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A biblioteca do futuro não terá o livro como centro de gravidade, diz Mélanie Archambaud

Bibliotecária francesa responsável pela rede de bibliotecas de Bordeaux fala ao ‘Estado’ sobre sua experiência, o presente e o futuro desses espaços que estão se reinventado e ganhando novos usos

20 Novembro 2017 | 06h00

“É preciso dessacralizar a biblioteca, fazer retornar a dimensão divertida e prazerosa, criar ecos e cruzamentos entre as propostas culturais e documentais para que um adolescente que venha jogar videgame possa, talvez, deixar a biblioteca com o Conde de Monte Cristo.” A opinião é da francesa Mélanie Archambaud, que já trabalhou no Centro de Informação do Centro George Pompidou e é hoje responsável pela cooperação da rede de bibliotecas públicas municipais em Bordeaux.

A biblioteca do presente e do futuro
A biblioteca deverá ser viva, participativa e conectada Foto: Werther Santana

Nesta entrevista concedida por e-mail, ela fala sobre o presente e o futuro das bibliotecas, e sobre o que podemos aprender com os erros e os acertos da experiência desenvolvida na cidade – por exemplo: muitos conteúdos podem ser acessados pelos usuários em casa e desde outubro as bibliotecas ficam abertas até pelo menos 22h, com uma série de atividades para mostrar aos moradores que muita coisa pode acontecer ali dentro.

As bibliotecas públicas que estão sendo mais bem-sucedidas em atrair pessoas são aquelas que se transformaram (ou foram construídas como) uma espécie de centro cultural, onde os usuários podem escolher livros em estantes como se estivessem em livrarias, assistir filmes e, muitas vezes, ter aulas sobre temas tão diferentes como o uso de smartphones para idosos e robótica. Esse é o modelo que sobreviverá? Essa é a biblioteca do futuro? Como será essa biblioteca do futuro?

A sociedade está evoluindo e as bibliotecas devem evoluir com ela. A biblioteca é um local cidadão cujo objetivo principal é permitir o acesso à informação. Ela tem como finalidade a emancipação e construção de indivíduos na sociedade, permitindo-lhes acessar o conhecimento e a informação do modo mais igualitário possível. Durante muito tempo, este acesso à informação foi baseado apenas no acesso a livros e leitura. Mas hoje, o livro compartilha esse papel com novas maneiras de construir, pensar e divulgar informações que se espalham rapidamente e em massa graças às tecnologias de informação e comunicação de baixo custo.

Nesta Sociedade do Conhecimento, a difusão e o uso da informação flui de forma diferente: a cadeia tradicional descendente da transmissão do conhecimento (do que sabe ao que está aprendendo) é totalmente renovada. As bibliotecas não podem negar essa realidade e, em vez disso, devem integrá-la na sua organização. Não se trata de ser tecnológico para ser moderno ou atraente, mas pensar no acesso às informações que correspondam às práticas e realidades de hoje. A clivagem digital é a de todas as desigualdades entre os grupos no sentido amplo, em termos de acesso à informação, uso ou conhecimento das tecnologias da informação e da comunicação. Ao integrar as ferramentas e práticas digitais no exercício de suas missões, as bibliotecas abrem um novo caminho para o mundo da informação e do conhecimento, ao conectar usuários e os conteúdos para além de quaisquer limites geográficos, sociais e culturais.

Não tenho preocupações com a sobrevivência do livro neste novo modelo de bibliotecas, que agora irá coabitar com o digital. Esses dois apoios são complementares e não contraditórios. Eu mencionei anteriormente uma cadeia de conhecimento “totalmente renovada”, o conhecimento é construído cada vez mais horizontalmente e a comunidade com novas tecnologias, nós o vemos com a Wikipedia, por exemplo, mas também o aumento de movimento como o Faça Você mesmo e as práticas amadoras na sociedade. Aqui novamente, a biblioteca deve aceitar esta nova maneira de construir e acessar o conhecimento. O bibliotecário não é mais um transmissor de conhecimento, ele se torna um mediador que deve imaginar modos mais participativos e horizontais de acesso à informação. Os usuários são detentores de conhecimento e estes são recursos potenciais a serem ativados! Podemos construir coisas com eles. Acredito então que a biblioteca do futuro não é nem mais nem menos que uma organização que permanece atenta a essas mudanças sociais e as integra com benevolência sem julgamento. De fato, nada muda nas missões fundamentais das bibliotecas: lembremo-nos que a biblioteca não é um lugar, mas é sobretudo uma organização dotada da missão de democratização do acesso ao conhecimento e à cultura. Nos novos modelos que você cita, as missões não mudam, mas a organização sim. Na minha opinião, uma biblioteca que é apenas digital é tão inadequada como uma biblioteca que só oferece livros. Em ambos os casos, excluem uma parte da sociedade, modos de acesso ao conhecimento e práticas culturais.

O que foi feito em Bordeaux que poderia servir de inspiração a bibliotecas de diferentes lugares, de diferentes realidades?

Não pretendo colocar a biblioteca do Bordeaux como um modelo, mas posso falar sobre o que nos pareceu pertinente como uma ação e experiência e talvez o que tenha funcionado não tão bem. Muitas vezes, acho até mais interessante falar sobre experiências erradas. Penso que conseguimos uma coabitação interessante entre o digital e o livro. Damos acesso gratuito a uma oferta de filmes, documentários, revistas e cursos on-line que as pessoas podem acessar de casa, o que nos permite expandir e complementar nossas coleções físicas. Os usuários deste serviço também são os que tomam livros emprestados, que para eles é uma extensão de nossas coleções de papel. Tudo é gratuito, até wi-fi, como em muitas bibliotecas francesas, razão pela qual temos muitos públicos vulneráveis que vêm à biblioteca para se manter “conectados” à sociedade. O fato de ser capaz de assistir um filme no local, entrar na internet, ter uma conta em Facebook ou participar de um workshop de alfabetização é muito importante para esses públicos em termos de integração na sociedade. As várias oficinas também são uma oportunidade para promover a coesão social.

Acho que a biblioteca de Bordeaux é uma biblioteca muito inclusiva, onde todos os públicos se encontram. Por exemplo, temos um espaço (Espace Diderot) dedicado a pessoas com deficiência com coleções e equipamentos adaptados e funcionários treinados para receber esse público. A rede de Bordeaux tem 9 bibliotecas e o sistema de transporte permite que você empreste e devolva documentos em qualquer estrutura. Em resumo, nós tentamos facilitar e democratizar ao máximo acesso ao conhecimento por esse tipo de dispositivo menos restritivo possível para os usuários. O registro é gratuito (este não é o caso de todas as bibliotecas francesas), temos um intervalo de horas de abertura relativamente grande em comparação com a média francesa e oferecemos formatos e apoios diversificados, bem como uma oferta mediação cultural de forma que todos os públicos possam encontrá-lo. No entanto, sofremos com a imagem que o público faz – muitos ainda veem as bibliotecas como templos sagrados e não se atrevem a chegar até a porta de uma biblioteca.

É por isso que, em 14 de outubro de 2017, a Biblioteca do Bordeaux lançou a primeira Noite das Bibliotecas Metropolitanas: 28 bibliotecas abertas até às 22h ou meia-noite com atividades excepcionais (DJ, teatro, jogos e disputas de perguntas e respostas, workshops participativos, performances , projeções, etc.) para mostrar bibliotecas sob uma luz diferente. Este grande esforço para promover bibliotecas tem sido extremamente bem-sucedido na região, ajudando a mudar a imagem das bibliotecas no inconsciente coletivo.

Também queremos desenvolver uma oferta ao redor do jogo (não apenas o videogame, mas todos os jogos). Eles são verdadeiros vetores de coesão social que precisamos desenvolver. Nós criamos um espaço para videogames na maior biblioteca de rede, mas precisamos repensar esse recurso. Os bibliotecários muitas vezes temem ter o videogame em bibliotecas: medo da confusão, medo de jogos violentos, etc. Então, pensamos em um espaço onde os jogos foram pré-selecionados e oferecidos por um tempo, antes de serem substituídos por novos jogos. Ou isso não faz sentido algum com os costumes das pessoas! Por que tratar o jogo de forma diferente do livro? Por que não confiar nos usuários em vez de usar especificadores? Portanto, vamos relaxar as regras, emprestar nossos videogames e dar aos usuários a opção de jogar o que eles querem.

As bibliotecas públicas ainda não são digitais no Brasil, não há e-books em seus catálogos. Existem apenas alguns modelos de empréstimo/assinatura para universidades e outros para leitores comuns, geralmente associados a empresas de telefonia móvel. Como esta questão é tratada pela sua instituição?

O problema dos e-books na França ultrapassa as bibliotecas e diz respeito a toda a cadeia do livro. Com os e-books, as editoras enfrentam dificuldades legais e técnicas como a revisão dos contratos de direitos autorais ou a reformulação de certas obras para maior interatividade (som, vídeo, zoom …). Mas o principal problema vem do medo do download ilegal. Todos esses motivos explicam a resistência das editoras e sua relutância em oferecer versões digitais de seus livros. Esta realidade editorial tem um impacto direto nas bibliotecas.

Em 2014, apenas 4% das grandes bibliotecas de leitura pública tinham um serviço de empréstimo de e-book apesar da multiplicação de distribuidores (Bibliovox, Lekti, Numilog, Harmatec, etc.), porque a oferta não é muito desenvolvida pelos editores e insatisfatória para as bibliotecas.

Para não prejudicar editores e autores, o Ministério da Cultura francês lançou o programa “Empréstimos digitais em bibliotecas” em 2012, que permite a articulação entre os diferentes atores: editores e transmissores (catálogo de livros); Livrarias (ofertas de distribuidores para comunidade); bibliotecas e usuários. Nesta plataforma, os livros podem ser baixados ou lidos on-line (streaming).

Mas este sistema muito caro para bibliotecas tem limitações: os livros digitais são muito mais caros do que os livros em papel, compramos o acesso e não e-books, o que significa que as bibliotecas não possuem arquivos digitais (daí a questão da durabilidade da coleção), os livros têm travas digitais (Digital Rights Management), que devem proteger os direitos autorais, proibindo um usuário que comprou um produto para poder duplicá-lo e compartilhá-lo. Mas por causa do DRM, um e-book não é compatível com qualquer ferramenta, o que limita seu uso, além do mais no dispositivo atual, um e-book pode ser emprestado simultaneamente, etc. Em suma, é um serviço caro (demais) às bibliotecas por causa da oferta existente e da complexidade do serviço para o usuário. A biblioteca de Bordeaux, como muitas outras bibliotecas, não pode ficar satisfeita com as condições da oferta atual. Hoje, o problema dos bibliotecários é, portanto, resolver as incertezas legais, de modo que as exceções aos direitos autorais para os livros de papel também permitam os empréstimos digitais. No entanto, mais e mais editores confiam nos leitores e oferecem arquivos sem DRM que vão na direção das bibliotecas, o que abre o caminho que esperamos.

O que as bibliotecas públicas brasileiras podem fazer para se preparar para esse novo tipo de leitura? As bibliotecas escolares já deveriam ser digitais?

A introdução do digital nas bibliotecas deve responder a um objetivo específico. Como qualquer projeto em uma biblioteca, isso deve ser acompanhado por um estudo do público-alvo e suas necessidades. Se a leitura digital não corresponde ao uso do público que se deseja alcançar ou não atende a um projeto de desenvolvimento cultural, não tem muito interesse. As bibliotecas não querem ser ativistas digitais, mas apoiar práticas e trazê-las para seu meio.  A questão não tem sentido no absoluto, mas apenas no prisma do que queremos oferecer ao público. O digital não é um objetivo em si, é um meio para desenvolver a leitura e a criatividade, facilitar o acesso à informação, oferecer novas oportunidades para reuniões e intercâmbios entre gerações, entre culturas, entre pessoas simplesmente. A tecnologia digital é simplesmente uma nova maneira de a biblioteca cumprir suas missões, mas deve ser um meio, como a mediação, a ação cultural ou a política documental.

Desde 2014, o governo brasileiro não compra livros de literatura para bibliotecas escolares. Qual é o risco de uma interrupção dessas?

Eu não sabia disso e acho muito inquietante, como se justifica tal decisão? A literatura juvenil é fundamental para acompanhar a construção de indivíduos. Desenvolve o imaginário, permite, naturalmente, o aprendizado da leitura e acompanha a criança em sua evolução, abordando todas as problemáticas que ele atravessa desde jovem. Ao contrário dos livros didáticos, também é através da literatura infantil que as crianças descobrem o prazer da leitura. As bibliotecas e as escolas são, por definição, lugares de acesso ao saber e ao conhecimento, são serviços públicos nos quais o livro em todas as suas formas deve ter seu lugar porque em outras esferas da criança como família, talvez não haja livros. Se for removido das escolas e a criança não vai para a biblioteca ou não lê em casa (trata-se das mesmas crianças), em que momento se dará o encontro com o livro e o prazer de leitura? A dimensão do prazer da leitura deve ser mantida desde uma idade precoce. A leitura não deve ser exclusivamente associada à escola e com a obrigação do aprendizado. Ao retirar a literatura juvenil das bibliotecas escolares, a leitura é reduzida apenas à sua dimensão pedagógica e utilitarista.

As bibliotecas ainda têm um impacto na formação de leitores? O que mais as bibliotecas podem fazer para ajudar a melhorar os índices de leitura?

Não é porque não lemos livros em bibliotecas que não lemos. Existem muitas outras formas de leitura que não são menos válidas do que a leitura de livros. Ler revistas, ler na internet, ler um filme legendado ou ler quadrinhos também são maneiras de ler que você não se deve desprezar. Lembro-me de um jovem migrante que começou a aprender francês jogando videogames na biblioteca, lendo as instruções do jogo na tela e interagindo com outros jogadores. Há também esta biblioteca que criou um espaço “fácil de ler” com textos simples, imagens e conteúdo multimídia para pessoas que não liam ou mal dominavam o francês. Muitas bibliotecas agora estão optando por oferecer uma cultura menos legitimada, com revistas de celebridades, videogames, oficinas de conversação, treinamento de mídia social… Penso que, desde que admitamos que não há boas e más maneiras de ler, as bibliotecas, sem dúvida, continuarão a ser importantes atores no desenvolvimento da leitura. O que importa é caminhar em meio a um máximo de formas e formatos para que as pontes sejam criadas. É preciso dessacralizar a biblioteca, fazer retornar a dimensão divertida e prazerosa, criar ecos e cruzamentos entre as propostas culturais e documentais para que um adolescente que venha jogar videgame possa, talvez, deixar a biblioteca com o Conde de Monte Cristo. Mas se ele não o faz, não importa, ele terá encontrado outra coisa na biblioteca: simpatia, convívio, troca, diversão, inspiração … coisas tão importantes para a sua formação.

Qual é o problema mais urgente para as bibliotecas hoje? Alguma ideia de como resolvê-lo?

O mais urgente (além de ser apoiado financeiramente pelas autoridades públicas) é que as bibliotecas acompanhem a evolução da sociedade. É preciso que os profissionais da biblioteca sejam treinados para a evolução das práticas. Precisamos desenvolver nossas competências de relacionamento, pedagógicas e digitais. O treinamento me parece fundamental para mudar nossa mentalidade e imaginar a biblioteca do amanhã, uma biblioteca participativa, viva e conectada, que não tem mais exclusivamente o livro como centro de gravidade.

Tradução de Claudia Bozzo

Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,a-biblioteca-do-futuro-nao-tera-o-livro-como-centro-de-gravidade-diz-melanie-archambaud,70002090284>. Acesso em: 4 dez. 2017.

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“Corremos o risco de perder as nossas bibliotecas públicas”, diz professora da UniRio

Haroldo Ceravolo | São Paulo – 23/01/2017 – 15h34

‘A biblioteca pública é fundamental nos tempos de crise’, avalia Elisa Machado, que já atuou no sistema de bibliotecas de São Paulo; para ela, proposta da gestão Dória não é de parceria, mas de terceirização

Nos primeiros dias da gestão de João Dória (PSDB) na Prefeitura de São Paulo, o novo secretário de Cultura paulistano, André Sturm, anunciou a intenção de ampliar a participação de entidades privadas na administração de serviços públicos do setor. Sturm declarou que pretende deixar o Centro Cultural São Paulo e as 54 bibliotecas públicas municipais sob a gerência de OSs (Organizações Sociais).

“OS é uma ideia incrível que já está implementada no estado. Queremos ter o melhor do Estado, que são as políticas, com o melhor do privado, que é a gestão”, afirmou Sturm, ainda no dia 5 de janeiro*.

Organizações sociais são qualificações concedidas pela Administração Pública para entidades privadas, sem fins lucrativos, para que estas possam receber recursos e benefícios, como isenções fiscais, para a prestação de serviços de responsabilidade de Poder Público.

Para Elisa Machado, professora do Departamento de Estudos Biblioteconômicos da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), a proposta que a gestão de Dória quer vender como uma parceria é, na realidade, a tentativa de terceirização do sistema de bibliotecas municipais de São Paulo, o maior da América Latina.

Foto: Reprodução/ Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo

Elisa Machado durante o 7º Seminário Biblioteca Viva, em São Paulo, em novembro de 2014

“A proposta da nova gestão da cidade de São Paulo não é de estabelecimento de uma parceria, mas sim de um contrato de repasse da gestão das bibliotecas pública para as mãos de uma empresa privada. É a terceirização sendo imposta à população. Considero que essa proposta é um equivoco, e é parte do plano que vem sendo implementado pelos governos de direita de desmonte do serviço público, e impactará de maneira negativa no direito da população ao acesso à informação, à leitura e ao conhecimento”, afirma a especialista, líder do Grupo de Pesquisa “Bibliotecas Públicas no Brasil: reflexão e prática” e ex-coordenadora nacional do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Doutora em Ciência da Informação pela USP (Universidade de São Paulo), Elisa Machado, que também foi diretora do Departamento de Bibliotecas Públicas da Cidade de São Paulo, concedeu entrevista exclusiva para o Painel Acadêmico sobre os planos de Dória para o setor. Coordenadora geral do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas da Fundação Biblioteca Nacional entre os de 2011 e 2014, ela falou sobre experiências internacionais na organização de bibliotecas públicas e comentou os problemas enfrentados pelas bibliotecas-parque no Rio de Janeiro.

No final do ano passado, as bibliotecas-parque do Rio, que pertencem ao estado e eram administradas por uma OS, foram obrigadas a fechar as portas depois que o contrato entre o Poder Público e a entidade foi encerrado.

Confira abaixo a entrevista completa com Elisa Machado:

Painel Acadêmico – Uma das primeiras ações da nova gestão na área de cultura foi anunciar “parcerias” para gerir as bibliotecas públicas de São Paulo.  Você trabalhou no sistema. Como vê essa possibilidade?

Elisa Machado: estabelecer parcerias entre o poder público e o privado é legítimo e em certos casos bem-vindo. Há de se fazer parcerias que estabeleçam relações de qualidade entre instituições e pessoas que atuam em diferentes espaços e que têm princípios e objetivos em comum. Nesse sentido, é importante ter claro que o conceito de parceria remete para a ideia de complementaridade e não de dependência. No entanto, o Brasil é um país muito permissível em relação a esse tipo de relação, favorecendo a retirada do Estado dos processos de regulação. Quem falava isso era Milton Santos, há mais de 20 anos, alertando para o perigo do mercado comandar a vida social do país, por meio do terceiro setor. A proposta da nova gestão da cidade de São Paulo não é de estabelecimento de uma parceria, mas sim de um contrato de repasse da gestão das bibliotecas pública para as mãos de uma empresa privada. É a terceirização sendo imposta à população. Considero que essa proposta é um equivoco, e é parte do plano que vem sendo implementado pelos governos de direita de desmonte do serviço público, e impactará de maneira negativa no direito da população ao acesso à informação, à leitura e ao conhecimento.

Painel Acadêmico – O modelo sugerido é semelhante, pelo menos pelo que se compreende do que fala o novo secretário, ao das Fábricas de Cultura, em São Paulo, e das bibliotecas-parque do Rio de Janeiro, que agora estão fechadas. Não corremos risco semelhante?

Elisa Machado: sim, corremos esse risco, pois nesses casos o funcionamento das bibliotecas serão regulados única e exclusivamente por um contrato. Na medida em que ele não é cumprido pelo Estado, a empresa encerrará seus serviços. Foi o que aconteceu no Estado do Rio de Janeiro. Por muitos anos as bibliotecas públicas na cidade de São Paulo sofreram com o déficit orçamentário, mas isso não levou ao fechamento de nenhuma unidade. Sabe por quê? Porque as pessoas que estão no comando ou atuando nesses equipamentos são agentes públicos, comprometidos com a sociedade e com a “coisa pública”. Nesse novo cenário não teremos mais o servidor público e sim pessoas contratadas pela empresa gestora. Uma pessoa contratada em regime terceirizado quando do encerramento de seu contrato, por mais consciência que tenha da sua função social numa biblioteca, não tem como agir a favor daquele espaço ou serviço, diferentemente do servidor público.

Foto: Wikicommons

Centro Cultural São Paulo poderá ser gerido por uma entidade privada na gestão de João Dória

Painel Acadêmico – Como outros países gerem equipamentos como as bibliotecas?

Elisa Machado: penso que a maioria das bibliotecas públicas são mantidas e geridas pelos governos locais, mas não conheço pesquisas que possam confirmar isso.  Nos EUA, por exemplo, além dos recursos governamentais as bibliotecas públicas contam com a possibilidade as fundações e instituições privadas que repassam recursos por meio de apoio a projetos e programas, tal como temos no Brasil a Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo (FAPESP), ou a Petrobrás, que por anos apoiou a formação, desenvolvimento e preservação de acervos de bibliotecas, entre outras ações e atividades culturais. Ainda nos EUA é interessante registrar que a tradição de participação da sociedade nas atividades, serviços e espaços oferecidos pelo poder público tem mantido e fortalecido as ações desenvolvidas pelas Associações de Amigo da Biblioteca. Já no Brasil a sociedade não tem a prática da participação instaurada em seu cotidiano, o que dificulta os trabalhos das poucas associações com esse fim. Na América Latina, o país que se destaca com um diferencial na gestão de bibliotecas pública é a Colômbia, que utiliza as Cajas de Compensación Familiar para a gestão de vários espaços e serviços públicos. É o caso de Medellín, Cartagena, entre outras cidades Colombianas. Mas cabe registrar que essa prática não é a única forma adotada no país: por exemplo, a rede de bibliotecas públicas de Bogotá (BibloRed) é gerida pelo governo local por meio da Secretaría de Cultura, Recreación y Deporte de Bogotá.

Painel Acadêmico – A rede de São Paulo é a maior do país. Você poderia contar um pouco a história dela?

Elisa Machado: o Sistema de Bibliotecas Públicas de São Paulo não é só o maior do Brasil, é também o maior da América Latina. É referência em acervos, serviços e espaços. É resultado da fusão do Departamento de Bibliotecas Públicas e do Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis, ambos criados na década de 1970. Mas, se formos levar em consideração a história das bibliotecas públicas na cidade de São Paulo, é preciso retomar o ano de 1936 quando Mário de Andrade criou a Divisão de Bibliotecas dentro do então Departamento de Cultura. Da década de 1930 até os dias de hoje esse complexo de espaços, serviços e pessoas cresceu e se consolidou na cidade, formando essa grande rede composta por 107 bibliotecas públicas. Passou por momentos áureos e por momentos bem difíceis, como por exemplo durante as gestões de Paulo Maluf e Celso Pita, entre os anos de 1992 a 2000. Mas, a partir de 2001, as gestões subsequentes intensificaram suas ações e retomaram os processos de desenvolvimento e manutenção dos acervos, investiram na reforma e modernização de seus espaços, criaram novos serviços, abriram concurso público para a contratação de bibliotecários, estimularam as alianças com as bibliotecas comunitárias, entre outras ações. Atualmente atende em sua maioria a população que não tem acesso à livrarias, à educação de qualidade e que luta pela sua própria auto formação. Disponibiliza um catálogo online com informações que facilitam a consulta e empréstimo de a toda a população. Oferece uma programação cultural de qualidade e diversificada, sem falar na Biblioteca Mário de Andrade, que nos últimos meses abriu suas portas no horário noturno, atendendo a uma demanda antiga da população. Há de se registrar como histórico também a participação das bibliotecas públicas na construção do Plano Municipal do Livro Leitura e Bibliotecas (PMLLB)  instituído pela Lei no. 16.333 de 18 de dezembro de 2015.

Foto: Gabriela Lissa Sakajiri/ BMA

Corredor de vidro da fachada da coleção circulante da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, que no ano passado começou a atender o público também durante a madrugada

Painel Acadêmico – Elas são pouco frequentadas, caras ou mal geridas, quando comparadas com bibliotecas de outros países?

Elisa Machado: não temos estudos comparativos para responder a essa pergunta. Além disso teríamos que comparar países com condições semelhantes, o que não é muito fácil. Não dá para comparar a gestão de bibliotecas no Brasil com a dos EUA, ou da França e Inglaterra. O México é o país que tem as condições econômicas, sociais, populacionais e territoriais mais próximas do Brasil, para fazermos um comparativo no nível nacional. O México tem em torno de 7 mil bibliotecas públicas, enquanto que o Brasil tem em torno de 6 mil. Assim como o Brasil possui um Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas que apoia e desenvolve atividades de formação de pessoal para atuar nesses espaços, portanto, no âmbito nacional vejo muita semelhança entra ambos. No âmbito municipal o Sistema de Bibliotecas de São Paulo é o maior em abrangência, e referência em termos de gestão e de serviços na América Latina. Vale afirmar que uma biblioteca pública não busca lucro e, portanto, sua gestão não pode ser avaliada somente a partir de dados quantitativos. Sem dúvida, como trata-se de recursos públicos, há de se acompanhar o desenvolvimento dos serviços oferecidos, para melhorar e ampliar a frequência e uso desses espaços e acervos, adequando-os as demandas da atualidade. Todos os recursos destinados às bibliotecas públicas devem ser entendidos como investimento na democratização do acesso à leitura, à informação e ao conhecimento. Numa cidade como a de São Paulo, onde temos por volta de 16 mil pessoas morando na rua e um crescente número de pessoas que encontram-se em situação vulnerável, lhes impedindo de ter acesso a boas escolas e a creches, entre outros direitos garantidos pela Constituição, a gestão das bibliotecas deve estar voltadas prioritariamente para atender as demandas de informação, leitura e conhecimento desse público.

Painel Acadêmico – Tem-se a ideia de que a população não frequenta as bibliotecas de São Paulo. Mas em geral quem fala isso vai pouco às bibliotecas. Não se trata de um lugar comum repetido sem uma avaliação objetiva?

Elisa Machado: se isso fosse verdade não estaríamos vendo a abertura de bibliotecas comunitárias pela cidade afora, aquelas criadas e mantidas por coletivos, em sua maioria de jovens e adultos, que buscam uma forma de melhorar sua condição de vida e o acesso a bens culturais, a exemplo das bibliotecas vinculadas ao Polo LiteraSampa.  Esse discurso recorrente, criado e difundido por uma elite que não frequenta bibliotecas, justamente para preservar as distâncias entre aqueles que têm daqueles que não têm acesso à informação e à leitura, colabora para difundir uma imagem negativa das bibliotecas públicas, favorecendo o projeto de privatização desse novo governo. A biblioteca pública é um dos espaços mais democráticos que uma cidade pode ter e fundamental em tempos de crise.

Foto: Divulgação

Instalada em 2013 na Cidade de Tiradentes, uma das regiões mais pobres de São Paulo, a Biblioteca Maria Firmina dos Reis é temática e conta com mais de 500 livros de temas ligados aos Direitos Humanos, como direito da mulher, do idoso e da criança

Painel Acadêmico – Há uma manifestação marcada para o dia 25/1 contra a privatização das bibliotecas de São Paulo, com um abraço ao Centro Cultural São Paulo. Como você vê essa reação das pessoas à ideia de privatizar esse patrimônio público?

Elisa Machado: Eu vejo com uma atitude muito positiva o povo se unir para defender um espaço público que é reconhecidamente de qualidade. Nós temos que nos unir e defender o que é nosso. Já perdemos muito nos últimos meses com o governo Temer. Perdemos direitos, perdemos riquezas minerais e, agora, na cidade de São Paulo na gestão Dória, estamos correndo o risco de perder as nossas bibliotecas públicas.

(*) Informação da Rede Brasil Atual.

Disponível em: <http://painelacademico.uol.com.br/espaco-alameda/8362-corremos-o-risco-de-perder-as-nossas-bibliotecas-publicas-diz-professora-da-unirio>. Acesso em: 24 jan. 2017.

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52 bibliotecas em 52 semanas (52)

Biblioteca da Floresta – Rio Branco, AC

A Biblioteca da Floresta foi inaugurada em 2007 em edifício moderno e confortável com traços característicos dos ambientes amazônicos. Além de dispor de relevante acervo especializado sobre o estado do Acre e da região, abriga exposições permanentes e temporárias e viabiliza uma série de serviços aliando ações de biblioteca com elementos museológicos.

Fonte: http://www.cazadoresdebibliotecas.com/2015/04/10-belas-bibliotecas-do-brasil.html

 

Nota: Este post é a publicação referente ao dia 04/03/2016, data em que não houve publicação desta série.

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52 bibliotecas em 52 semanas (51)

Rodolfo “Corky” Gonzales Branch, Denver Public Library
O colorido da Rodolfo “Corky” Gonzales Branch o conceito de “biblioteca como estufa”, com uma parede “plenum” de três andares que serve como luz, água e filtro de ar. A parede “viva” divide o edifício e protege a água, facilita um sistema de ventilação de deslocamento passivo, convida e filtra a luz do dia na biblioteca e mostra os sistemas automatizados do edifício aos usuários.

Rodolfo “Corky” Gonzales Branch, Denver Public Library Rodolfo “Corky” Gonzales Branch, Denver Public Library. Photo: David Lauer

Fonte: https://americanlibrariesmagazine.org/2015/09/01/2015-library-design-showcase/

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52 bibliotecas em 52 semanas (50)

Bellevue Branch, Nashville (Tenn.) Public Library

A Bellevue Branch Library reflete uma comunidade reenergizada após ser devastada por uma inundação em 2010. A forma modular alongada do edifício recorda pilhas dos livros, enfatizando a importância de aprender, imaginar, colaborar, fugir e pensar criticamente o desenvolvimento da comunidade e sua revitalização.

Bellevue Branch, Nashville Public Library
Bellevue Branch, Nashville (Tenn.) Public Library. Photo: Zach Goodyear/Aerial Innovations

Fonte: https://americanlibrariesmagazine.org/2015/09/01/2015-library-design-showcase/

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52 bibliotecas em 52 semanas (49)

Wolf Creek Branch, Atlanta-Fulton (Ga.) Public Library System

Projetado em colaboração com o condado de Fulton e as partes interessadas da área, a Wolf Creek Branch Library simbolicamente incorpora o progresso e a conexão da comunidade afro-americana profundamente enraizada de Wolf Creek. O edifício mistura-se com o seu ambiente exuberante, enquanto características como o impressionante telhado inclinado refletem a mobilidade ascendente da comunidade.

Wolf Creek Branch, Atlanta-Fulton Public Library System
Wolf Creek Branch, Atlanta-Fulton Public Library System. Photo: Ron Rizzo/Creative Source Photography, Inc.
Fonte: https://americanlibrariesmagazine.org/2015/09/01/2015-library-design-showcase/

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52 bibliotecas em 52 semanas (47)

East Roswell (Ga.) Branch, ­Atlanta-Fulton Public Library System

O projeto para o East Roswell (Ga.) Branch Library liga com facilidade as áreas arborizadas circundantes, criando uma biblioteca dentro das árvores. Uma ponte coberta leva os usuário para dentro de uma onde linhas, pedra, madeira, outros materiais e produtos naturalmente quentes, e extensões de vidro borram a fronteira entre o espaço exterior e interior.

East Roswell Branch, ­ Atlanta-Fulton Public Library System
East Roswell (Ga.) Branch, ­Atlanta-Fulton Public Library System. Photo: Tonda McKay

Fonte: https://americanlibrariesmagazine.org/2015/09/01/2015-library-design-showcase/

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