{"id":4625,"date":"2017-12-04T20:00:56","date_gmt":"2017-12-04T23:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/mundobibliotecario.com.br\/?p=4625"},"modified":"2017-12-04T20:00:56","modified_gmt":"2017-12-04T23:00:56","slug":"a-biblioteca-do-futuro-nao-tera-o-livro-como-centro-de-gravidade-diz-melanie-archambaud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2017\/12\/04\/a-biblioteca-do-futuro-nao-tera-o-livro-como-centro-de-gravidade-diz-melanie-archambaud\/","title":{"rendered":"A biblioteca do futuro n\u00e3o ter\u00e1 o livro como centro de gravidade, diz M\u00e9lanie Archambaud"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12 col-sm-offset-1 col-sm-11\">\n<article class=\"n--noticia__header\">\n<h2 class=\"n--noticia__subtitle\">Bibliotec\u00e1ria francesa respons\u00e1vel pela rede de bibliotecas de Bordeaux fala ao &#8216;Estado&#8217; sobre sua experi\u00eancia, o presente e o futuro desses espa\u00e7os que est\u00e3o se reinventado e ganhando novos usos<\/h2>\n<\/article>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<aside class=\"col-sm-1 col-xs-none fixed-position-share\">\n<div class=\"module__share js-fixed-noticia-cover\">Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo<\/div>\n<\/aside>\n<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12 main-news\">\n<div id=\"pw-P_1.2090284\" class=\"pw-container\">\n<div id=\"sw-P_1.2090284\" class=\"pw-container\">\n<div class=\"row n--noticia__body\">\n<section class=\"col-xs-12 col-sm-offset-1 col-sm-11\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"col-xs-12 col-content col-center\">\n<div class=\"box area-select\">\n<div class=\"n--noticia__state\">\n<p>20 Novembro 2017 | 06h00<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"n--noticia__content content\">\n<p>&#8220;\u00c9 preciso dessacralizar a biblioteca, fazer retornar a dimens\u00e3o divertida e prazerosa, criar ecos e cruzamentos entre as propostas culturais e documentais para que um adolescente que venha jogar videgame possa, talvez, deixar\u00a0a biblioteca com o\u00a0<em>Conde de Monte Cristo<\/em>.&#8221; A opini\u00e3o \u00e9 da francesa\u00a0M\u00e9lanie Archambaud, que j\u00e1 trabalhou no Centro de Informa\u00e7\u00e3o do Centro George Pompidou e \u00e9 hoje respons\u00e1vel pela coopera\u00e7\u00e3o da rede de bibliotecas p\u00fablicas municipais em Bordeaux.<\/p>\n<div class=\"mm_conteudo blog-multimidia foto loaded\">\n<figure class=\"n--noticia__image modulo-noticia\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/9\/6\/1511136119769.jpg\" alt=\"A biblioteca do presente e do futuro\" \/><figcaption>A biblioteca dever\u00e1 ser viva, participativa e conectada Foto: Werther Santana<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Nesta entrevista concedida por e-mail, ela fala sobre o presente e o futuro das bibliotecas, e sobre o que podemos aprender com os erros e os acertos da experi\u00eancia desenvolvida na cidade &#8211; por exemplo: muitos conte\u00fados podem ser acessados pelos usu\u00e1rios em casa e desde outubro as bibliotecas ficam abertas at\u00e9 pelo menos 22h, com uma s\u00e9rie de atividades para mostrar aos moradores que muita coisa pode acontecer ali dentro.<\/p>\n<p><strong>As bibliotecas p\u00fablicas que est\u00e3o sendo mais bem-sucedidas em atrair pessoas s\u00e3o aquelas que se transformaram (ou foram constru\u00eddas como) uma esp\u00e9cie de centro cultural, onde os usu\u00e1rios podem escolher livros em estantes como se estivessem em livrarias, assistir filmes e, muitas vezes, ter aulas sobre temas t\u00e3o diferentes como o uso de smartphones para idosos e rob\u00f3tica. Esse \u00e9 o modelo que sobreviver\u00e1? Essa \u00e9 a biblioteca do futuro? Como ser\u00e1 essa biblioteca do futuro?<\/strong><\/p>\n<p>A sociedade est\u00e1 evoluindo e as bibliotecas devem evoluir com ela. A biblioteca \u00e9 um local cidad\u00e3o cujo objetivo principal \u00e9 permitir o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Ela tem como finalidade a emancipa\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos na sociedade, permitindo-lhes acessar o conhecimento e a informa\u00e7\u00e3o do modo mais igualit\u00e1rio poss\u00edvel. Durante muito tempo, este acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o foi baseado apenas no acesso a livros e leitura. Mas hoje, o livro compartilha esse papel com novas maneiras de construir, pensar e divulgar informa\u00e7\u00f5es que se espalham rapidamente e em massa gra\u00e7as \u00e0s tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de baixo custo.<\/p>\n<p>Nesta Sociedade do Conhecimento, a difus\u00e3o e o uso da informa\u00e7\u00e3o flui de forma diferente: a cadeia tradicional descendente da transmiss\u00e3o do conhecimento (do que sabe ao que est\u00e1 aprendendo) \u00e9 totalmente renovada. As bibliotecas n\u00e3o podem negar essa realidade e, em vez disso, devem integr\u00e1-la na sua organiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de ser tecnol\u00f3gico para ser moderno ou atraente, mas pensar no acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es que correspondam \u00e0s pr\u00e1ticas e realidades de hoje. A clivagem digital \u00e9 a de todas as desigualdades entre os grupos no sentido amplo, em termos de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, uso ou conhecimento das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o. Ao integrar as ferramentas e pr\u00e1ticas digitais no exerc\u00edcio de suas miss\u00f5es, as bibliotecas abrem um novo caminho para o mundo da informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento, ao conectar usu\u00e1rios e os conte\u00fados para al\u00e9m de quaisquer limites geogr\u00e1ficos, sociais e culturais.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho preocupa\u00e7\u00f5es com a sobreviv\u00eancia do livro neste novo modelo de bibliotecas, que agora ir\u00e1 coabitar com o digital. Esses dois apoios s\u00e3o complementares e n\u00e3o contradit\u00f3rios. Eu mencionei anteriormente uma cadeia de conhecimento &#8220;totalmente renovada&#8221;, o conhecimento \u00e9 constru\u00eddo cada vez mais horizontalmente e a comunidade com novas tecnologias, n\u00f3s o vemos com a Wikipedia, por exemplo, mas tamb\u00e9m o aumento de movimento como o Fa\u00e7a Voc\u00ea mesmo e as pr\u00e1ticas amadoras na sociedade. Aqui novamente, a biblioteca deve aceitar esta nova maneira de construir e acessar o conhecimento. O bibliotec\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 mais um transmissor de conhecimento, ele se torna um mediador que deve imaginar modos mais participativos e horizontais de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Os usu\u00e1rios s\u00e3o detentores de conhecimento e estes s\u00e3o recursos potenciais a serem ativados! Podemos construir coisas com eles. Acredito ent\u00e3o que a biblioteca do futuro n\u00e3o \u00e9 nem mais nem menos que uma organiza\u00e7\u00e3o que permanece atenta a essas mudan\u00e7as sociais e as integra com benevol\u00eancia sem julgamento. De fato, nada muda nas miss\u00f5es fundamentais das bibliotecas: lembremo-nos que a biblioteca n\u00e3o \u00e9 um lugar, mas \u00e9 sobretudo uma organiza\u00e7\u00e3o dotada da miss\u00e3o de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao conhecimento e \u00e0 cultura. Nos novos modelos que voc\u00ea cita, as miss\u00f5es n\u00e3o mudam, mas a organiza\u00e7\u00e3o sim. Na minha opini\u00e3o, uma biblioteca que \u00e9 apenas digital \u00e9 t\u00e3o inadequada como uma biblioteca que s\u00f3 oferece livros. Em ambos os casos, excluem uma parte da sociedade, modos de acesso ao conhecimento e pr\u00e1ticas culturais.<\/p>\n<p><strong>O que foi feito em Bordeaux que poderia servir de inspira\u00e7\u00e3o a bibliotecas de diferentes lugares, de diferentes realidades?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo colocar a biblioteca do Bordeaux como um modelo, mas posso falar sobre o que nos pareceu pertinente como uma a\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia e talvez o que tenha funcionado n\u00e3o t\u00e3o bem. Muitas vezes, acho at\u00e9 mais interessante falar sobre experi\u00eancias erradas. Penso que conseguimos uma coabita\u00e7\u00e3o interessante entre o digital e o livro. Damos acesso gratuito a uma oferta de filmes, document\u00e1rios, revistas e cursos on-line que as pessoas podem acessar de casa, o que nos permite expandir e complementar nossas cole\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Os usu\u00e1rios deste servi\u00e7o tamb\u00e9m s\u00e3o os que tomam livros emprestados, que para eles \u00e9 uma extens\u00e3o de nossas cole\u00e7\u00f5es de papel. Tudo \u00e9 gratuito, at\u00e9 wi-fi, como em muitas bibliotecas francesas, raz\u00e3o pela qual temos muitos p\u00fablicos vulner\u00e1veis que v\u00eam \u00e0 biblioteca para se manter \u201cconectados\u201d \u00e0 sociedade. O fato de ser capaz de assistir um filme no local, entrar na internet, ter uma conta em Facebook ou participar de um workshop de alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante para esses p\u00fablicos em termos de integra\u00e7\u00e3o na sociedade. As v\u00e1rias oficinas tamb\u00e9m s\u00e3o uma oportunidade para promover a coes\u00e3o social.<\/p>\n<p>Acho que a biblioteca de Bordeaux \u00e9 uma biblioteca muito inclusiva, onde todos os p\u00fablicos\u00a0se encontram. Por exemplo, temos um espa\u00e7o (Espace Diderot) dedicado a pessoas com defici\u00eancia com cole\u00e7\u00f5es e equipamentos adaptados e funcion\u00e1rios treinados para receber esse p\u00fablico. A rede de Bordeaux tem 9 bibliotecas e o sistema de transporte permite que voc\u00ea empreste e devolva documentos em qualquer estrutura. Em resumo, n\u00f3s tentamos facilitar e democratizar ao m\u00e1ximo acesso ao conhecimento por esse tipo de dispositivo menos restritivo poss\u00edvel para os usu\u00e1rios. O registro \u00e9 gratuito (este n\u00e3o \u00e9 o caso de todas as bibliotecas francesas), temos um intervalo de horas de abertura relativamente grande em compara\u00e7\u00e3o com a m\u00e9dia francesa e oferecemos formatos e apoios diversificados, bem como uma oferta media\u00e7\u00e3o cultural de forma que todos os p\u00fablicos possam encontr\u00e1-lo. No entanto, sofremos com a imagem que o p\u00fablico faz &#8211; muitos ainda veem as bibliotecas como templos sagrados e n\u00e3o se atrevem a chegar at\u00e9 a porta de uma biblioteca.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, em 14 de outubro de 2017, a Biblioteca do Bordeaux lan\u00e7ou a primeira Noite das Bibliotecas Metropolitanas: 28 bibliotecas abertas at\u00e9 \u00e0s 22h ou meia-noite com atividades excepcionais (DJ, teatro, jogos e disputas de perguntas e respostas, workshops participativos, performances , proje\u00e7\u00f5es, etc.) para mostrar bibliotecas sob uma luz diferente. Este grande esfor\u00e7o para promover bibliotecas tem sido extremamente bem-sucedido na regi\u00e3o, ajudando a mudar a imagem das bibliotecas no inconsciente coletivo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m queremos desenvolver uma oferta ao redor do jogo (n\u00e3o apenas o videogame, mas todos os jogos). Eles s\u00e3o verdadeiros vetores de coes\u00e3o social que precisamos desenvolver. N\u00f3s criamos um espa\u00e7o para videogames na maior biblioteca de rede, mas precisamos repensar esse recurso. Os bibliotec\u00e1rios muitas vezes temem ter o videogame em bibliotecas: medo da confus\u00e3o, medo de jogos violentos, etc. Ent\u00e3o, pensamos em um espa\u00e7o onde os jogos foram pr\u00e9-selecionados e oferecidos por um tempo, antes de serem substitu\u00eddos por novos jogos. Ou isso n\u00e3o faz sentido algum com os costumes das pessoas! Por que tratar o jogo de forma diferente do livro? Por que n\u00e3o confiar nos usu\u00e1rios em vez de usar especificadores? Portanto, vamos relaxar as regras, emprestar nossos videogames e dar aos usu\u00e1rios a op\u00e7\u00e3o de jogar o que eles querem.<\/p>\n<p><strong>As bibliotecas p\u00fablicas ainda n\u00e3o s\u00e3o digitais no Brasil, n\u00e3o h\u00e1 e-books em seus cat\u00e1logos. Existem apenas alguns modelos de empr\u00e9stimo\/assinatura para universidades e outros para leitores comuns, geralmente associados a empresas de telefonia m\u00f3vel. Como esta quest\u00e3o \u00e9 tratada pela sua institui\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O problema dos e-books na Fran\u00e7a ultrapassa as bibliotecas e diz respeito a toda a cadeia do livro. Com os e-books, as editoras enfrentam dificuldades legais e t\u00e9cnicas como a revis\u00e3o dos contratos de direitos autorais ou a reformula\u00e7\u00e3o de certas obras para maior interatividade (som, v\u00eddeo, zoom &#8230;). Mas o principal problema vem do medo do download ilegal. Todos esses motivos explicam a resist\u00eancia das editoras e sua relut\u00e2ncia em oferecer vers\u00f5es digitais de seus livros. Esta realidade editorial tem um impacto direto nas bibliotecas.<\/p>\n<p>Em 2014, apenas 4% das grandes bibliotecas de leitura p\u00fablica tinham um servi\u00e7o de empr\u00e9stimo de e-book apesar da multiplica\u00e7\u00e3o de distribuidores (Bibliovox, Lekti, Numilog, Harmatec, etc.), porque a oferta n\u00e3o \u00e9 muito desenvolvida pelos editores e insatisfat\u00f3ria para as bibliotecas.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o prejudicar editores e autores, o Minist\u00e9rio da Cultura franc\u00eas lan\u00e7ou o programa &#8220;Empr\u00e9stimos digitais em bibliotecas&#8221; em 2012, que permite a articula\u00e7\u00e3o entre os diferentes atores: editores e transmissores (cat\u00e1logo de livros); Livrarias (ofertas de distribuidores para comunidade); bibliotecas e usu\u00e1rios. Nesta plataforma, os livros podem ser baixados ou lidos on-line (streaming).<\/p>\n<p>Mas este sistema muito caro para bibliotecas tem limita\u00e7\u00f5es: os livros digitais s\u00e3o muito mais caros do que os livros em papel, compramos o acesso e n\u00e3o e-books, o que significa que as bibliotecas n\u00e3o possuem arquivos digitais (da\u00ed a quest\u00e3o da durabilidade da cole\u00e7\u00e3o), os livros t\u00eam travas digitais (Digital Rights Management), que devem proteger os direitos autorais, proibindo um usu\u00e1rio que comprou um produto para poder duplic\u00e1-lo e compartilh\u00e1-lo. Mas por causa do DRM, um e-book n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com qualquer ferramenta, o que limita seu uso, al\u00e9m do mais no dispositivo atual, um e-book pode ser emprestado simultaneamente, etc. Em suma, \u00e9 um servi\u00e7o caro (demais) \u00e0s bibliotecas por causa da oferta existente e da complexidade do servi\u00e7o para o usu\u00e1rio. A biblioteca de Bordeaux, como muitas outras bibliotecas, n\u00e3o pode ficar satisfeita com as condi\u00e7\u00f5es da oferta atual. Hoje, o problema dos bibliotec\u00e1rios \u00e9, portanto, resolver as incertezas legais, de modo que as exce\u00e7\u00f5es aos direitos autorais para os livros de papel tamb\u00e9m permitam os empr\u00e9stimos digitais. No entanto, mais e mais editores confiam nos leitores e oferecem arquivos sem DRM que v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o das bibliotecas, o que abre o caminho que esperamos.<\/p>\n<p><strong>O que as bibliotecas p\u00fablicas brasileiras podem fazer para se preparar para esse novo tipo de leitura? As bibliotecas escolares j\u00e1 deveriam ser digitais?<\/strong><\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o do digital nas bibliotecas deve responder a um objetivo espec\u00edfico. Como qualquer projeto em uma biblioteca, isso deve ser acompanhado por um estudo do p\u00fablico-alvo e suas necessidades. Se a leitura digital n\u00e3o corresponde ao uso do p\u00fablico que se deseja alcan\u00e7ar ou n\u00e3o atende a um projeto de desenvolvimento cultural, n\u00e3o tem muito interesse. As bibliotecas n\u00e3o querem ser ativistas digitais, mas apoiar pr\u00e1ticas e traz\u00ea-las para seu meio. \u00a0A quest\u00e3o n\u00e3o tem sentido no absoluto, mas apenas no prisma do que queremos oferecer ao p\u00fablico. O digital n\u00e3o \u00e9 um objetivo em si, \u00e9 um meio para desenvolver a leitura e a criatividade, facilitar o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, oferecer novas oportunidades para reuni\u00f5es e interc\u00e2mbios entre gera\u00e7\u00f5es, entre culturas, entre pessoas simplesmente. A tecnologia digital \u00e9 simplesmente uma nova maneira de a biblioteca cumprir suas miss\u00f5es, mas deve ser um meio, como a media\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o cultural ou a pol\u00edtica documental.<\/p>\n<p><strong>Desde 2014, o governo brasileiro n\u00e3o compra livros de literatura para bibliotecas escolares. Qual \u00e9 o risco de uma interrup\u00e7\u00e3o dessas?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia disso e acho muito inquietante, como se justifica tal decis\u00e3o? A literatura juvenil \u00e9 fundamental para acompanhar a constru\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos. Desenvolve o imagin\u00e1rio, permite, naturalmente, o aprendizado da leitura e acompanha a crian\u00e7a em sua evolu\u00e7\u00e3o, abordando todas as problem\u00e1ticas que ele atravessa desde jovem. Ao contr\u00e1rio dos livros did\u00e1ticos, tamb\u00e9m \u00e9 atrav\u00e9s da literatura infantil que as crian\u00e7as descobrem o prazer da leitura. As bibliotecas e as escolas s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, lugares de acesso ao saber e ao conhecimento, s\u00e3o servi\u00e7os p\u00fablicos nos quais o livro em todas as suas formas deve ter seu lugar porque em outras esferas da crian\u00e7a como fam\u00edlia, talvez n\u00e3o haja livros. Se for removido das escolas e a crian\u00e7a n\u00e3o vai para a biblioteca ou n\u00e3o l\u00ea em casa (trata-se das mesmas crian\u00e7as), em que momento se dar\u00e1 o encontro com o livro e o prazer de leitura? A dimens\u00e3o do prazer da leitura deve ser mantida desde uma idade precoce. A leitura n\u00e3o deve ser exclusivamente associada \u00e0 escola e com a obriga\u00e7\u00e3o do aprendizado. Ao retirar a literatura juvenil das bibliotecas escolares, a leitura \u00e9 reduzida apenas \u00e0 sua dimens\u00e3o pedag\u00f3gica e utilitarista.<\/p>\n<p><strong>As bibliotecas ainda t\u00eam um impacto na forma\u00e7\u00e3o de leitores? O que mais as bibliotecas podem fazer para ajudar a melhorar os \u00edndices de leitura?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o lemos livros em bibliotecas que n\u00e3o lemos. Existem muitas outras formas de leitura que n\u00e3o s\u00e3o menos v\u00e1lidas do que a leitura de livros. Ler revistas, ler na internet, ler um filme legendado ou ler quadrinhos tamb\u00e9m s\u00e3o maneiras de ler que voc\u00ea n\u00e3o se deve desprezar. Lembro-me de um jovem migrante que come\u00e7ou a aprender franc\u00eas jogando videogames na biblioteca, lendo as instru\u00e7\u00f5es do jogo na tela e interagindo com outros jogadores. H\u00e1 tamb\u00e9m esta biblioteca que criou um espa\u00e7o &#8220;f\u00e1cil de ler&#8221; com textos simples, imagens e conte\u00fado multim\u00eddia para pessoas que n\u00e3o liam ou mal dominavam o franc\u00eas. Muitas bibliotecas agora est\u00e3o optando por oferecer uma cultura menos legitimada, com revistas de celebridades, videogames, oficinas de conversa\u00e7\u00e3o, treinamento de m\u00eddia social&#8230; Penso que, desde que admitamos que n\u00e3o h\u00e1 boas e m\u00e1s maneiras de ler, as bibliotecas, sem d\u00favida, continuar\u00e3o a ser importantes atores no desenvolvimento da leitura. O que importa \u00e9 caminhar em meio a um m\u00e1ximo de formas e formatos para que as pontes sejam criadas. \u00c9 preciso dessacralizar a biblioteca, fazer retornar a dimens\u00e3o divertida e prazerosa, criar ecos e cruzamentos entre as propostas culturais e documentais para que um adolescente que venha jogar videgame possa, talvez, deixar\u00a0a biblioteca com o\u00a0<em>Conde de Monte Cristo<\/em>.\u00a0Mas se ele n\u00e3o o faz, n\u00e3o importa, ele ter\u00e1 encontrado outra coisa na biblioteca: simpatia, conv\u00edvio, troca, divers\u00e3o, inspira\u00e7\u00e3o &#8230; coisas t\u00e3o importantes para a sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o problema mais urgente para as bibliotecas hoje? Alguma ideia de como resolv\u00ea-lo?<\/strong><\/p>\n<p>O mais urgente (al\u00e9m de ser apoiado financeiramente pelas autoridades p\u00fablicas) \u00e9 que as bibliotecas acompanhem a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade. \u00c9 preciso que os profissionais da biblioteca sejam treinados para a evolu\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas. Precisamos desenvolver nossas compet\u00eancias de relacionamento, pedag\u00f3gicas e digitais. O treinamento me parece fundamental para mudar nossa mentalidade e imaginar a biblioteca do amanh\u00e3, uma biblioteca participativa, viva e conectada, que n\u00e3o tem mais exclusivamente o livro como centro de gravidade.<\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Claudia Bozzo<\/strong><\/p>\n<p>Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/cultura.estadao.com.br\/noticias\/literatura,a-biblioteca-do-futuro-nao-tera-o-livro-como-centro-de-gravidade-diz-melanie-archambaud,70002090284\">http:\/\/cultura.estadao.com.br\/noticias\/literatura,a-biblioteca-do-futuro-nao-tera-o-livro-como-centro-de-gravidade-diz-melanie-archambaud,70002090284<\/a>&gt;. Acesso em: 4 dez. 2017.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bibliotec\u00e1ria francesa respons\u00e1vel pela rede de bibliotecas de Bordeaux fala ao &#8216;Estado&#8217; sobre sua experi\u00eancia, o presente e o futuro desses espa\u00e7os que est\u00e3o se reinventado e ganhando novos usos Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo 20 Novembro 2017 | 06h00 &#8220;\u00c9 preciso dessacralizar a biblioteca, fazer retornar a dimens\u00e3o divertida e prazerosa, &#8230; <a title=\"A biblioteca do futuro n\u00e3o ter\u00e1 o livro como centro de gravidade, diz M\u00e9lanie Archambaud\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2017\/12\/04\/a-biblioteca-do-futuro-nao-tera-o-livro-como-centro-de-gravidade-diz-melanie-archambaud\/\" aria-label=\"Read more about A biblioteca do futuro n\u00e3o ter\u00e1 o livro como centro de gravidade, diz M\u00e9lanie Archambaud\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_jetpack_newsletter_access":"","footnotes":""},"categories":[60],"tags":[88,70,858,115,1507,1521,8],"class_list":["post-4625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-bibiblioteca-escolar","tag-biblioteca-publica","tag-direitos-autorais","tag-e-book","tag-evolucao","tag-formacao-de-leitores","tag-leitura"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":2877,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2013\/02\/14\/5-ideias-brilhantes-para-bibliotecas-do-futuro\/","url_meta":{"origin":4625,"position":0},"title":"5 ideias brilhantes para bibliotecas do futuro","author":"mundobibliotecario","date":"14\/02\/2013","format":false,"excerpt":"As bibliotecas p\u00fablicas est\u00e3o enfrentando um desafio dif\u00edcil agora. As pessoas est\u00e3o lendo\u00a0menos livros f\u00edsicos - o b\u00e1sico das bibliotecas - mas ainda contam as bibliotecas\u00a0para buscar informa\u00e7\u00e3o. Paul Vogel, presidente de solu\u00e7\u00f5es digitais do Servi\u00e7o Postal dos Estados Unidos (USPS), disse recentemente que a USPS\u00a0 est\u00e1 no neg\u00f3cio\u00a0de mensagem,\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":9505,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2021\/09\/27\/biblioteca-em-parintins-abre-as-portas-para-o-futuro\/","url_meta":{"origin":4625,"position":1},"title":"Biblioteca em Parintins abre as portas para o futuro","author":"mundobibliotecario","date":"27\/09\/2021","format":false,"excerpt":"Parintins \u00e9 um lugar \u00fanico: a ilha, no meio da maior floresta tropical do mundo, a 20 horas de barco de Manaus, exporta cultura e recebe tecnologia. A biblioteca da Universidade do Estado do Amazonas \u2013 UEA \u2013 em Parintins, abriu a porta do futuro, investindo em uma solu\u00e7\u00e3o completa\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/img.youtube.com\/vi\/H-WPaJqGglI\/0.jpg?resize=350%2C200","width":350,"height":200},"classes":[]},{"id":845,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2009\/09\/06\/carandiru-vai-abrigar-biblioteca-central-do-estado-de-sp\/","url_meta":{"origin":4625,"position":2},"title":"Carandiru vai abrigar biblioteca central do Estado de SP","author":"mundobibliotecario","date":"06\/09\/2009","format":false,"excerpt":"\u00a0Ter, 01 Set, 09h50 Um sonho da d\u00e9cada de 1940 est\u00e1 prestes a ser realizado. Se tudo correr como previsto, os paulistas ter\u00e3o, a partir de 25 de janeiro do pr\u00f3ximo ano, uma biblioteca central para as 961 bibliotecas p\u00fablicas (municipais) espalhadas pelo Estado - dos 645 munic\u00edpios paulistas, apenas\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":2361,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2011\/12\/13\/especialistas-falam-sobre-o-futuro-das-bibliotecas\/","url_meta":{"origin":4625,"position":3},"title":"Especialistas falam sobre o futuro das bibliotecas","author":"mundobibliotecario","date":"13\/12\/2011","format":false,"excerpt":"Ascom FBN - 15\/11\/2011 Nos dias 24 e 25 de outubro, a Biblioteca Nacional convidou especialistas de v\u00e1rias partes do mundo para discutir o futuro das bibliotecas, com foco especial nas institui\u00e7\u00f5es nacionais de cada pa\u00eds. O semin\u00e1rio Biblioteca Nacional + 200 Anos trouxe ao Rio de Janeiro experts e\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]},{"id":8667,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2021\/04\/06\/relatorio-do-estado-das-bibliotecas-dos-estados-unidos-relatorio-especial-covid-19\/","url_meta":{"origin":4625,"position":4},"title":"Relat\u00f3rio do Estado das Bibliotecas dos Estados Unidos &#8211; Relat\u00f3rio Especial: COVID-19","author":"mundobibliotecario","date":"06\/04\/2021","format":false,"excerpt":"A American Library Association publicou em seu site o\u00a0Relat\u00f3rio do Estado das Bibliotecas dos Estados Unidos - Relat\u00f3rio Especial: COVID-19. Em um ano n\u00e3o muito diferente do que vivemos no Brasil em 2019, o texto de apresenta\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio informa que os Estados Unidos enfrentaram n\u00e3o s\u00f3 desafios pol\u00edticos devido\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Not\u00edcias&quot;","block_context":{"text":"Not\u00edcias","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/noticias\/"},"img":{"alt_text":"covid-19","src":"https:\/\/i0.wp.com\/mundobibliotecario.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/covid-19-4975604_640.png?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]},{"id":2631,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2012\/06\/24\/biblioteca-porto-do-saber-curso-formacao-do-leitor\/","url_meta":{"origin":4625,"position":5},"title":"Biblioteca Porto do Saber &#8211; Curso Forma\u00e7\u00e3o do Leitor","author":"mundobibliotecario","date":"24\/06\/2012","format":false,"excerpt":"Biblioteca do futuro: sonho ou realidade? Na pr\u00f3xima quarta-feira dia 27 a Biblioteca Porto do Saber (Praia Grande) sediar\u00e1 o curso: A Forma\u00e7\u00e3o do Leitor Brasileiro e as Novas Plataformas Digitais e Sociais de Leitura dos E-books, E-readers, Tablets, Bibliotecas Digitais e M\u00eddias Sociais, promovido pela Secretaria da Cultura e\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Eventos&quot;","block_context":{"text":"Eventos","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/category\/eventos\/"},"img":{"alt_text":"","src":"","width":0,"height":0},"classes":[]}],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pcbzwa-1cB","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}