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Livraria canadense reinventa a venda de livros

A famosa escritora Margaret Atwood é amiga da CEO das livrarias Indigo e já deu ideias para os negócios

Cerca de dez anos atrás, Heather Reisman, a executiva-chefe da maior cadeia de livrarias do Canadá, tomava chá com a escritora Margaret Atwood, quando esta inadvertidamente lhe deu uma ideia de um novo produto.

Atwood anunciou que planejava ir para casa, colocar meias confortáveis e ler um livro. Reisman achou interessante. Pouco tempo depois, sua empresa, a Indigo, desenvolveu sua própria marca de “meias de leitura” de pelúcia. Elas rapidamente se tornaram um dos artigos característicos da Indigo.

“No ano passado, todos os meus amigos ganharam meias de leitura”, disse Arianna Huffington, cofundadora do HuffPost e amiga de Reisman, que também deu as meias de presente aos funcionários de sua organização, a Thrive.”A maioria das pessoas não tem meias de leitura – não como as da Heather.”

Nos últimos anos, a Indigo lançou dezenas de outros produtos, incluindo esteiras de praia, velas perfumadas, quadros inspiradores, potes de cozinha, pilares de cristal, marmiteiras, kits de cultivo de ervas, conjuntos de facas de queijo de cobre, copos de champanhe sem haste, almofadas e cachecóis.

Pode parecer estranho que uma livraria desenvolva e venda pratos de sopa artesanais e roupinhas de bebê feitas com algodão orgânico. Porém a abordagem da Indigo não é apenas nova, mas também crucial para seu sucesso e longevidade. O conceito de superloja, com grandes espaços contendo 100 mil títulos, tornou-se cada vez mais difícil de sustentar na era do comércio on-line, quando é impossível igualar a vasta seleção da Amazon.

A Indigo está experimentando um novo modelo, posicionando-se como uma “loja de departamentos cultural”, onde os clientes que vêm escolher livros muitas vezes acabam se demorando mais e acabam, por impulso, comprando chinelos de caxemira e massageadores faciais de cristal, ou um jogo de facas para ser usado com um novo livro de receitas paleolíticas.

Ao longo dos últimos anos, Reisman reinventou a Indigo como um estilo de vida, com seções dedicadas à alimentação, saúde, bem-estar e decoração da casa.

Reisman agora está exportando a abordagem da Indigo para os Estados Unidos. No ano passado, ela abriu sua primeira loja americana em um shopping de luxo em Millburn, Nova Jersey, e planeja abrir várias outras na região nordeste.

Indigo, livraria de sucesso no Canadá

Indigo, livraria de sucesso no Canadá

Indigo, livraria de sucesso no Canadá (Bryan Anselm/Divulgação)

O crescimento da Indigo é ainda mais notável, devido aos desafios que as grandes cadeias de livros enfrentam nos Estados Unidos. A Borders, que já chegou a ter mais de 650 lojas, declarou falência em 2011. A Barnes & Noble opera agora 627 lojas (eram 720 em 2010), e a empresa se colocou à venda no ano passado. Ultimamente, vem abrindo lojas menores, incluindo um outlet de 771 metros quadrados no Condado de Fairfax, na Virgínia.

“A variedade da mercadoria é o básico do varejo, e é difícil conseguir isso em uma livraria típica”, disse Peter Hildick-Smith, presidente do Codex Group, que analisa a indústria do livro. “A Indigo descobriu uma maneira de criar uma aura extra em torno da experiência da compra de livros, criando uma extensão física da leitura.”

Durante uma visita à loja de Nova Jersey, Reisman parecia mais ser uma guru da autoajuda ou uma evangelizadora do bem-estar que uma livreira, falando sobre a importância do sono adequado e da hidratação, dos alimentos frescos e do tempo longe do celular.

“Reunimos ideias – grandes ideias – que achamos que vão funcionar”, disse ela.

A atmosfera é íntima, acolhedora e feminina – uma escolha estética que também faz sentido comercial, já que as mulheres representam cerca de 60 por cento dos compradores de livros. Uma seção chamada “A Alegria da Mesa” exibe travessas de cerâmica, vidro ou madeira da marca Indigo com os livros de receitas. A seção de decoração tem xales, almofadas, cestas, vasos e velas perfumadas. Há uma subseção chamada “Em Suas Palavras”, que apresenta livros de memórias e outros relacionados ao ideário feminino. A área chamada “Seu Próprio Quarto” parece um camarim exuberante, com bolsas de couro vegano, xales macios, uma cadeira de veludo, cachecóis e revistas ao lado de livros de arte, design e moda.

Os livros ainda respondem por pouco mais de 50 por cento das vendas da Indigo e permanecem o artigo principal; o estoque da loja de Nova Jersey tem cerca de 55 mil títulos. Mas eles também servem a outro propósito: apelam aos interesses, passatempos, desejos e ansiedades dos consumidores, facilitando a venda e o desenvolvimento de produtos relacionados.

Livraria Indigo, rede canadense

Livraria Indigo, rede canadense

Livraria Indigo, rede canadense (Bryan Anselm/The New York Times)

A Amazon foi pioneira desse conceito décadas atrás, e o explora desde então em sua missão de ser “a loja de tudo”. Essa não é a meta da Indigo, disse Reisman.

“Nessas categorias, fazemos uma verdadeira curadoria. Não queremos ser a loja de tudo. Alguém já está fazendo isso”, disse ela.

Os executivos de editoras, preocupados com as dificuldades crescentes da Barnes & Noble, responderam entusiasticamente à estratégia de Reisman.

“Heather foi pioneira e aperfeiçoou a arte de integrar livros com outros produtos”, disse Markus Dohle, executivo-chefe da Penguin Random House, em um e-mail.

Reisman fez de seus próprios gostos e interesses algo central para a marca. A frente da loja de Nova Jersey apresenta uma seção intitulada “Escolhas da Heather”, com uma mesa de exposição coberta por dezenas de títulos. Uma placa a identifica como “fundadora e executiva-chefe da cadeia, grande amante dos livros e a Heather das ‘Escolhas da Heather’”.

Ela aparece regularmente nas noites de autógrafos e em eventos da loja, e entrevistou autores proeminentes como Malcolm Gladwell, James Comey, Sally Field, Bill Clinton e a falecida Nora Ephron.

Quando Reisman abriu a primeira loja da Indigo em Burlington, Ontário, em 1997, ela já tinha tido sua própria empresa de consultoria e mais tarde foi presidente de uma empresa de refrigerantes e bebidas, a Cott.

Ainda assim, a indústria do livro é idiossincrática, e muitos se perguntaram se a Indigo poderia competir com a maior livraria do Canadá, a Chapters.

O ceticismo desapareceu alguns anos mais tarde, quando a Indigo se uniu à Chapters, herdando suas inúmeras lojas nacionais. A empresa agora tem mais de 200 pontos de venda em todo o Canadá, incluindo 89 “superlojas”. A primeira loja conceitual foi aberta em 2016.

Indigo Books, livraria canadense  Indigo Books, livraria canadense

Indigo Books, livraria canadense (Bryan Anselm/The New York Times)

A nova abordagem provou ser lucrativa: em seu ano fiscal de 2017, a receita da empresa ultrapassou um bilhão de dólares canadenses pela primeira vez. Em 2018, a Indigo relatou um aumento de receita de quase 60 milhões de dólares canadenses em relação ao ano anterior, tornando-se o ano mais rentável da história da cadeia.

A empresa não está imune aos desafios que outros grandes varejistas enfrentam. Em seu relatório de ganhos mais recente, para o terceiro trimestre fiscal de 2019, a Indigo registrou uma queda de receita de mais de US$ 7 milhões e uma diminuição de lucro bruto de quase US$ 16 milhões em comparação ao ano anterior. Entre as razões estavam uma greve postal canadense, o aumento do salário mínimo e renovações das lojas.

O domínio da empresa no Canadá não garante o sucesso nos Estados Unidos, onde é preciso competir não só com a Amazon e a Barnes & Noble, mas com uma onda de renascimento de livreiros independentes. Depois de anos de declínio, as lojas independentes se recuperaram, com cerca de 2.470 locais (eram 1.651 uma década atrás), de acordo com a Associação Americana de Livreiros. E a Amazon chegou ao mercado físico, com cerca de 20 livrarias em todos os Estados Unidos.

Reisman reconhece que a empresa enfrenta desafios com a expansão para o sul. Mesmo assim, ela está otimista e já procura locais para uma segunda loja perto de Nova York. “Estamos desenvolvendo nossa própria abordagem para atrair leitores”, disse ela. “Somos o cara novo”, disse ela, acrescentando em seguida: “Ou a mulher nova.”

Heather Reisman, CEO da Indigo Books, rede de livrarias canadense Heather Reisman, CEO da Indigo Books, rede de livrarias canadense

Heather Reisman, CEO da Indigo Books, rede de livrarias canadense (Bryan Anselm/The New York Times)

Disponível em: <https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/livraria-canadense-reinventa-a-venda-de-livros/>. Acesso em: 16 maio 2019.

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Bibliotecária cria livraria especializada em protagonismo feminino negro

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Três coisas não se jogam fora na França: pães, livros e livrarias

Enquanto livrarias fecham as portas pelo resto do mundo, na França aumentam não só o número de lojas, como também o de livros vendidos. A receita? Impostos e juros menores para o setor e controle de preços dos livros eletrônicos

The New York Times – Elaine Sciolino | 05/07/2012 05:32:57

Os franceses, como sempre, insistem em ser diferentes. Enquanto livrarias independentes fecham nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em muitos outros países, o mercado livreiro francês está se saindo bem. A França ostenta 2.500 livrarias e, para cada livraria de bairro que fecha, outra parece abrir. Entre 2003 e 2011, a venda de livros no país cresceu 6,5%.

 

Alice Dison/The New York Times

 

“Livros são vivos e nós damos muitas vidas a eles”, dizem organizadores da feira de troca de livros que acontece uma vez por mês ao sul de Montmartre, em Paris

Na França, a venda de livros eletrônicos representa somente 1,8% do mercado editorial enquanto que, nos EUA, eles somam 6,4% do total. A França tem uma reverência secular por páginas impressas.

“Tem duas coisas que não se jogam fora na França: pão e livros”, disse Bernard Fixot, proprietário e editor da XO, pequena editora dedicada a lançar best-sellers. “Na Alemanha, o status social criativo mais importante é dedicado ao músico. Na Itália, ao pintor. Quem é o criador mais importante na França? É o escritor.”

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Uma razão mais atraente é a intervenção do Estado. No mundo livreiro que fala inglês, o livre mercado reina; na França, ele é dominado pela fixação de preços.

 

Alice Dison/The New York Times

 

Livraria La Hune, em Paris: crédito com juros reduzidos e isenção de impostos para área considerada “de guerrilha”

Desde 1981, a “lei Lang”, batizada em referência ao seu promotor, Jack Lang, então ministro da cultura, fixou preços para livros em francês. Os livreiros não podem – nem mesmo a Amazon – dar descontos superiores a cinco% do preço definido pela editora, embora a Amazon tenha lutado e ganhado o direito de entregá-los gratuitamente.

Ano passado, enquanto os editores franceses assistiam horrorizados aos livros eletrônicos roubarem o mercado do livro impresso nos EUA, eles tiveram sucesso ao conseguir que o governo também fixasse o preço da versão digital. Agora, as editoras decidem o preço dos eletrônicos; outros descontos são proibidos.

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Também existem instituições financiadas pelo governo que oferecem subsídios e empréstimos sem juros a futuros proprietários de livrarias.

O contraste entre o destino das livrarias de língua francesa e inglesa pode ser visto em Paris hoje em dia.

Em julho, depois de 30 anos de funcionamento, fechará a principal livraria de língua inglesa de Paris. Durante uma geração, autores como David Sedaris, Susan Sontag, Raymond Carver e Don DeLillo proferiram conferências e fizeram leituras na loja, Village Voice, numa das ruas mais chiques de St.-Germain-des-Pres.

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“Quando Stephen Spender falou, Mary McCarthy estava na plateia”, Hazel Rowley escreveu num ensaio de 2008 sobre a livraria. “Certa noite, Edmund White apresentou Jonathan Raban, contando com Bruce Chatwin entre os ouvintes.” Todavia, a Village Voice não conseguiu sobreviver aos grandes descontos da Amazon e dos vendedores de livros eletrônicos.

O espectro da perda pairava numa festa realizada em 16 de junho, quando centenas de simpatizantes se acotovelaram pela loja e se espalharam na rua estreita para lamentar seu passamento.

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“Quero que saibam que foi um privilégio recebê-los para se sentar comigo no meu apertado e sombrio gabinete nos fundos da livraria, para bater papo, falar acerca de livros, do trabalho, da vida”, afirmou Odile Hellier, fundadora e proprietária. “Sentirei falta desses momentos com carinho e somente posso esperar que venha a existir outro gabinete pequeno e sombrio no qual possa me sentar e trocar ideias, e tudo o mais.”

Talvez seja numa livraria de língua francesa como a L’Usage du Monde, do outro lado da cidade, no centro do enobrecido bairro do 17º Arrondissement, a qual vai celebrar seu primeiro aniversário em agosto.

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Os donos, Katia e Jean-Philippe Perou, receberam subsídios do Centro Nacional do Livro, do Ministério da Cultura, da prefeitura de Paris e um empréstimo sem juros de um grupo com o desajeitado nome de Associação para o Desenvolvimento da Livraria da Criação.

“Não poderíamos ter aberto a livraria sem os subsídios recebidos”, disse Perou. “E não poderíamos sobreviver agora sem os preços fixos.”

Além das aparências, existem as previsões de que a França somente está atrasando o inevitável e que, cedo ou tarde, as forças do mercado vão prevalecer. Apesar do apelo da livraria de bairro, 13% dos livros franceses foram comprados pela internet em 2011.

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Um acordo que o Google anunciou, em junho, com a Associação das Editoras Francesas e a Société des Gens de Lettres, um grupo de escritores deve permitir que as editoras ofereçam versões digitais de suas obras para o Google vender. Até agora, a venda dos livros digitais na França e em boa parte da Europa foi retardada em parte por causa das disputas pelos direitos.

“Estamos numa época de exploração, tentativa e erro, de experimentação”, escreveu Bruno Racine, presidente da biblioteca nacional do país, no livro de 2011, “Google et le Nouveau Monde”. “Muitos cenários são previstos. Certamente, o menos provável é o da resistência vitoriosa do livro de papel.”

Um estudo de 59 páginas do Ministério da Cultura, de março, fez recomendações para retardar o declínio das vendas de livros impressos, como limitar o aumento do aluguel das livrarias, fundos de emergência para livreiros oriundos do setor livreiro e uma maior cooperação entre o segmento e o governo.

“Tocar uma livraria é um esporte de combate”, conclui o relatório.

Uma operação minúscula determinada a preservar o livro impresso é o Circul’livre.

No terceiro domingo de todo mês, a organização ocupa uma esquina da Rue des Martyrs, ao sul de Montmartre. Um pequeno grupo de aposentados classifica livros usados por tema e os exibe em engradados abertos.

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Os livros não estão à venda. Os clientes simplesmente pegam quantos livros desejarem desde que aceitem um código de honra informal de não vender nem destruir sua generosidade. Eles são convidados a deixar exemplares antigos, num sistema que mantém o estoque abastecido.

“Livros são coisas vivas”, disse Andrée Le Faou, uma das organizadoras voluntárias, enquanto agarrava a biografia em três volumes do rei Henrique IV. “Eles precisam ser respeitados, amados. Nós lhes damos muitas vidas.”

Disponível em: <http://economia.ig.com.br/empresas/comercioservicos/2012-07-05/tres-coisas-nao-se-jogam-fora-na-franca-paes-livros-e-livrarias.html>. Acesso em: 6 jul. 2008.

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