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Da destruição dos livros ou o Brasil que anda para trás

“Quem destrói um livro mata a própria Razão.”

John Milton, Areopagitica, 1644

Marisa Midori Deaecto – Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Há algo de extraordinariamente atual na abertura de Pra Frente Brasil (1982), de Roberto Farias. O bordão do país do futebol e do milagre econômico que dá nome ao filme invade a tela em marcha a ré, enquanto o BRASIL, grafado em caixa alta, retrocede, avança e estaciona, cambaleando na tela. Cria-se, assim, uma forma de oximoro visual. É como se o termo da moda de hoje, RENOVAÇÃO, retroagisse em velocidade vertiginosa sobre a imagem de um BRASIL que teima em andar para trás.A proposta de rever a história recente da ditatura militar nos livros didáticos e os ataques aos livros da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) constituem provas eloquentes de um país cambaleante.

Sabemos que um fato e outro estão estreitamente relacionados, pois ambos representam a própria negação da história. Enquanto o revisionismo busca superar uma ideia, mesmo que para isso ele se sobreponha às evidências dos fatos – quantas vezes é preciso afirmar uma mentira para que ela se torne verdade? –, o ataque aos livros tem raízes mais profundas, na medida em que se apresenta como o ato físico e brutal de destruição da memória.

Em História Universal da Destruição das Bibliotecas, Fernando Báez enumera uma série de eventos nos quais o ataque aos livros ocorre de forma calculada. É o que vemos na noite da queima dos livros promovida por Goebbels, em 1933, logo após a ascensão do nazismo. Em Sarajevo, o bombardeio certeiro e prolongado à Biblioteca Nacional, em 1992, não teve outro propósito senão o de estender ao livro a mesma prática de genocídio que se cometia contra toda uma população. Os livros remanescentes da luminosa Alexandria, conta Luciano Canfora, alimentaram as caldeiras dos banhos públicos, por ordem do califa Omar, em 642. Ele justificara a sua ordem com um argumento irrefutável: “se seu conteúdo está de acordo com o livro de Alá, podemos dispensá-los, visto que, nesse caso, o livro de Alá é mais do que suficiente. Se, pelo contrário, contêm algo que não está de acordo com o livro de Alá, não há nenhuma necessidade de conservá-los. Prossegue e os destrói”.

Moral da história: quando são destruídos os livros, os homens se calam; perecem; morrem. E a história pode então ser contada de um único ponto de vista.

A proposta de rever a história recente da ditatura militar nos livros didáticos e os ataques aos livros da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) constituem provas eloquentes de um país cambaleante

Dentre os títulos destruídos na Biblioteca Central da UnB, salta aos olhos o volume Direitos Humanos, Imagens do Brasil, organizado por Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC. Outras edições desta mesma seara não passaram incólumes da ação voraz e destrutiva desse biblioclasta incontido. Mas sabemos bem que a destruição dos livros visa à aniquilação da humanidade, naquilo que lhe é mais caro, a saber, sua memória. Parece, nesse sentido, bastante sintomático que os volumes de direitos humanos, justamente estes, tenham sido os primeiros a periclitar. Como perdoar todos os esforços despendidos pelo Ministério dos Direitos Humanos, por suas secretarias e pelas Comissões da Verdade, setoriais e nacionais, que nos últimos anos tentaram resgatar a memória e a história de homens e mulheres vitimados pela violência da ditadura militar? Resgatar, enfim, um tempo soterrado sob a marca da “cordialidade” brasileira, mal disfarçada pela cortina da anistia.

Das páginas esquartejadas, arrancadas e esganadas de alguns volumes, que podem se converter em muitos outros volumes, em milhares ou milhões deles, como naquela noite terrível, em que os livros arderam em chamas, em que a humanidade ardeu em chamas, vitimada pela loucura nazista, o que sobrará para ser narrado às novas gerações? A história de um país que se renova caminhando para trás? A história de um povo que se encerrou em um solilóquio profundo, como aqueles personagens tristes, retratados por Ray Bradbury, em Fahrenheit 451?

O momento é delicado. Ele demanda muita atenção e inteligência, sob pena de se colocar o joio e o trigo num mesmo saco. É preciso compreender um gesto isolado, como este, da destruição dos livros no interior de uma biblioteca universitária, como a extensão de confrontos cotidianos, travados com a força das palavras e das armas. Pois não nos enganemos: a destruição dos livros é a marca da intolerância, no passado, no presente e no futuro. Mas qual futuro? Um futuro que se apoia em um estado de violência permanente, que se nutre do desespero ou do ódio? Nesse futuro, certamente os livros e os homens perecerão.

O futuro dos livros e da humanidade é o do diálogo, do debate, do uso da razão. É bem verdade que a difusão daquela imagem pungente de um volume esquartejado, tal como foi divulgada pela grande mídia, provocando reações várias, em diferentes segmentos da sociedade, nos faz acreditar que ainda resta uma esperança. A de que o livro e a ideia possam ainda superar essa onda de intolerância e de miséria que paira sobre nós. A ideia de que é preciso caminhar para frente. E que, para começar, basta dar um primeiro passo.

Marisa Midori Deaecto é professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Por  – Editorias: Artigos – URL Curta: jornal.usp.br/?p=201008
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Fala, Bibliotecária: 10 clássicos de Biblioteconomia! por Gabriela Pedrão

Introdução À Biblioteconomia + A Biblioteconomia brasileira no contexto mundial (Edson Nery da Fonseca)

– Missão do bibliotecário (Ortega y Gasset)

– As 5 leis da Biblioteconomia (Ranganathan)

– Introdução à catalogação + O que fazem os bibliotecários (Eliane Mey)

História da Biblioteconomia brasileira (César Augusto Castro)

Biblioteca + O que é biblioteca? (Luis Milanesi)

– Desenvolvimento de coleções (Waldomiro Vergueiro)

– O problema das bibliotecas brasileiras (Rubens Borba de Moraes)

Sociedade e Biblioteconomia (Oswaldo Francisco de Almeida Jr.)

A miséria da biblioteca escolar (Waldeck Carneiro da Silva)

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3 livros sobre bibliotecas e a biblioteconomia | Karin Paredes

Biblioteca – Luis Milanesi https://amzn.to/2vXB5Uz

Biblioteca – Lizandra Estabel e Eliane Moro https://amzn.to/2PnHaSq

Introdução à Teoria Geral da Biblioteconomia – Ronaldo Vieira https://amzn.to/2BqfHN0

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Descubra como catalogar filmes, séries, podcasts e livros na internet

Precisando de uma ajudinha para colocar em ordem o conteúdo que você consume? Com esses apps, você controla os filmes e séries que já viu, os podcasts que escuta e os livros que já leu!

Por Redação Vivo Tech09/07/2018 às 17:19

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Startup cria aplicativo para pais e filhos contarem histórias

O Inventeca ajuda o desenvolvimento da linguagem de crianças por meio da contação de suas próprias histórias
© Carlos Pupo

© Carlos Pupo
A  StoryMax, startup publicadora de app books – livros digitais interativos para tablets e smartphones – focados no público jovem lançou seu 10º aplicativo, o Inventeca. O aplicativo reproduz a experiência de leitura de livros de imagem para leitores de todas as idades e convida crianças a usarem a criatividade para imaginar as narrativas. Pais e mediadores podem também deixar histórias narradas prontas para serem ouvidas mesmo quando não estiverem presentes, diminuindo distâncias impostas por rotinas modernas. Até o momento, o Inventeca traz duas histórias ilustradas que cada leitor poderá navegar enquanto cria uma narrativa oral e a deixa gravada para compartilhar no seu aparelho. Outras histórias serão comercializadas em breve. O aplicativo está disponível para iOS e Android
PUBLISHNEWS, REDAÇÃO, 07/08/2018

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Conheça a biblioterapia e como a leitura pode combater a ansiedade

Muitos recorrem à leitura para desligar-se do mundo real e conhecer outros universos, mas o que a maioria dos “devoradores de livros” não sabe, é que a função da leitura vai muito além do deleite pessoal. Isso porque, hoje em dia, a prática literária já é utilizada no tratamento de problemas psicológicos. A origem dessa técnica, ainda pouco difundida no Brasil, é histórica. “Os egípcios, gregos e romanos já compreendiam a leitura como um remédio eficaz para o tratamento das dores da alma. Em 1272, os hospitais orientavam a seus pacientes a leitura do alcorão. E mesmo posteriormente, durante a Primeira Guerra Mundial, a biblioterapia ajudou a amenizar os traumas sofridos pelos soldados que participaram do confronto”, explica a biblioteconomista Isabel Cristina Venere, de 47 anos, que defendeu tese sobre o assunto.

A ampliação da percepção e da sensação de independência e a redução de medos e ansiedades são apenas alguns dos benefícios proporcionados pela biblioterapia. “A leitura age no equilíbrio emocional dos indivíduos, levando-os ao relaxamento extremo e estimulando a memória, sem falar que sua prática proporciona benefícios a todas as faixas etárias”, reitera a especialista.

A coordenadora de eventos, Regiane Rodrigues Rossini, de 46 anos, começou a ler frequentemente ainda jovem e logo descobriu o potencial terapêutico da leitura.
“Em agosto de 2012 sofri um derrame pulmonar e fiquei sem poder andar muito por algum tempo. Nesse período, como não podia fazer exercícios físicos, comecei a participar de um clube de leitura. Além de fazer novas amizades, o clube ampliou meus horizontes literários e, aos poucos, fui voltando às minhas atividades normais”, afirma, ressaltando o quão prazerosa pode ser a prática.

Efeitos
Os efeitos da biblioterapia se devem à imersão proporcionada pela literatura. “O ser humano acaba tendo um envolvimento emocional com o texto, aplicando o que lê a sua própria vida, é uma espécie de catarse literária”, acrescenta a biblioteconomista. Mas o simples ato de ler não corresponde à pratica da biblioterapia. “É algo bem mais complexo, uma vez que o material utilizado sempre é escolhido por uma equipe de profissionais, que estudam a situação de cada paciente”, frisa Isabel.

Ainda que sua eficácia seja comprovada, a biblioterapia não substitui nenhum tratamento médico. De acordo com o psicólogo Jefferson Willian Bucci, a biblioterapia é uma prática auxiliar. “Não se trata de uma prática psicológica, mas sim de uma terapia complementar, que pode auxiliar na solução dos problema da mesma forma que a prática de esportes, ou a acupuntura, por exemplo, portanto, não dispensa outros tratamentos de forma alguma”, esclarece.

A coordenadora de eventos Regiane Rossini conta que superou problemas pessoais com a prática da leitura (Foto: Rui Carlos)

A coordenadora de eventos Regiane Rossini conta que superou problemas pessoais com a prática da leitura (Foto: Rui Carlos)

Fonte: Portal Jornal Jundiaí

Disponível em: <http://www.crb8.org.br/conheca-a-biblioterapia-e-como-a-leitura-pode-combater-a-ansiedade/>. Acesso em: 18 jun. 2018.

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53 manuais para conservação de livros

O projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos, em 1997, publicou 53 títulos sobre a conservação preventiva de livros e documentos, de filmesfotografias e meios magnéticos na forma de 24 cadernos temáticos em formato A4.

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