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O Efeito Universidade Google

O Efeito Universidade Google
Rafa Spoladore

Fundador e Evangelista na ScientifiCloud

A democratização da informação levou a uma falsa sensação de democratização do conhecimento

por Steven Novella*

Mantenho uma infindável fascinação pelo incrível experimento social que todos nós temos vivido ao longo da última década (e posso dizer que, se você estiver lendo isto, também faz parte desse experimento). A internet e as mídias sociais mudaram o modo como acessamos informação e nos comunicamos. Os sistemas tradicionais, nos quais a dispersão de informação e opinião é de cima para baixo, estão ruindo e sendo substituídos por um sistema majoritariamente de baixo para cima e aberto a todos.

Penso que ainda estamos tentando descobrir todas as consequências dessas mudanças, tanto as intencionais como as involuntárias. Um efeito casualmente observado é que muitas pessoas acreditam erroneamente que têm conhecimento porque elas têm capacidade de fazer “pesquisa” online. A democratização da informação levou a uma falsa sensação de democratização do conhecimento.

Embora o livre acesso à informação seja algo incrível, não há nenhuma maneira sistemática de ensinar ao público como usar essa informação para maximizar seus benefícios e evitar as armadilhas mais comuns. No geral, as escolas estão defasadas sobre isso e não ensinam os alunos como utilizar seu acesso à informação online. A maioria dos adultos terminou o ensino formal antes da onda das redes sociais.

O resultado disso é o “Efeito Jenny McCarthy”. Ela é uma celebridade que pensa que pode substituir um parecer sólido e consensual de especialistas sobre a segurança e eficácia das vacinas por sua própria opinião não especializada pois “ela fez sua própria pesquisa”. Ela é um exemplo óbvio de como a busca por informações online pode dar a alguém uma falsa convicção científica, ilustrando que pode ser extremamente enganoso depender da “Universidade Google”.

Existem algumas armadilhas específicas operando aqui.

A primeira armadilha é o tema de uma série de recentes experimentos publicados por Matthew Fisher, um doutorando em psicologia cognitiva na Universidade de Yale. Ele olhou especificamente sobre o efeito da pesquisa online por informação e a confiança no conhecimento de alguém sobre o assunto. É claro que faz sentido que, ao procurarmos e lermos informações sobre um determinado tema, isso vai aumentar nossa confiança no nosso conhecimento sobre esse assunto. Fisher, entretanto, tentou controlar tantas variáveis quanto podia para ver se havia algum efeito em apenas pesquisar, independentemente de como isso afeta nosso conhecimento real.

Ele descobriu que as pessoas tinham maior confiança no seu conhecimento quando buscavam por determinado assunto em vez de serem levadas diretamente a ele, quando o assunto não tinha nenhuma informação relevante online, quando as pesquisas filtravam as informações relevantes e quando as informações eram lidas na internet em lugar das que são lidas impressas. Assim, mesmo quando a informação verdadeira é controlada, o ato de pesquisar online por si só já aumenta a confiança da pessoa no seu conhecimento.

É óbvio que esses tipos de experimentos são complexos e precisamos replicá-los partindo de diferentes ângulos, mas até aqui tudo indica que ter acesso a uma vasta quantidade de conhecimento e poder vasculhá-lo aumenta nossa consideração pelo nosso próprio conhecimento (independente do acesso a informações relevantes).

Parece-me provável que outros efeitos também ocorrem e o principal deles é oviés de confirmação. Pesquisar online nos dá a oportunidade de extrair uma grande quantidade de informações e escolher (mesmo que inconscientemente) aquela informação que confirma aquilo em que já acreditamos ou no que queremos acreditar. Busque online por informações sobre vacinas e você pode encontrar muita informação que confirma a segurança e eficácia das vacinas ou uma grande quantidade de informação que denigre as vacinas. Escolha qualquer tema controverso e os resultados serão os mesmos.

O viés de confirmação é especificamente poderoso e perigoso porque cria a ilusão de que os dados apoiam nossas crenças pois não temos noção do quanto filtramos e enviesamos essa informação. A internet é uma configuração pro viés de confirmação.

A versão extrema desse fenômeno é o que chamamos de “câmaras de eco”. A filtragem de informações pode dar forma a comunidades online onde uma única perspectiva é expressa e apenas a informação que endossa essa perspectiva é compartilhada, enquanto a informação contrária é excluída ou diretamente combatida. Esse efeito é universal e é válido para sites científicos e céticos como também para os pseudocientíficos.

Outro potencial problema é a confusão entre conhecimento e mestria. Isso muitas vezes pode criar sabichões: pessoas que podem ser muito inteligentes e ter grande quantidade de conhecimento real mas que chegaram a conclusões absurdas e nas quais têm total confiança. E um dos problemas dos sabichões é que eles não se envolvem apropriadamente com a comunidade intelectual que importa.

É extremamente importante se envolver com a comunidade, especialmente com as áreas muito complexas e técnicas do conhecimento. Pode ser muito difícil para qualquer indivíduo ver uma questão complexa de todos os ângulos e considerar todas as perspectivas. Sozinhos, tendemos a criar uma narrativa que faça sentido e nos convencemos cada vez mais de que essa narrativa é verdadeira. Estreitar os laços com uma comunidade intelectual vai desafiar essa narrativa, levando a uma compreensão mais profunda e sutil do tema. Essa é a alma da verdadeira mestria.

Estudar um assunto sozinho pesquisando online pode ser uma fábrica de sabichões, trazendo conhecimentos verdadeiros mas sem o compromisso com as ideias. Consequentemente, ao nos aproximarmos de uma comunidade online tendenciosa e não com uma mais ampla, o efeito das “câmaras de eco” pode nos dar a ilusão de compromisso com a verdade. Isso resulta em pessoas que falsamente acreditam ter conhecimento suficiente em áreas nas quais elas realmente não entendem. O efeito Dunning-Kruger entra em ação e elas não reconhecem o abismo entre a sua formação na Universidade Google no conhecimento de um assunto e a compreensão mais profunda dos verdadeiros especialistas.

Conclusão

A internet pode estar criando um exército de pseudoespecialistas excessivamente confiantes. Há uma série de correções para esse problema no âmbito do indivíduo:

  • Seja humilde. Não pense que um pouco de conhecimento o torna um perito. Respeite as opiniões dos reais especialistas. (Você não precisa concordar com eles, mas, ao menos, leve-os muito a sério.)
  • Compreenda a vantagem natural do consenso da opinião dos especialistas sobre uma opinião individual.
  • Ao pesquisar na internet, saia do caminho e busque por informações que vão contra a sua própria crença ou conclusão. Tente buscar por ambos ou todos os lados do tema e guarde seu julgamento até que você ache que ouviu todos os lados.
  • Entenda que pesquisar online é um arranjo para o viés de confirmação. Se você busca no Google estando logado, isso pode enviesar os resultados. Tente fazer buscas deslogado.
  • Saiba que, além do viés de confirmação, há vieses organizados na internet: câmaras de eco, campanhas de astroturfing e informações ideológicas deliberadamente tendenciosas. Esteja atento a informações falsas e cuidadosamente desconfie dessas fontes antes de confiar nelas.
  • E como sempre, não existe substituto para o ceticismo e o pensamento crítico.

*O doutor Steven Novella é professor e médico neurologista na Yale University School of Medicine.

Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/o-efeito-universidade-google-rafa-spoladore>. Acesso em: 13 jun. 2016.

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Pesquisa do ICMC busca tornar recomendações na internet mais atraentes aos usuários

Assessoria de Comunicação
06-Jan-2014

Trabalho de pós-doutorado utiliza o contexto do usuário para fazer sugestões mais precisas em sites de e-commerce, músicas e informações

Quem faz compras na internet está acostumado com as sugestões que surgem em forma de anúncio nas páginas das lojas online. Desenvolver um método para aprimorar essas sugestões, levando em conta o contexto em que o usuário está inserido enquanto navega pela internet, é o objetivo de uma pesquisa que está sendo desenvolvida no Laboratório de Inteligência Computacional (Labic) do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo Domingues, contexto pode tornar recomendações mais eficientes

Essas sugestões oferecidas pelos sites são chamadas no meio científico de “sistemas de recomendação” e consistem, basicamente, em um sistema computacional que tenta analisar o comportamento de um usuário na internet, identificando seus gostos, suas preferências ou qualquer outra situação que possibilite ao usuário receber algum tipo de sugestão online, como, por exemplo, uma música, um filme, um livro ou outro tipo de produto.

A pesquisa de pós-doutorado, intitulada Aquisição Automática de Informação Contextual para Sistemas de Recomendação Sensíveis ao Contexto foi desenvolvida pelo pesquisador Marcos Aurélio Domingues. Ele explica que, hoje em dia, as empresas que realizam seus negócios pela web oferecem uma vasta quantidade e variedade de conteúdos – dentre produtos, serviços e informações. Por isso, foi estabelecida uma necessidade de descobrir informações sobre o comportamento e interesse de seus clientes para recomendar coisas interessantes ao usuário.

Porém, na maioria das lojas online que encontramos na internet, essas recomendações são feitas de uma forma primitiva. Por exemplo, se você consulta o preço de um tênis em um determinado site, receberá constantes e insistentes recomendações sobre o mesmo modelo de calçado.

Domingues desenvolveu um sistema que leva em consideração diversas variáveis que buscam analisar a situação em que o usuário está inserido para tornar a recomendação mais refinada e precisa. “Se o usuário está no trabalho em uma manhã de segunda-feira, a recomendação precisa ser de uma forma. Já em um domingo à tarde, o usuário receberá outro tipo de sugestão. São esses pequenos contextos que podem fazer a recomendação ser mais eficiente”, explicou o pesquisador.

De acordo com Domingues, um dos grandes desafios para o uso de sistemas de recomendação sensíveis ao contexto é a falta de métodos para aquisição automática de informação para esses sistemas. “O objetivo do meu projeto é a pesquisa, proposta e avaliação de métodos para conseguir informações contextuais, de forma que o usuário receba uma sugestão coerente à situação em que ele está no momento”, disse.

Sugestões de nomes para bebês – Um exemplo de aplicação da pesquisa desenvolvida por Domingues foi utilizado por um site que sugere nomes para bebês aos futuros pais, o Nameling.net. O projeto chegou a ficar, inclusive, em quarto lugar em uma competição internacional de propostas de sistemas de recomendação de nomes, o ECML/PKDD Discovery Challenge 2013, que envolveu instituições de pesquisa de diversos países.

Nesse caso, Domingues explica que a recomendação leva em consideração o local e o horário que a pesquisa está sendo feita. Ou seja, os resultados de uma busca feita por um usuário no Brasil levará a recomendações de nomes que estejam de acordo com o contexto do nosso país. “Os resultados empíricos têm mostrado que podemos melhorar a recomendação de nomes utilizando a informação contextual”, afirmou o pesquisador. O site pode ser acessado pelo link: nameling.net.

Nameling.net é um exemplo de aplicação da pesquisa

Doutorado em Portugal – Antes de iniciar o pós-doutorado no ICMC, Domingues realizou o seu doutorado na Universidade do Porto, em Portugal. Lá, ele participou de outro projeto de pesquisa, em que desenvolveu um sistema para recomendações de música em um site de bandas de garagem. “O interessante desse trabalho é que em um site de bandas desconhecidas, a recomendação de algo novo é fundamental para o usuário”, disse.

O site é o palcoprincipal.sapo.pt, uma rede social especializada em promover e indicar novas bandas e artistas. Domingues explica que desenvolveu o sistema de recomendação combinando os dados de acesso, conteúdo e áudio do site. “Combinamos esses dados para conseguir analisar melhor o comportamento e o contexto do usuário no site”.

Análise de dados – A pesquisa de Domingues no ICMC está sendo desenvolvida sob supervisão da professora Solange Rezende, coordenadora do Labic. Segundo Rezende, o trabalho de refinar a pesquisa em mineração de dados é uma exigência do constante crescimento dos serviços oferecidos na internet. “Descobrir conhecimento a partir de dados e saber interpretá-lo é fundamental para aprimorarmos essa área”, finalizou a professora.

Mais informações:
Assessoria de Comunicação do ICMC
Tel.:  (16) 3373-9666
E-mail: comunica@icmc.usp.br

Texto e fotos: Fernanda Vilela da Assessoria de Comunicação do ICMC

Disponível em: <http://www.saocarlos.usp.br/index.php?option=com_content&task=view&id=15491&Itemid=171>. Acesso em: 7 jan. 2014.

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O futuro da internet e da comunicação sob a ótica de Pierre Lévy

Através de conceitos como “espaços de conhecimento” e “cosmopédia”, ele já prenunciava o surgimento da Wikipédia e a eficácia da disseminação das redes de comunicação digital. Há algumas décadas, aborda as implicações da tecnologia na sociedade, o que culminou em teorias mundialmente conhecidas como a cibercultura e a inteligência coletiva.

Esse é Pierre Lévy, filósofo francês que não esconde seu posicionamento positivo sobre os ganhos da internet e da comunicação para a sociedade. Em um papo sem rodeios, a Administradores conversou com o estudioso e trouxe alguns contrapontos para o filósofo responder em uma verdadeira troca de ideias.

O mundo está passando por um momento de reconfiguração de suas estruturas políticas, econômicas e, portanto, sociais. Qual o papel da internet nisso tudo?
Um papel extremamente importante. A infraestrutura da comunicação se remodelou, e nós ainda não vimos todas as consequências políticas, econômicas e culturais dessa revolução. Nós deveríamos compará-la à invenção da escrita.

Quando conceitua o virtual, você o define como tudo aquilo que tem potência para ser, embora ainda não o seja. Como você analisa, sob a luz dessa concepção, o contexto das mobilizações virtuais atualmente?
Em relação ao “poder de se tornar”, eu diria que a internet abre um novo espaço para a liberdade de expressão, porque todos podem publicar, editar e colher informações – mesmo que não tenha nenhum poder econômico. Duas forças se opõem à atualização deste novo poder: governos ditatoriais, que tentarão ao máximo limitar a expressão do povo, e a falta de alfabetização e educação, para usar ao máximo esse ambiente de comunicação.

Você é bastante otimista ao tratar das possibilidades do ciberespaço em favor da democracia em todos os âmbitos. Como você enxerga as restrições que grupos de poder vêm buscando impor à internet? A rede é mesmo livre e incontrolável?
Eu já comentei sobre governos ditatoriais que tentam limitar a liberdade de expressão. Em relação a grandes empresas da internet como Facebook, Google, Twitter, Amazon e afins, talvez seja bom que elas estejam competindo. As barreiras como a falta de transparência e de interoperabilidade são passageiras. Você não pode esperar que tudo seja perfeito agora. Nós devemos medir e apreciar o progresso a partir dos últimos 10 anos e trabalhar para melhorar futuramente.

Você defende que a internet abre possibilidades para o surgimento de uma “inteligência coletiva”. O mau uso das ferramentas, o excesso de exposição e a banalidade dos temas repetidos e compartilhados à exaustão, por outro lado, não estariam pondo abaixo essa tese?
Apesar de ser contra a censura, não condenarei a estupidez e a banalidade, que são parte da natureza humana e que existem de qualquer forma na mídia tradicional. Meu esforço é para mostrar como nós podemos explorar as novas possibilidades da comunicação a serviço da inteligência coletiva e do desenvolvimento humano.

Com a multiplicação de gadgets, estamos todos cada vez mais virtualmente conectados. Trabalhamos com um computador, saímos conectados com o smartphone, que substituímos pelo tablet quando estamos em casa. O cibernético não estaria matando o orgânico?
Isto é um absurdo, nós sempre usaremos o nosso corpo. O tablet é apenas muito mais prático e poderoso que uma folha de papel estática. A tecnologia é uma extensão do homem, não um substitutivo.

O fato de os serviços necessários à existência da internet estarem vinculados – na maior parte das vezes – a interesses empresariais pode trazer de volta a velha lógica “massificadora” da comunicação e minimizar a importância da informação compartilhada? Em outras palavras: existe futuro para o princípio da neutralidade da rede?
Interesses empresariais não são um mal em si. Negócios oferecem serviços e criam valores. Se você observar a espiral da comunicação, testemunhará que a massificação foi precisamente o efeito da mídia tradicional, e que a diversificação e personalização é o principal efeito do novo ambiente de comunicação. Vá ao Twitter e à blogosfera e veja você mesmo!

Disponível em: <http://www.administradores.com.br/entrevistas/academico/o-futuro-da-internet-e-da-comunicacao-sob-a-otica-de-pierre-levy/117>. Acesso em: 23 mar. 2013.

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Umberto Eco: "O excesso de informação provoca amnésia"

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

PROFESSOR
O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual
(Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas (“são maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como o Protocolo dos sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições – e até gostando de ler livros… pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA – Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco –
 Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco –
 Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA – Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco –
 A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA – Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco –
 Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

ÉPOCA – Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco –
 Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA – O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?
Eco –
 Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty – embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz…

ÉPOCA – Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco –
 Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA – Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco – 
Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA – O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?
Eco –
 Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dosProtocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA – O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?
Eco –
 Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA – A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas? 
Eco – A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L’osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical – e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA – Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?
Eco –
 Eu sou MacDonald’s! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA – Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?
Eco –
 Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan’s Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval emBaudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA – Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco –
 Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA – Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco –
 Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA – Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco – 
Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA – E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?
Eco –
 O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé – e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado… comigo mesmo.

ÉPOCA – O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco –
 Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA – Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco –
 Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve – e não posso condená-los.

ÉPOCA – O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco –
 Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livroCostruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA – Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco –
 Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA – Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco –
 Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA – O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco –
 Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA – O que o senhor faz no tempo livre?
Eco –
 Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA – Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco –
 Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2011/12/umberto-eco-o-excesso-de-informacao-provoca-amnesia.html>. Acesso em: 1 jan. 2012.

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Umberto Eco: “O excesso de informação provoca amnésia”

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário

LUÍS ANTÔNIO GIRON, DE MILÃO

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

PROFESSOR
O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual
(Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas (“são maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como o Protocolo dos sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições – e até gostando de ler livros… pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.

ÉPOCA – Como o senhor se sente, completando 80 anos?
Umberto Eco –
 Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco –
 Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA – Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?
Eco –
 A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA – Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
Eco –
 Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

ÉPOCA – Há uma solução para o problema do excesso de informação?
Eco –
 Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA – O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?
Eco –
 Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty – embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz…

ÉPOCA – Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco –
 Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA – Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco – 
Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA – O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?
Eco –
 Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dosProtocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA – O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?
Eco –
 Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA – A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas? 
Eco – A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L’osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical – e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA – Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?
Eco –
 Eu sou MacDonald’s! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA – Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?
Eco –
 Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan’s Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval emBaudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA – Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?
Eco –
 Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA – Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?
Eco –
 Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA – Como o senhor analisa a literatura contemporânea?
Eco – 
Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA – E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?
Eco –
 O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé – e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado… comigo mesmo.

ÉPOCA – O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco –
 Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA – Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco –
 Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve – e não posso condená-los.

ÉPOCA – O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?
Eco –
 Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livroCostruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA – Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?
Eco –
 Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA – Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?
Eco –
 Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA – O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?
Eco –
 Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA – O que o senhor faz no tempo livre?
Eco –
 Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA – Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?
Eco –
 Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2011/12/umberto-eco-o-excesso-de-informacao-provoca-amnesia.html>. Acesso em: 1 jan. 2012.

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Apontamentos sobre "De Gutenberg à infra-estrutura global da informação: o acesso à informação no mundo em rede"

Em outro livro que li nas férias, especificamente em Janeiro, (“From Gutenberg to the global information infrastructure: access to information in the networked world”, de Christine L. Borgman), achei interessante a citação do trabalho de Bowker e Star (1999) sobre a ideologia nos catálogos, isto é, os termos contidos nos seus registros bibliográficos refletem a presença de uma ideologia de uma determinada época, indicando aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais de um momento histórico.

Posteriormente, Borgman apresenta ao leitor uma reflexão interessante sobre a invisibilidade do trabalho com a informação, identificada em um trabalho de Paisley (1980). No ambiente digital, contudo, esse trabalho tende a se tornar cada vez mais visível na medida em que ferramentas online permitem uma comunicação mais próxima com os usuários, para quem todos os produtos e serviços bibliotecários devem estar voltados. Vale ressaltar que as atividades clássicas de coleta, aquisição, tratamento e disseminação da informação continuam, porém com a adoção de padrões digitais, como o Dublin Core. Além disso, os direitos autorais dos materiais digitais também se colocam como desafios para os bibliotecários, não apenas por se encontrarem em um suporte eletrônico, mas também por permitirem formas de acesso diferenciadas, que devem ser definidas no momento de aquisição dos mesmos.

A questão da invisibilidade do conteúdo e custos de acesso é apresentado em Borgman (1997) e Miller (1997). Primeiramente ela aponta a dicotomia de recursos online e offline, discutindo que muitas fontes de informação encontram-se offline, ou seja, fora da Internet. Isso se deve a recente criação de bases de dados online, iniciada na década de 1970, bem como pelo fato de poucos índices impressos terem sido criados no começo dos anos 1960.

No contexto da informação paga versus livre, a autora discute que muitos materiais de pesquisa, por exemplo, possuem um custo proibitivo para os usuários, como bases de dados e periódicos acadêmicos, que geralmente são assinados por bibliotecas universitárias. Da mesma forma, governos, grupos religiosos ou políticos e ONGs podem prover informação por meio de recursos financeiros próprios. Portanto, a informação nem sempre é gratuita, mas isso ocorre pelo fato do custo da mesma geralmente não ser repassada aos usuários.

Quanto ao valor agregado conteúdo, Borgman (2003) aponta que os usuários devem considerar fatores intangíveis ao conteúdo, tais como integridade da fonte de informação e validade do conteúdo. Para tanto, deve-se contar com a assistência do provedor de conteúdo, por exemplo, de uma base de dados, de modo que dúvidas acerca da busca, formato ou versões do documento possam ser sanadas sem prejudicar a disponibilização e o acesso à informação. Nesse contexto, a autora exemplifica com a importância da qualidade e integridade informação jurídica fornecida para advogados, que pode levá-los a ganhar ou perder uma causa.

Por fim, chamou-me a atenção os trabalhos de Rupnik (1991), Shane (1994), Skvorecky (1991) e Z (1991) sobre a prática do Samizdat na ex-URSS. Nas palavras de Borgman (2003, p. 250, tradução nossa), apoiada pelos autores anteriormente citados, o Samizdat era uma “[…] forma de auto-publicação clandestina, incluindo materiais domésticos banidos pelo governo, traduções de materiais estrangeiros, e outros documentos que eram críticos para as práticas e políticas oficiais.”, o que revela que a prática da censura não é novidade nos tempos atuais, em que Twitter e Facebook derrubam regimes autoritários e, com eles, essa prática.

REFERÊNCIAS

Bowker, G., Star, S. L. 1999. Sorting things out: Classification and practice. MIT Press.

Paisley, W. J. 1980. Information and work. In B. Dervin and M. J. Voigt, eds. Progress in the Commucation Sciences (Vol. 2, pp. 114-165). Nordwood, NJ: Ablex.

Borgman, C. L. 1997c. Now that we have digital collections, why do we need libraries? In C. Schwartz and M. Rorvig, eds. Digital Collections: Implications for Users, Funders, Developers, and Maintainers; Proceedings of the American Society for Information Science Annual Meeting 34, November 1997, Washington, D.C. Medford, NJ: Information Today. pp. 27-33.

Miller, W. 1997. Troubling myths about on-line information. Chronicle of Higher Education 63 (47), A44.

Borgman, C. L. From Gutenberg to the Global Information Infrastructure: Access to Information in the Networked World. London: MIT Press, 2003.

Rupnik, J. 1991. Central Europe of Mitteleuropa? In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 233-266.

Shane, S. 1994. Dismantling Utopia: How Information Ended the Soviet Union. Chicago: Ivan R. Dee.

Skvorecky, J. 1991. Bohemia of the soul. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 115-143.

Z. 1991. To the Stalin Mausoleum. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 283-338.

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Apontamentos sobre “De Gutenberg à infra-estrutura global da informação: o acesso à informação no mundo em rede”

Em outro livro que li nas férias, especificamente em Janeiro, (“From Gutenberg to the global information infrastructure: access to information in the networked world”, de Christine L. Borgman), achei interessante a citação do trabalho de Bowker e Star (1999) sobre a ideologia nos catálogos, isto é, os termos contidos nos seus registros bibliográficos refletem a presença de uma ideologia de uma determinada época, indicando aspectos culturais, políticos, econômicos e sociais de um momento histórico.

Posteriormente, Borgman apresenta ao leitor uma reflexão interessante sobre a invisibilidade do trabalho com a informação, identificada em um trabalho de Paisley (1980). No ambiente digital, contudo, esse trabalho tende a se tornar cada vez mais visível na medida em que ferramentas online permitem uma comunicação mais próxima com os usuários, para quem todos os produtos e serviços bibliotecários devem estar voltados. Vale ressaltar que as atividades clássicas de coleta, aquisição, tratamento e disseminação da informação continuam, porém com a adoção de padrões digitais, como o Dublin Core. Além disso, os direitos autorais dos materiais digitais também se colocam como desafios para os bibliotecários, não apenas por se encontrarem em um suporte eletrônico, mas também por permitirem formas de acesso diferenciadas, que devem ser definidas no momento de aquisição dos mesmos.

A questão da invisibilidade do conteúdo e custos de acesso é apresentado em Borgman (1997) e Miller (1997). Primeiramente ela aponta a dicotomia de recursos online e offline, discutindo que muitas fontes de informação encontram-se offline, ou seja, fora da Internet. Isso se deve a recente criação de bases de dados online, iniciada na década de 1970, bem como pelo fato de poucos índices impressos terem sido criados no começo dos anos 1960.

No contexto da informação paga versus livre, a autora discute que muitos materiais de pesquisa, por exemplo, possuem um custo proibitivo para os usuários, como bases de dados e periódicos acadêmicos, que geralmente são assinados por bibliotecas universitárias. Da mesma forma, governos, grupos religiosos ou políticos e ONGs podem prover informação por meio de recursos financeiros próprios. Portanto, a informação nem sempre é gratuita, mas isso ocorre pelo fato do custo da mesma geralmente não ser repassada aos usuários.

Quanto ao valor agregado conteúdo, Borgman (2003) aponta que os usuários devem considerar fatores intangíveis ao conteúdo, tais como integridade da fonte de informação e validade do conteúdo. Para tanto, deve-se contar com a assistência do provedor de conteúdo, por exemplo, de uma base de dados, de modo que dúvidas acerca da busca, formato ou versões do documento possam ser sanadas sem prejudicar a disponibilização e o acesso à informação. Nesse contexto, a autora exemplifica com a importância da qualidade e integridade informação jurídica fornecida para advogados, que pode levá-los a ganhar ou perder uma causa.

Por fim, chamou-me a atenção os trabalhos de Rupnik (1991), Shane (1994), Skvorecky (1991) e Z (1991) sobre a prática do Samizdat na ex-URSS. Nas palavras de Borgman (2003, p. 250, tradução nossa), apoiada pelos autores anteriormente citados, o Samizdat era uma “[…] forma de auto-publicação clandestina, incluindo materiais domésticos banidos pelo governo, traduções de materiais estrangeiros, e outros documentos que eram críticos para as práticas e políticas oficiais.”, o que revela que a prática da censura não é novidade nos tempos atuais, em que Twitter e Facebook derrubam regimes autoritários e, com eles, essa prática.

REFERÊNCIAS

Bowker, G., Star, S. L. 1999. Sorting things out: Classification and practice. MIT Press.

Paisley, W. J. 1980. Information and work. In B. Dervin and M. J. Voigt, eds. Progress in the Commucation Sciences (Vol. 2, pp. 114-165). Nordwood, NJ: Ablex.

Borgman, C. L. 1997c. Now that we have digital collections, why do we need libraries? In C. Schwartz and M. Rorvig, eds. Digital Collections: Implications for Users, Funders, Developers, and Maintainers; Proceedings of the American Society for Information Science Annual Meeting 34, November 1997, Washington, D.C. Medford, NJ: Information Today. pp. 27-33.

Miller, W. 1997. Troubling myths about on-line information. Chronicle of Higher Education 63 (47), A44.

Borgman, C. L. From Gutenberg to the Global Information Infrastructure: Access to Information in the Networked World. London: MIT Press, 2003.

Rupnik, J. 1991. Central Europe of Mitteleuropa? In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 233-266.

Shane, S. 1994. Dismantling Utopia: How Information Ended the Soviet Union. Chicago: Ivan R. Dee.

Skvorecky, J. 1991. Bohemia of the soul. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 115-143.

Z. 1991. To the Stalin Mausoleum. In S. R. Graubard, ed. Eastern Europe . . . Central Europe . . . Europe. Boulder: Westview Press. Pp. 283-338.

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