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Empreitadas digitais do livro

Terceira edição do Prêmio Kindle de Literatura segue com inscrições abertas até 15 de outubro

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Ricardo Garrido, gerente geral de aquisição de conteúdo para Kindle: “Em 2012, tínhamos 12 mil livros digitais em português; hoje, temos mais de 150 mil”

 

 

Foi durante uma oficina de criação literária ministrada pelo escritor Marcelino Freire em São Paulo, no ano de 2009, que Gisele Mirabai desenvolveu a narrativa de “Machamba”. Autora de livros infanto-juvenis, ela enxergou, no encontro, a oportunidade de fazer crescer a história que havia acabado de criar, sobre uma mulher que vive em Londres e tenta achar o elo perdido com a infância.”Era um romance no qual eu acreditava muito e, contando com o apoio do Marcelino, tentei publicá-lo por uma ou outra editora”, conta. “Porém, obtive a resposta que a maioria dos escritores escuta: ‘Seu livro não se encaixa no nosso perfil editorial’ ou ‘daqui a seis meses te damos uma resposta’. Com isso, fiquei sem saber o que fazer com um livro que, na minha visão, tinha muita qualidade”, afirma a autora.

Diante das poucas perspectivas de inserção no mercado editorial composto pelas grandes casas de publicação, Gisele percebeu as veredas se abrindo quando, zapeando pela internet, leu sobre o Prêmio Kindle de Literatura, criado pela Amazon em parceria com a editora Nova Fronteira. O concurso, além de R$ 20 mil, garantia à pessoa vencedora a publicação da obra em versão impressa pela editora parceira.

Para participar do projeto, o primeiro passo foi se cadastrar na plataforma da Amazon, Kindle Direct Publishing (KDP), destinada à autopublicação de autores independentes. A autora concorreu con outros 2,2 mil romances de todo o Brasil e conquistou o prêmio.

“A partir da conquista do prêmio, tudo mudou para mim nesse cenário porque, no processo de publicação do livro, passei a ver o e-book como um meio direto para chegar ao público”, explica Mirabai. “Usei a ferramenta de autopublicação, a priori, apenas para participar do concurso e, com o tempo, vi como ela foi efetiva. Hoje, tenho um contato híbrido: tanto com a Nova Fronteira, para o livro impresso, quanto com o KDP, que continua mantendo meus direitos sobre a obra”.

Oportunidade

Contar a travessia de Gisele para publicar sua mais recente obra é ato oportuno neste momento. Desde o último dia 15 de agosto que as inscrições para a terceira edição do Prêmio Kindle de Literatura estão abertas, ficando disponíveis até 15 de outubro. O vencedor receberá um prêmio de R$ 30 mil e iniciará um contrato com a Editora Nova Fronteira para a publicação do título em versão impressa.

Os cinco finalistas serão divulgados entre 21 e 31 de janeiro de 2019; já o nome da pessoa vencedora será anunciada entre 18 e 28 de fevereiro. Serão reservados 60 dias para a publicação do livro de forma independente no site da Amazon por meio da Kindle Direct Publishing. As histórias serão avaliadas por um painel de especialistas editoriais selecionados pela Nova Fronteira e a Amazon, incluindo o poeta e crítico literário, membro da ABL, Antônio Carlos Secchin.

Gerente do KDP na Amazon Brasil, Talita Taliberti conta que, desde que foi lançada no País, em dezembro de 2012, a plataforma tem gerado um retorno positivo para o cenário de autopublicação nacional.

“A gente tem dezenas de milhares de autores na nossa ferramenta e temos crescido fortemente a cada ano. O mais interessante é que ela está sendo procurada inclusive por escritores consagrados, como é o caso do Mário Sérgio Cortella, que recentemente publicou o primeiro livro dele, ‘Descartes: A paixão pela razão’ – fora de circulação há mais de 15 anos – em uma versão exclusiva em e-book pelo KDP”, dimensiona.

De acordo com a profissional, a intensa procura no meio digital quando o assunto é literatura – tanto no ramo da criação quanto no consumo – sinaliza um importante aspecto a considerar sobre o esquema produtivo do ramo impresso.

“Acredito que a grande dificuldade do mercado impresso de inserir novos autores em seu contexto é porque o modelo das editoras é bastante caro. Tem a margem do varejo e toda uma estrutura produtiva, que envolve custos com editoração, gráfica, estoque? A cadeia é grande, o que faz com que seja muito difícil as casas apostar no nome de um autor desconhecido”, detalha.

Integração

Apesar da aparente dicotomia combativa entre impresso e digital – que insiste em pautar os assuntos quando se trata de mercado editorial -, Taliberti pensa na direção contrária. A gestora visualiza um processo de integração entre os dois suportes, com os novos modelos de produção e consumo do livro surgindo para otimizar o tempo de leitura das pessoas.

“Eu não enxergo o mundo digital ‘matando’ o impresso de jeito nenhum. Creio que o livro digital veio muito para complementar, dar mais opções ao leitor. Temos que pensar que, hoje, estamos brigando pelo tempo das pessoas para ler, e não se elas estão lendo livros físicos ou digitais. Diante da quantidade de opções de entretenimento, garantir a opção da leitura é mais uma oportunidade de todos continuarem investindo no consumo dessa arte”, opina. E completa: “A gente vê, inclusive, que os livros digitais ajudam a vender o livro impresso. Quando olhamos no nosso site, em geral a obra em formato digital incrementa a venda em versão física. Então, a questão é complementaridade”.

Balanço

Gerente geral de aquisição de conteúdo para Kindle, Ricardo Garrido ajuda a endossar, com números, o panorama da literatura feita e consumida no ramo virtual. De acordo com ele, “o livro digital está no seu sexto ano no Brasil. Quando a Amazon chegou por aqui, em 2012, tínhamos 12 mil livros digitais disponíveis em português; hoje, temos mais de 150 mil, um aumento que tem a ver diretamente com a questão da adesão do público e também das editoras”.

Garrido afirma ainda que, atualmente, todas as editoras estão lançando os livros em formato impresso e digital praticamente de forma simultânea. Tal método de publicação das obras ajuda na visualização da recorrência de leitura que o público brasileiro adquiriu com o passar do tempo.

“Temos uma informação de que a pessoa que compra ou passa a ler livros digitais continua a comprar livros impressos e passa a gastar de três a quatro vezes mais com livros do que ela gastava antes”, detalha. “Acaba-se, então, intensificando a experiência de leitura das pessoas porque elas encontram mais facilmente os livros e podem lê-los de uma maneira mais democrática, valendo-se do livro físico ou contando com a acessibilidade digital”, complementa.

Estratégia

Indagado sobre como é manter um estande feito o da Amazon – gigante do comércio online de livros – em uma das maiores feiras de livro do mundo, Ricardo Garrido é enfático: “Vejo a Bienal como uma celebração nacional do livro e da literatura. E o livro não tem um formato necessariamente definido. Porém, já que trabalhamos com outro formato, consideramos variáveis diferentes para escoar o material”.

“Atuamos por meio de duas frentes: uma que é expandir a seleção de livros e outra que é oferecer uma maneira, preço e usabilidade que os clientes se interessem. Melhorando a experiência de leitura, removemos as barreiras de acesso”, raciona. “No fim das contas, o que importa é ler”.

Disponível em: <http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/empreitadas-digitais-do-livro-1.1995030>. Acesso em: 12 set. 2018.

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O livro digital e suas implicações jurídicas

O livro digital e suas implicações jurídicas

Disponível em: <https://ebookpress.wordpress.com/2015/07/17/o-livro-digital-e-suas-implicacoes-juridicas/>. Acesso em: 7 ago. 2015.

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7 agosto 2015 · 12:37 pm

Livros digitais ajudam a revigorar bibliotecas públicas

Livros digitais (Foto: Tom Pennington/Getty Images)Em bibliotecas, livros de papel dividem espaço agora com os digitais (Foto: Tom Pennington/Getty Images)

Logo ao entrar na Biblioteca Pública de Nova York, em Nova York, os leitores encontram a frase: “A biblioteca é esperança, é conhecimento, e é poder”. Depois da recepção, podem andar pelos corredores ou ir logo ao catálogo procurar o que lhes interessa. Com o número da carteirinha de sócio, podem retirar até 12 títulos de uma vez, a qualquer hora dia, sete dias por semana. E, então, decidir se vão ler a obra no smartphone, e-reader, tablet ou no computador, além de escolher o tamanho da letra e fazer grifos usando apenas o dedo. É assim o caminho feito pelos usuários do acervo digital da instituição, acessado de qualquer dispositivo digital, pela internet. Os leitores não precisam mais ir fisicamente à entidade para pegar livros emprestados. Mas a biblioteca centenária vê sua força revigorada com a popularização dos e-books. Aumentou o número de visitantes físicos aos seus prédios depois que foram abertas as portas às estantes virtuais da instituição.

>> O livro digital chega à escola. Quais são as vantagens para professor e aluno? 

Com seus 34 mil títulos (quase 95 mil exemplares), o acervo digital ainda é muito pequeno comparado com a coleção em papel da Biblioteca Pública de Nova York, que tem quase 6 milhões de exemplares para empréstimo. Mas a demanda pelos livros digitais cresce rapidamente. “Nos últimos cinco anos, a oferta cresceu oito vezes. Todos os dias, há mais pessoas adotando a leitura eletrônica como um estilo de vida e indo à biblioteca em busca desse novo formato. São os leitores que pedem a ampliação do acervo digital”, diz Christopher Platt, diretor de coleções e operações de circulação da instituição.

Usuários de todas as idades têm interesse por esses livros, e eles são especialmente atraentes para os idosos, por permitirem ajustes no tamanho do texto. A equipe da biblioteca oferece até cursos presenciais para ensinar a usar o e-reader e instalar o software de empréstimos.

Assim como mais de 22 mil bibliotecas em diversas partes do mundo, tanto públicas quanto de escolas e universidades, a de Nova York usa um sistema chamado OverDrive, que armazena e-books em uma nuvem e oferece empréstimos por tempo limitado, variável conforme o título. Muitos deles têm filas de espera. Por isso, nenhum pode ser renovado, mas pode ser “retirado” novamente se não houver reserva.

O modelo atrai o interesse até de quem vive longe dos Estados Unidos ou do Reino Unido, dois países com grande quantidade de acervos digitais, e surge a pergunta: por que liberar o acesso apenas aos moradores de uma determinada cidade ou bairro? Por que não permitir, por exemplo, que um brasileiro possa emprestar um e-book no Texas? As instituições dizem que o impedimento é econômico, já que são os impostos locais que ajudam a sustentar as iniciativas.

>> As principais opções de e-reader no mercado 

Mas há iniciativas que visam a universalizar o acesso ao conhecimento – uma das características da era da internet. Em 1996, o ativista Brewster Kahle criou o chamado Internet Archive, um dos primeiros arquivos digitais gratuitos na web. Em sua descrição, o site deixa clara a posição sobre o tema: “As bibliotecas existem para preservar os artefatos culturais da sociedade e oferecer acesso a eles. Se as bibliotecas vão continuar a promover a educação nesta era da tecnologia digital, é essencial que elas estendam essas funções para o mundo digital”. Outra iniciativa, mais recente, é a da Biblioteca Pública Digital Americana, que deve ser inaugurada em abril, conforme mencionado na reportagem de ÉPOCA A prova do livro digital. O site oferecerá, gratuitamente, o acervo em domínio público de diversas bibliotecas acadêmicas dos Estados Unidos, sob a coordenação de um departamento da Universidade de Harvard.

Além do desafio de ampliar o acesso a e-books, as bibliotecas digitais sofrem para aumentar a quantidade de títulos e exemplares. Algumas editoras elevam os preços e limitam o número de vezes ou o período de tempo que cada um pode ser emprestado, porque ele não se deteriora com o tempo, como ocorre com o papel. Os contratos, então, obrigam bibliotecas a adquirir novas licenças com o passar do tempo.

>> Obras de autores consagrados são sucesso no formato digital 

Nem todas as editoras permitem empréstimos do novo formato. Acabam vendendo os títulos apenas para livrarias. No entanto, o diretor de marketing da OverDrive, David Burleigh, afirma que há sinais de mudança. Há poucas semanas, uma das maiores editoras americanas, a Macmillan, aceitou liberar e-books para bibliotecas. “Com certeza isso ajuda a popularizar o formato e aos poucos as editoras vão percebendo as vantagens da estratégia”, diz Burleigh.

Enquanto outros países discutem ampliação de acervos e do acesso, no Brasil mal há planos de investimentos na área digital e as bibliotecas lutam para manutenção dos espaços físicos. “O cenário realmente não é estimulante. Ainda faltam materiais impressos”, afirma Dulce Baptista, coordenadora do curso de Biblioteconomia da Universidade de Brasília. Mas ela é otimista e avalia que nos próximos anos o país terá políticas públicas na área que invistam em novas tecnologias. “A demanda da população fará com que isso ocorra.”

No país, quem começou a trilhar o inevitável caminho para a digitalização são as universidades. A expectativa é que esses laboratórios sirvam de referência e ajudem a promover a renovação das nossas bibliotecas públicas – antes que elas virem depósitos de livros empoeirados. A experiência da Biblioteca de Nova York mostrou que a tecnologia pode levar os livros para as nuvens e trazer os leitores de volta, no mundo real.

Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com//cultura/noticia/2013/03/livros-digitais-ajudam-revigorar-bibliotecas-publicas.html>. Acesso em: 19 mar. 2013.

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Escolas particulares adotam os livros digitais

TOQUE AIunos do ensino médio da Escola Internacional de Alphaville usando seus tablets. A aula de química ficou mais interessante (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)TOQUE AIunos do ensino médio da Escola Internacional de Alphaville usando seus tablets. A aula de química ficou mais interessante (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

A agitação dos alunos é a mesma de todo início de aula, em qualquer escola e em qualquer turma de garotas e garotos com seus 15 anos. Embalados pelo calor de uma tarde de fevereiro, falam alto e dão risadas. Como sempre, o professor gasta preciosos minutos da aula para acalmar o grupo, usando frases que soam familiares. “Vamos sentando, pessoal”, “Por favor, a aula vai começar”, “Gente, vamos lá, silêncio”. Aos poucos, o volume da conversa diminui, eles se sentam, tiram o material das mochilas. É quando chega aquele momento em que se espera ouvir outra frase-padrão: “Peguem seus livros e abram na página tal”. Em vez disso, Adalberto Castro, que ensina química para o ensino médio, pede a seus alunos que abram seus tablets. “Baixem os aplicativos Chemical e PSE”, diz. “Vamos usá-los nesta e na próxima aula.” A partir daí, as coisas começam a parecer um pouco diferentes do que numa aula tradicional sobre moléculas.

>> As principais opções de e-reader no mercado
Castro trabalha na Escola Internacional de Alphaville, em São Paulo, uma das poucas escolas particulares do país que adotaram livros didáticos digitais acessíveis por tablets. A chegada das obras de editoras como Ática, Scipione, FTD e Moderna aos colégios é o primeiro movimento significativo, desde o início da febre dos tablets na escola, em direção a uma mudança concreta no ensino. Há cerca de um ano, os aparelhos serviam mais como marketing que como material didático. Passada a euforia da novidade, agora as escolas começam a experimentar, de maneira mais planejada, seu uso em sala de aula. O conteúdo do currículo escolar acessível pelo tablet ajuda a descobrir o que se ganha colocando aparelhos caros, frágeis e fascinantes na mão de professores e alunos.
Em janeiro, o Ministério da Educação – comprador de cerca de 80% dos livros didáticos – anunciou que abrirá licitação para livros didáticos digitais. Eles serão adotados nas escolas públicas de ensino médio em 2015. Dois meses antes, o governo distribuiu tablets para os professores das mesmas escolas, em treinamento para usá-los.

a mensagem 771 livro digital (Foto: reprodução/Revista ÉPOCA)

Há diferentes modelos de livro didático digital. O mais simples é apenas uma cópia do livro impresso em capítulos, que pode ser acessada por qualquer computador. Esse modelo existe há algum tempo. Há uma versão um pouco mais sofisticada, que se limita a incluir no livro de papel, ao longo dos capítulos, endereços eletrônicos. Esses endereços são acessados pelos alunos num portal de conteúdo didático, desenvolvido pela editora, que armazena complementos eletrônicos ao livro impresso. O que chega agora nas escolas é algo distinto. São coleções inteiras de livros de diferentes disciplinas, feitas para usar no tablet. Esse livro virtual reúne textos dos livros de papel e recursos multimídia. Sem sair do livro ou do tablet, alunos e professores podem ver vídeos, tocar músicas, entrar em galerias de fotos, baixar aplicativos, consultar gráficos animados e a internet. O professor tem seu próprio tablet, de onde pode acessar o aparelho dos alunos para fazer intervenções, como grifar trechos de um texto.

>> Livros digitais ajudam a revigorar bibliotecas públicas 
A combinação entre conteúdo didático digital e as peripécias de que um tablet é capaz se conectado à internet é uma isca para escolas, professores e alunos. Algumas vantagens surgem de cara. A primeira é atrair a atenção dos alunos para o conteúdo. Engajar o aluno na aula é um dos maiores desafios dos professores. Eles lançam mão do tablet para se aproximar dos alunos, e os alunos, do que será ensinado na aula. “O envolvimento da turma numa aula com tablet é visivelmente maior”, afirma Silvana de Franco Rodrigues, diretora pedagógica do Colégio Piaget, de São Paulo. “A vantagem de ter um aluno motivado é que há mais chance de ele se interessar pelo assunto da aula”, afirma Cristiano Mattos, pesquisador do ensino de ciências da Universidade de São Paulo (USP).

Os professores afirmam que conseguem aproveitar melhor os 50 minutos da aula. Sandra Hoefling Petracco, professora de português e literatura do Piaget, costuma incrementar suas aulas com trechos de filmes, músicas e outros recursos multimídia. É um alívio para ela não ter mais de se virar com televisão, DVD, projetor, computador, pen drives. Sandra começou a usar o tablet com conteúdo didático digital neste ano, com seus alunos do ensino médio. “Perdia um tempão colocando todos esses aparelhos para funcionar”, diz. “O conteúdo da aula no tablet me dá todos os recursos com um toque. Com isso, tenho mais tempo para circular pela classe e interagir com os alunos.”

>> Obras de autores consagrados são sucesso no formato digital
Apesar do tom de euforia, os educadores ainda têm dúvidas sobre como usar o livro digital. Mesmo as escolas que planejam adotar tablets há pelo menos dois anos estão cautelosas. “Estamos numa fase inicial, avaliando como e quando usar”, diz Cristiana Mattos Assumpção, coordenadora de tecnologia educacional do Colégio Bandeirantes, de São Paulo. Lá, apenas algumas disciplinas do ensino médio do colégio usam o livro didático digital. Os tablets são testados com um grupo pequeno de alunos. Na Escola Internacional, todos os alunos do ensino médio usam um aparelho, que levam de casa (quem não tinha teve de comprar), mas não em todas as disciplinas. Para os menores, a opção foi fornecer os tablets usados em algumas aulas. Eles circulam pelas classes num carrinho que serve ao mesmo tempo de armário e carregador de bateria. Em ambos os casos, os alunos são os responsáveis pela segurança dos aparelhos.
Dentro da sala de aula, os professores têm liberdade para montar suas aulas. O professor Adalberto Castro usa exclusivamente o tablet em todas as aulas. Sandra, do Piaget, usa em aulas esporádicas – e, mesmo assim, com material impresso. Nenhuma das escolas abandonou o livro impresso – nem pensam que algum dia isso acontecerá. “A opção é dos professores”, afirma Francisco Mendes, coordenador de tecnologia educacional da Escola Internacional. Doutor em educação e professor há 25 anos, ele é o responsável por orquestrar as experiências de sala de aula. “Assisto às aulas com tablets, do fundo da sala, para observar o que faz sentido para o aprendizado do aluno e apontar o que pode ser melhorado”, diz.

A nova história do velho livro (Foto: reprodução/Revista ÉPOCA)

O potencial dos livros didáticos digitais ainda está longe da atual realidade das salas de aula. Eles poderão ser mais eficientes se associados a sistemas de monitoramento e avaliação de desempenho. Esses sistemas conseguem medir como o aluno usa o material para estudar em casa. Fazem estatísticas para avaliar o grau de acerto, o tempo usado em cada lição ou estudo e outros indicadores que mostram se um aluno está com dificuldades ou se uma turma inteira está ficando para trás. Isso dá tempo à escola ou ao professor para intervir. Também permite que o professor adapte o ensino a alunos com ritmo e estilo diferentes. Alguns entenderão a reprodução celular com um gráfico, outros com um vídeo, outros ainda gostarão de um texto. Outra vantagem dos sistemas de ensino digital é que os trabalhos, feitos on-line, ficam para sempre acessíveis ao aluno. Ninguém precisa guardar pilhas de cadernos velhos no alto do armário.
A consulta, com funções de busca por assunto ou palavra-chave, é melhor para relembrar alguma lição aprendida em anos passados. Esses sistemas já existem no mercado brasileiro. Falta fazer a integração com o conteúdo didático.
Se todas essas vantagens dos livros didáticos digitais melhorarão o ensino é o que realmente importa. Como garantir que o encantamento dos alunos pelo tablet no início do ano vire nota boa no final? Essa discussão não começou com o livro didático digital. Nem com os tablets. Antes, havia o laptop. Antes deles, os laboratórios de informática. Estudiosos do uso de tecnologia na educação afirmam que a migração dos livros didáticos para o meio digital é uma excelente oportunidade para turbinar o aprendizado. Mas há medidas cruciais para que essa oportunidade se concretize. “O conteúdo dos livros é apenas uma parte do processo de aprendizado”, afirma Cesar Nunes, consultor internacional de tecnologia e educação.
A outra é o professor, que nunca teve papel tão essencial quanto agora. “Virei uma estudiosa de aplicativos”, diz Sandra, do Piaget, professora há quase 40 anos. Antes de optar pelo conteúdo didático digital (no caso do Piaget, do Uno Internacional, uma empresa da editora Santillana), os professores do Piaget formaram uma espécie de clube do aplicativo. Cada um pesquisava e testava aqueles que poderiam ser usados em sala de aula. O resultado foi um banco de aplicativos, usados em combinação com o conteúdo curricular. Para fazer isso, os professores precisam de treinamento. “Tanto os que estão dando aulas agora quanto os que ainda não se formaram”, afirma Sérgio Amaral, coordenador do Laboratório de Inovação Tecnológica Aplicada na Educação, da Universidade de Campinas (Unicamp). Ele defende ainda que a única forma de fazer uma avaliação confiável do benefício dos tablets é usar métricas para avaliar o impacto no aprendizado.
Fora da escola, as editoras ainda têm muito trabalho a fazer. Há uma queixa geral entre educadores sobre o conteúdo digital oferecido. “Ainda precisa melhorar – e isso é urgente”, afirma Amaral. As editoras foram surpreendidas pela demanda das escolas particulares por versões para tablet. “Foi como um tsunami”, diz Fernando Moraes Fonseca Jr., gerente de inovação e novas mídias da editora FTD. Forçadas a mudar sua linha de produção e o perfil de seus funcionários (agora pesquisadores e educadores dividem suas mesas com programadores e desenvolvedores de softwares), elas ainda tentam se adequar. “O modelo de negócios ainda está indefinido”, afirma Sérgio Quadros, presidente da Associação das Editoras de Livros Didáticos e presidente da Santillana. A maioria das grandes editoras nem sequer vende o livro digital separado do impresso. O aluno compra o livro de papel e ganha um login e senha para acessar o digital.
O Brasil está no mesmo passo que outros países, que também tentam encontrar o melhor caminho para o uso dos livros didáticos digitais em tablets. A Coreia do Sul, com um dos sistemas de ensino mais eficientes e conectados do mundo, acaba de voltar atrás na decisão de substituir totalmente o livro impresso por tablets. Esse era o plano do governo, que começou a conversar com as editoras em 2009. Agora, as aulas serão com tablets e livros de papel. A justificativa foi a preocupação com o excesso de uso de aparelhos como smartphones, tocadores de música e tablets pelos jovens. Obrigar a usar mais um dentro da escola, avaliou o governo coreano, poderia ser mais prejudicial que benéfico. Os coreanos também não adotarão os aparelhos na alfabetização. Nos Estados Unidos, o governo anunciou no final do ano passado que todos os livros didáticos nas escolas públicas serão digitais.

SEM FRONTEIRAS Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seu acervo digitalizado está acessível a qualquer leitor do planeta (Foto: Kim Karpeles/Alamy)SEM FRONTEIRAS Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seu acervo digitalizado está acessível a qualquer leitor do planeta (Foto: Kim Karpeles/Alamy)

Assim como no ensino básico, o uso de livros digitais por alunos e professores nas universidades ainda é incipiente. E sua popularização é inevitável. Em geral, a exigência de leitura nos cursos de graduação é alta, e as bibliotecas não dão conta da demanda. Faltam espaços físicos e investimento em infraestrutura. A alternativa são as bibliotecas virtuais, com acervos de e-books em seu formato mais simples, apenas para leitura. “Incluir um vídeo ou uma animação para explicar determinado conceito é mais caro e mais complexo, mas é um caminho que pretendemos seguir”, afirma Rodrigo Madeira, gerente de novos negócios do Grupo A, uma editora de livros técnicos.
A oferta de obras inteiras digitalizadas ou de capítulos para consulta também representa uma economia para os estudantes e ajuda a evitar cópias ilegais, um dos principais desafios das editoras de livros voltados para cursos superiores. O grupo Estácio, presente em 20 Estados, distribui tablets com material didático para alunos de alguns de seus cursos. Pagou pelos direitos autorais de 100 milhões de páginas. Em média, cada disciplina requer a leitura de 150 páginas por semestre. Para evitar que os materiais sejam pirateados, os tablets pedem uma senha para o aluno de 30 em 30 dias, e os conteúdos têm ainda uma trava impedindo cópias.
As bibliotecas digitais das universidades seguem modelos diferentes. Em abril, será inaugurada a Biblioteca Pública Digital Americana. Ela oferecerá, gratuitamente, o acervo em domínio público de diversas bibliotecas acadêmicas do país. O projeto é coordenado pela Universidade Harvard. No Brasil, ao menos duas plataformas, formadas por grupos de editoras, já oferecem e-books em diversas faculdades. Elas pagam uma assinatura mensal para que seus alunos consultem livros científicos, técnicos e profissionais. Os estudantes são livres para ler a mesma obra quantas vezes quiserem, além de realçar partes do texto e fazer anotações, que ficam registradas numa conta individual.
O Projeto Minha Biblioteca, das editoras Saraiva, Grupo A, Atlas e Grupo Gen, armazena 3.400 e-books numa nuvem, um serviço para guardar dados on-line, que pode ser acessado por computador, tablet ou smartphone. O site existe há um ano e é usado por cerca de 20 instituições. A Biblioteca Virtual Universitária das editoras Pearson, Manole, Contexto, IBPEX, Papirus, Casa do Psicólogo, Ática, Scipione, Martins Fontes, Companhia das Letras, Educs, Rideel e Jaypee Brothers funciona desde 2005. Ela oferece cerca de 2 mil títulos para 130 faculdades. Há ainda o modelo da USP, que optou por um sistema próprio, com 300 mil e-books à disposição de seus alunos e, em parte, das comunidades da Unicamp e da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Tanto na universidade quanto na escola, os livros digitais estão chegando. O desafio agora é usá-los para melhorar o ensino.

Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com//vida/noticia/2013/03/escolas-particulares-adotam-os-livros-digitais.html>. Acesso em: 19 mar. 2013.

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Coleção Aplauso

Imprensa Oficial libera acervo de coleção Aplauso para download na web. Tudo grátis.

 “Preservar a memória da cultura nacional e democratizar o acesso ao conhecimento são os princípios da Coleção Aplauso, lançada pela Imprensa Oficial. Neste site você encontra biografias de artistas, cineastas e dramaturgos além de roteiros de cinema, peças de teatro e a história de diversas emissoras de TV. Todo esse acervo digital pode ser acessado gratuitamente.
Em um clique, você viaja pela história do cinema, da televisão e do teatro brasileiro na companhia de seus principais protagonistas. Uma ação para estudantes, pesquisadores e interessados na história da nossa cultura.”

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Empresas do ramo dos livros sentem peso da concorrência

Nilbberth Silva / Agência USP

http://www4.usp.br/index.php/institucional/16368-empresas-do-ramo-dos-livros-sentem-peso-da-concorrencia

O mercado do livro no País enfrenta dificuldades crônicas próprias da área e excesso de competição. As editoras de sucesso são aquelas que têm vantagens, como a vinculação a empresas maiores, multinacionais estrangeiras, organizações religiosas ou sistemas de ensino. Os leitores aprendem a ler por imposição e, para muitos, a leitura é um hábito difícil e não prazeroso. Essas são algumas conclusões de uma tese de doutorado defendida em novembro de 2008 na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP pelo editor José Rosa.

Com cerca de 20 mil funcionários e movimentando apenas R$ 3 bilhões, a indústria editorial tem uma importância econômica pequena no Brasil.

Fabricantes de livros têm problemas com falta de tempo das pessoas para a leitura, dificuldade de achar o livro “certo” em meio à grande oferta, escassez de bibliotecas e altos preços dos livros. Além disso, segundo o Instituto Brasileiro de Alfabetização Funcional (INAF) apenas 26% dos brasileiros de 15 a 64 anos mostraram capacidade de ler, entender e resumir textos longos e encontrar informações neles — alfabetização plena.

Além disso, um pequeno número de editoras domina uma parcela grande do mercado. “O Brasil tem, aproximadamente, 600 editoras. Dessas, 30 provavelmente detém 70% do faturamento da indústria do livro”, explica Rosa.

Editoras de sucesso geralmente estão vinculadas a grupos de mídia, a editoras globalizadas, redes comerciais, sistemas de ensino, ou a outras empresas, universidades e grupos religiosos. As editoras mais expostas à dificuldades do mercado são as pequenas nacionais e independentes. Essas têm menos poder de negociação, mas, como têm custos menores, acomodam-se melhor às mudanças do mercado editorial e a insucessos de seus lançamentos.

Editoras menores sobrevivem vendendo poucos livros, em geral e especializados em algum segmento. “O custo de montar uma editora é baixo, por isso é facil entrar no mercado. Mas é difícil vender livros e permanecer”, conta o pesquisador. Mesmo assim, no Brasil a quantidade de títulos aumenta — são lançados por volta de 1500 por mês. “Esses títulos têm menores tiragens. As livrarias não dão vazão a tudo”, explica Rosa.

Para escrever a tese, Rosa partiu de sua experiência profissional de 20 anos, analisou dados estatísticos e pequisas internacionais, entrevistou donos de livrarias e administradores bem sucedidos de editoras. Por fim, conversou com dez pessoas que lêem mais de 20 livros por ano e 12 que não tinham o hábito de ler, mesmo tendo condições para isso. A tese foi orientada pelo professor Mitsuru Yanaze.

Comportamento dos leitores
José Rosa obteve informações iniciais sobre o comportamento do leitor que podem dar base a outros pesquisadores, para maior aprofundamento. A tese mostra que leitores assíduos aprenderam a ler cedo e têm potencial para gastar tempo e dinheiro com o livro. Eles não prezam, necessariamente, pela qualidade e começaram a ler em razão de alguma necessidade.

Para a maioria das pessoas, ler é um exercício difícil e não-prazeroso. Ele geralmente surge por auto-imposição, imposição da escola, igreja, trabalho, ou por descoberta de livros que motivem muito o leitor. Depois, a leitura torna-se cada vez mais prazerosa. O pesquisador também percebeu que o livro é universalmente valorizado, até por quem nunca leu um.

Para o pesquisador, o futuro da indústria do livro é incerto. “O estilo de texto do livro deve sobreviver, mas em formatos digitais”, explica. “O livro digital é mais ecológico, com custos de produção e distribuição menores”. Rosa também considera possível que o livro perca a importância que teve no passado: ” Com a internet a pessoa acessa a informação e cultura sem passar pelo livro impresso”, explica.

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