{"id":548,"date":"2009-04-20T14:06:11","date_gmt":"2009-04-20T17:06:11","guid":{"rendered":"http:\/\/mundobibliotecario.wordpress.com\/?p=548"},"modified":"2020-07-21T23:54:47","modified_gmt":"2020-07-22T02:54:47","slug":"vale-mais-que-um-trocado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2009\/04\/20\/vale-mais-que-um-trocado\/","title":{"rendered":"Vale mais que um trocado"},"content":{"rendered":"<p>Ambulantes, pedintes e moradores de rua n\u00e3o esperam s\u00f3 por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi<\/p>\n<p>Rodrigo Ratier<\/p>\n<p>&#8220;Dinheiro eu n\u00e3o tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?&#8221; Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de S\u00e3o Paulo o cen\u00e1rio de seu ganha-p\u00e3o. A ideia surgiu de uma combina\u00e7\u00e3o com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse &#8211; e conferiria as rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, acomodei 45 obras variadas &#8211; do cl\u00e1ssico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertid\u00edssimo Divina Albertina, da contempor\u00e2nea Christine Davenier &#8211; em uma caixa de papel\u00e3o no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.<\/p>\n<p>Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma forma\u00e7\u00e3o escolar. Uma pesquisa do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome, realizada s\u00f3 com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que as vias p\u00fablicas s\u00e3o um terreno f\u00e9rtil para a leitura. Notei at\u00e9 certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabe\u00e7a para dentro do ve\u00edculo e examinou o acervo:<\/p>\n<p>&#8211; Tem a\u00ed algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi l\u00e1 que aprendi a ler.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia do c\u00e9lebre novelista americano, o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro &#8211; &#8220;Esse do castelo, que deve ser de mist\u00e9rio&#8221; &#8211; para presentear a mulher que o esperava na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Aos poucos, fui percebendo que o p\u00fablico mais cr\u00edtico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela \u00e9 parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos sem\u00e1foros da cidade, de acordo com n\u00fameros da prefeitura de S\u00e3o Paulo. Num domingo, enfrentava com pa\u00e7ocas a 1 real uma concorr\u00eancia que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, de Machado de Assis.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de S\u00e3o Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha cole\u00e7\u00e3o diminu\u00eda a cada um desses encontros do acaso. \u00c9rico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe ler?, perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230;, disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, j\u00e1 prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Sei, sim.<\/p>\n<p>&#8211; Em que ano voc\u00ea est\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Na 4\u00aa B. Tio, voc\u00ea pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que j\u00e1 se aproximavam.<\/p>\n<p>Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, \u00e9 que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente \u00e0 corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.<\/p>\n<p>Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a rea\u00e7\u00e3o das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina ap\u00f3s esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crian\u00e7as, sentados no meio-fio, folheavam p\u00e1ginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ganhar um livro \u00e9 sempre bem-vindo. A literatura \u00e9 maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que d\u00e3o choques em insetos.<\/p>\n<p>Quase chegando ao fim da jornada liter\u00e1ria, conheci Maria*. Carregava a pequena Vit\u00f3ria*, 1 ano rec\u00e9m-completado, e cobi\u00e7ava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteir\u00f5es e fiz o retorno. Ent\u00e3o, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.<\/p>\n<p>* os nomes foram trocados para preservar os personagens.<\/p>\n<p>Dispon\u00edvel em: . Acesso em: 12 abr. 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ambulantes, pedintes e moradores de rua n\u00e3o esperam s\u00f3 por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi Rodrigo Ratier &#8220;Dinheiro eu n\u00e3o tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?&#8221; Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades &#8230; <a title=\"Vale mais que um trocado\" class=\"read-more\" href=\"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2009\/04\/20\/vale-mais-que-um-trocado\/\" aria-label=\"Read more about Vale mais que um trocado\">Ler mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_jetpack_newsletter_access":"","footnotes":""},"categories":[60],"tags":[366,367,368,369],"class_list":["post-548","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-ambulantes","tag-doacao-de-livros","tag-moradores-de-rua","tag-revista-nova-escola"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":8327,"url":"https:\/\/mundobibliotecario.com.br\/index.php\/2021\/01\/13\/acao-do-sesc-estimula-leitura-em-empresas-de-alagoas\/","url_meta":{"origin":548,"position":0},"title":"A\u00e7\u00e3o do Sesc estimula leitura em empresas de Alagoas","author":"mundobibliotecario","date":"13\/01\/2021","format":false,"excerpt":"Empresas podem se cadastrar para receber livros atrav\u00e9s da biblioteca ambulante do Sesc. 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