sobibor, \u00e9 a face do absurdo moderno, do inomin\u00e1vel. Tanto que levou o fil\u00f3sofo Theodor Adorno a dizer que, depois de Auschwitz, n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para a poesia.]<\/p>\n<p><strong>Entrevista |\u00a0Avraham Milgram<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p>Para conhecer um pouco mais da hist\u00f3ria de Dita Kraus, sobrevivente de Auschwitz, o Jornal Op\u00e7\u00e3o foi at\u00e9 o museu do Holocausto em Jerusal\u00e9m, ou Yad Vashem. L\u00e1 h\u00e1 uma ala que conta a hist\u00f3ria das crian\u00e7as de Auschwitz. A foto de Dita Kraus est\u00e1 exposta como uma das principais personagens desse epis\u00f3dio. O historiador brasileiro-israelense Avraham Milgram \u00e9 um dos diretores do museu e profundo conhecedor do Holocausto.<\/p>\n<div><strong>O que era realmente o pavilh\u00e3o das crian\u00e7as em Auschwitz?<\/strong><\/div>\n<div>Em setembro de 1943 chegou o primeiro transporte de 5 mil judeus do campo [gueto] de Terezin para Auschwitz. A diferen\u00e7a desses para a maioria dos outros transportados \u00e9 que eles n\u00e3o passaram por sele\u00e7\u00e3o, ou seja, todos esses judeus foram levados para subcampos, chamados B-2B, e que ficaram conhecidos como os campos das fam\u00edlias. \u00c9 o caso de Terezin. A raz\u00e3o pela qual eles n\u00e3o passaram (nesse momento) por uma sele\u00e7\u00e3o de vida ou morte foi que a SS queria ludibriar a Cruz Vermelha e o mundo, dizendo que aqueles judeus que vieram de Terezin continuavam vivos. Por\u00e9m seis meses depois da chegada deles, exatamente na noite de 6 para 7 de mar\u00e7o de 1944, foram levados para as c\u00e2maras de g\u00e1s. Eles foram assassinados. Em dezembro, ou um pouco antes, chegou o segundo transporte \u2014 tamb\u00e9m com 5 mil judeus. E nesse comboio estavam Dita Kraus e sua fam\u00edlia. A diferen\u00e7a desse para o primeiro transporte \u00e9 que seis meses depois eles passaram por uma outra sele\u00e7\u00e3o. Uma boa parte foi enviada para as c\u00e2maras de g\u00e1s tamb\u00e9m. Dita e sua m\u00e3e, como eram muito jovens, tiveram a sorte de serem escolhidas&#8230; para \u201csobreviver\u201d. Elas seriam exploradas como m\u00e3o de obra escrava em outros campos. Da\u00ed ent\u00e3o elas foram transportadas de Auschwitz para Bergen-Belsen. Uma outra raz\u00e3o para essa deporta\u00e7\u00e3o \u00e9 que a Alemanha estava perdendo a guerra, e Himmler deu ordens para transferir os prisioneiros de Auschwitz para dentro da Alemanha. No entanto, a hist\u00f3ria interessante relacionada a Dita Kraus \u00e9 que ela estava nesse campo de fam\u00edlias B-2B em Auschwitz, e l\u00e1, sendo uma jovem adolescente, assim como outros jovens, teve a sorte de, durante o dia, permanecer nesse pavilh\u00e3o, onde o l\u00edder era um outro jovem judeu chamado Freddy Hirsch, que era uma pessoa carism\u00e1tica, de muito valor. Desde o Gueto de Terezin ele j\u00e1 atuava como um l\u00edder e continuou com suas fun\u00e7\u00f5es no pavilh\u00e3o das crian\u00e7as. Ali eles tinham atividades educativas, e Freddy alentava as crian\u00e7as. Dava para elas algum tipo de esperan\u00e7a. Tinham coro, teatro e pouqu\u00edssimos livros, pelos quais Dita Krauss era respons\u00e1vel, por isso foi chamada de a bibliotec\u00e1ria de Auschwitz. Mas \u00e9 claro que essa era uma situa\u00e7\u00e3o marginal na vida do campo de exterm\u00ednio, e que os alem\u00e3es s\u00f3 deixaram acontecer para enganar outras pessoas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Podemos dizer que Dita Krauss ent\u00e3o \u00e9 uma mulher de sorte, j\u00e1 que todos que eram enviados para Auschwitz estavam praticamente condenados \u00e0 morte?<\/strong><\/div>\n<div>Sim. S\u00f3 que, antes de chegar at\u00e9 l\u00e1, ningu\u00e9m sabia que estava sendo levado para um campo de exterm\u00ednio. A ideia em geral, e assim era dito a eles, antes de sa\u00edrem dos guetos, \u00e9 que estavam sendo levados para campos de trabalho. Na nossa perspectiva de hoje, a sua coloca\u00e7\u00e3o \u00e9 correta. Todos eles, sem d\u00favida, eram condenados \u00e0 morte. Portanto, Dita Kraus e a m\u00e3e podem ser consideradas mulheres de sorte. A palavra sorte \u00e9 o termo certo, j\u00e1 que n\u00e3o havia nada que pudesse assegurar a continuidade da vida sob aquelas condi\u00e7\u00f5es, de castigo, fome, doen\u00e7as, torturas. Enfim eles eram considerados seres sub-humanos. Essa era a percep\u00e7\u00e3o dos nazistas, que acreditavam que os judeus n\u00e3o deveriam viver. A sorte \u00e9 que ela era jovem e a m\u00e3e tamb\u00e9m, e resolveram explor\u00e1-las por mais tempo. N\u00e3o significa que elas iam sobreviver. Sua m\u00e3e acabou morrendo de febre tifoide no campo de Bergen-Belsen. Dita realmente sobreviveu por sorte. Ela \u00e9 uma sortuda porque a linha que dividia a vida e a morte era estreit\u00edssima em Auschwitz e em outros campos tamb\u00e9m.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Antonio Iturbe diz que Dita Kraus \u00e9 uma hero\u00edna, mas ela n\u00e3o gosta do termo. O sr., estudioso do tema e conhecedor de tantas hist\u00f3rias de sobreviv\u00eancia, como a considera?<\/strong><\/div>\n<div>Passaram-se tantas d\u00e9cadas daquela \u00e9poca para os dias de hoje que Auschwitz acabou se tornando o s\u00edmbolo m\u00e1ximo, talvez categ\u00f3rico, da maldade do homem contra seu semelhante. Auschwitz \u00e9 um \u201cs\u00edmbolo\u201d do Holocausto. Por isso qualquer indiv\u00edduo que esteve l\u00e1 como prisioneiro, e teve a sorte de permanecer vivo, \u00e9 considerado her\u00f3i. Algu\u00e9m que esteve no inferno e saiu vivo dele. Certamente, na vis\u00e3o dos sobreviventes, eles n\u00e3o se consideram her\u00f3is. Como gente que teve sorte, sim, sem d\u00favida. E, de fato, n\u00e3o eram her\u00f3is. Eles n\u00e3o fizeram nada, propositadamente, como um ato de hero\u00edsmo ou de resist\u00eancia. Enfim, o que eles queriam era simplesmente sobreviver um dia ap\u00f3s o outro, com a esperan\u00e7a de que a guerra terminasse e eles pudessem sair vivos daquele inferno. Dita Kraus \u00e9 uma sobrevivente, sem d\u00favida.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.jornalopcao.com.br\/posts\/entrevista\/dita-kraus-a-bibliotecaria-de-auschwitz-fala-com-exclusividade-ao-jornal-opcao&gt;. Acesso em: 26 nov. 2013.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei como ser\u00e1 a leitura para voc\u00eas, mas me senti &#8220;pesado&#8221;. *** No campo de exterm\u00ednio mais letal do regime nazista de Hitler, Dita Kraus, de 14 anos, era a bibliotec\u00e1ria de oito livros que Freddy Hirsch reuniu para cerca de 500 crian\u00e7as. 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